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Jornal do Commercio (RJ) online

Mais quatro deixam o Governo

Publicado em 13 julho 2005

Ministério - Lula só deve concluir reforma na próxima semana, quando retornar da França

O presidente Luiz Inácio da Silva definiu ontem mais uma etapa da reforma ministerial. De acordo com o porta-voz da Presidência, André Singer, retornam à Câmara os ministros Aldo Rebelo (Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais), do PCdo B; Romero Jucá (Ministério da Previdência), que assume o mandato de senador pelo PMDB; o secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, que irá deixar o Governo para se candidatar às eleições do ano que vem pelo PT; e Eduardo Campos (Ciência e Tecnologia), pelo PSB. A pasta continuará sendo da cota da sigla, que indicou para a vaga Sérgio Resende, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
A Secretaria de Comunicação de Governo (Secom) deixa de ter status de ministério e passará a ser subordinada à Casa Civil. Com isso, o atual titular, Luiz Gushiken será agora secretário. A Secretaria de Direito Humanos também deixa de ter status de ministério e será subordinada ao Ministério da Justiça.
Já os Ministérios da Coordenação Política e do Desenvolvimento Econômico Social serão extintos e fundidos em uma secretaria especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Relações Institucionais, que será comandada pelo ministro Jaques Wagner.

Faltam definir nomes para previdência e saúde
Lula ainda não definiu os novos ministros da Previdência e da Saúde. O ministro Tarso Genro (Educação) permanecerá no Governo até o próximo dia 27. Seu substituto, o secretário-executivo Fernando Haddad, que chegou a ser anunciado por Genro na manhã de ontem, ainda não foi confirmado pelo Palácio do Planalto. Singer informou ainda que novas mudanças na equipe poderão ser anunciadas na próxima segunda-feira, depois da viagem que o presidente Lula fará a França, onde participará das comemorações do ano do Brasil na França. A previsão é de que ele retorne a Brasília no próximo sábado.
Lula escolheu o presidente da Fianciadora de Estudos e Projetos (Finep), Sérgio Machado Rezende, para substituit Eduardo Campos no Ministério de Ciência e Tecnologia. Rezende, de 65 anos, tem uma carreira de pelo menos 40 anos no setor, com formação em Engenharia Eletrônica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RJ) e pós-graduação pelo Massachussets Institute of Technology (MIT), nos EUA, tendo passagens pela Unicamp, Universidade Federal de Pernambuco e Universidade da Califórnia em sua carreira acadêmica.
Rezende entrou para a gestão pública em 1986, quando coordenou a proposta para o setor de ciência e tecnologia do governo estadual de Miguel Arraes. Três anos depois, foi nomeado para a diretoria científica da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe).
Na terceira gestão de Arraes (1995-1998), foi secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Em fevereiro 2003, foi indicado para a presidência da Finep, empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia e que é responsável pelo fomento a projetos de inovação tecnológica.
Entre cientistas, a indicação de Rezende para o cargo foi bem-recebida. Para pesquisadores, Rezende tem perfil adequado tanto para lidar com mundo acadêmico quanto para fazer articulações políticas. "Esta qualidade é essencial, principalmente para defender interesses da área dentro do próprio governo e com outros ministérios", avalia o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Enio Candotti.

Indicação de rezende acalma a comunidade científica
A indicação de Rezende também apaziguou o setor. Cientistas estavam satisfeitos com a condução da política de Ciência e Tecnologia. No seu curto mandato, o ministério colecionou vitórias no Congresso, como a aprovação da Lei de Biossegurança, da Invovação Tecnológica.
Diante das especulações crescentes no últimos mês sobre a saída de Campos, pesquisadores temiam que um nome controverso pudesse ser indicado para a pasta. Um sobressalto, no entanto, que não foi vivido pelo ex-reitor da Unicamp e diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique Brito Cruz. Ele conta que o nome de Rezende já foi apontado em outras oportunidades para assumir o cargo e que, diante das especulações sobre a saída de Campos, a indicação de Rezende novamente voltou a ser cogitada.
O secretário especial de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, negou hoje que tenha pedido demissão porque a pasta ter perdeu o status de ministério. "Há 40 dias vinha conversando com o presidente Lula sobre minha saída", afirmou Nilmário, que na terça-feira entrega o cargo para se dedicar à campanha a presidente do PT de Minas.
"Antes, havíamos acordado que eu sairia no final do ano. Mas hoje pedi para ser incluído na reforma. E o presidente concordou." Se permanecesse no Governo, disse Nilmário, teria de fazer campanha para presidente do PT mineiro apenas nos finais de semana. "Agora, a dedicação será integral", assegurou, acrescentando que vai trabalhar para vencer a disputa, marcada para 18 de setembro, e ajudar o PT a dar a volta por cima.
"Quero defender o Lula, o governo e o PT", afirmou ele, destacando que a crise instalada no País "é política". Sobre a escolha de seu substituto, afirmou. "Não sei quem será. Na terça-feira o presidente vai anunciar."
Antes de participar da abertura de evento com jovens infratores em Brasília, à noite, o secretário especial de Direitos Humanos elogiou a escolha do ministro demissionário da Educação, Tarso Genro, como presidente do PT, assim como a do ex-ministro do Trabalho Ricardo Berzoini para a secretaria-geral do partido e do deputado José Pimentel (CE) para a tesouraria.
Nilmário disse ainda que deixa o Governo, após 30 meses, satisfeito com seu desempenho e os avanços conquistados à frente da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Ele destacou o projeto Presidente Amigo da Criança, entre outras ações desenvolvidas.

Tucanos consideram irrelevante anúncio das modificações
Os tucanos avaliaram ontem como irrelevante a reforma ministerial. Após reunião de sua Executiva Nacional, em Brasília, disseram que a mexida na equipe não propiciará a virada política desejada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"Está se trocando seis por meia dúzia. É difícil não ter essa sensação", disse o prefeito de São Paulo, José Serra, que é também é presidente nacional licenciado do PSDB.
O senador Eduardo Azeredo (MG), que exerce a presidência interinamente, afirmou que a reforma "não muda muito". "O Governo teve a chance de fazer uma reforma mais adequada, no início do ano, mas preferiu fazer aos poucos, o que não ajudou. O PMDB, por exemplo, estava dividido e continua dividido mesmo após a reforma", declarou.
A Executiva, na reunião, também decidiu reforçar sua equipe técnica de apoio aos integrantes das CPIs dos Correios e dos Bingos. "Se preciso, vamos contratar pessoal de apoio", declarou Azeredo. Bem coordenados nas declarações, os tucanos repetiram que a prioridade no momento é centrar fogo nas investigações e deixar a definição a respeito do candidato a presidente para mais tarde. "É preciso deixar a situação política ficar mais clara", disse o líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP).
Nem a leve subida na popularidade de Lula na pesquisa da CNT/Sensus desanimou o partido. "Os fatos ainda estão acontecendo e a percepção a respeito do que está acontecendo na grande massa da população vai penetrando pouco a pouco", declarou o prefeito de São Paulo.
Os tucanos também rechaçaram a realização de um "acordão" com o governo, pelo qual preservariam Lula em nome do fim da reeleição. "Não existe acordo de poupar o presidente. A pior coisa que pode acontecer é não levar essa apuração às últimas conseqüências", declarou Serra.

Lula chega hoje a Paris com 6 ministros
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca hoje com seis ministros na capital francesa para participar das comemorações do 14 de julho, data nacional da França. Para que a visita de três dias não tenha apenas caráter festivo por conta dos eventos culturais e artísticos relativos ao Ano do Brasil na França, o Itamaraty teve o cuidado de incluir uma série de compromissos oficiais na agenda do presidente. Mas conciliar os interesses em um período de férias francesas e, ao mesmo tempo, dar contéudo e um tom discreto à viagem, consumiram tempo e energia das delegações dos dois países.
O programa oficial só foi divulgado ontem às 15h30 (horário de Brasília). Mesmo assim, os quatro acordos bilaterais previstos para serem assinados na sexta-feira ainda estão em fase de negociação.
Convidado especial do presidente Jacques Chirac, com quem se encontrará amanhã, Lula e os ministros ficarão na casa de hóspedes do Governo francês, em Marigny, a poucos metros do Palácio do Eliseu.
O primeiro encontro de amanhã será, às 10h30, na Sorbonne, onde vai falar no seminário "Brasil-atual" para um público de intelectuais e estudantes. Em seguida, participa de um almoço de trabalho com empresários brasileiros e franceses, organizado pelo Movimento das empresas da França (MEDET).
Como não houve tempo para atualizar os nomes dos interlocutores, Lula e seus ministros devem ser recebidos pelo ex-presidente do MEDET, Ernest Antoine Selliere, e não por Laurence Parisot, que tomou posse no comando da entidade há uma semana. Terminada essa agenda, ele segue direto para a prefeitura de Paris, onde o prefeito Bertrand Delanoe oferece um coquetel para mais de mil pessoas.
Depois do jantar, também na prefeitura, o presidente acompanhará o socialista Delanoe até a Praça da Bastilha para o famoso baile que é realizado na véspera dos festejos da data nacional. Será uma noite tipicamente brasileira, com apresentação do ministro da Cultura, Gilberto Gil, e de cantores como Lenine, Gal Costa, Jorge Mautner, Jorge Benjor, Seu Jorge, Daniela Mercury e outros.
O primeiro encontro entre Lula e Chirac, que também está passando por uma situação política delicada e com baixa popularidade, está marcado para amanhã. Será na cerimônia militar realizada na Place de la Concorde que o Brasil estará outra vez representado com o desfile de 60 cadetes da escola de Agulhas Negras e a exibição da Esquadrilha da Fumaça. Depois do desfile, o presidente Lula vai ao Palácio do Eliseu se somar aos seis mil convidados de Jacques Chirac para uma recepção nos jardins.