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Mais poderosas, mulheres cientistas produzem mais que homens no Brasil

Publicado em 08 março 2020

Na semana passada, o esforço para rapidamente sequenciar o genoma do coronavírus identificado em um brasileiro foi liderado por um grupo de pesquisa composto em sua maioria por mulheres – fato que acabou chamando tanta ou mais atenção que o feito científico em si. Mulheres que se destacam na ciência, porém, estão longe de ser uma raridade no País, apesar de ainda reinarem algumas desigualdades.

A proporção entre homens e mulheres que publicam pesquisas no Brasil vem crescendo e está cada vez mais próxima, como revelou o recém-publicado relatório A Jornada do Pesquisador pela Lente de Gênero, da editora científica Elsevier. O levantamento aponta uma proporção de 0,79 mulher para cada homem que publica artigos no Brasil. Em porcentagem: 44,25% são mulheres e 55,75%, homens. O estudo foi antecipado pela Revista Pesquisa Fapesp.

A pesquisa considerou a paridade de gênero entre cientistas de 15 países – além da União Europeia como bloco – a partir de publicações em periódicos da base Scopus em dois períodos: entre 2014 e 2018 e entre 1999 e 2003.

Ao longo desses 20 anos, houve um avanço da participação feminina em todo o mundo. Passou de 29% para 38% o número de mulheres entre os autores de pesquisas científicas. No Brasil, no início do século, 35,3% dos autores eram mulheres.

Atualmente, em termos de paridade, o País só perde para Portugal (48,32%), e para a Argentina, única nação que tem mais mulheres cientistas assinando artigos que homens: 51%. Mas fica à frente de países como Estados Unidos (33,62%), Alemanha (32,02%) e França (38,91%). A pior proporção foi registrada no Japão, com apenas 15,22% de mulheres entre os autores de pesquisas.

Mas se na autoria da pesquisa, o mundo como um todo está mais próximo da paridade de gênero do que há uma década, com o tempo, a proporção de mulheres para homens como autores diminui. Isso contribui para que os homens publiquem mais, tenham maior impacto e exposição ao avanço da carreira internacional.

No Brasil, no período de 2014 a 2018, cada homem publicou, em média, 4,27 artigos, ante 3,11 por mulher. Mas essa diferença, aparentemente, teve pouco impacto no nível de citação dos autores por outros pesquisadores, que foi similar para os dois gêneros.

CARGOS DE CHEFIA

“Em geral a presença feminina melhorou como um todo na educação no País. No ensino médio, elas completam mais os estudos que os meninos. Uma análise feita pela OCDE com pessoas entre 18 e 30 anos mostrou que enquanto 30% delas não havia terminado o ensino médio, entre os homens era mais de 40%”, comenta a bioquímica Helena Nader, de 72 anos.

Ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e atual vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena afirma que há avanços claros, mas pondera que ainda são poucas as pesquisadoras do Brasil que chegam a cargos elevados na academia.

“O cenário está melhorando, hoje as mulheres são maioria entre os ingressantes do ensino superior e elas também se formam mais que os rapazes. Na pós, como um todo, também, mas entre os bolsistas de produtividades do CNPq os homens ainda são maioria”, aponta.

Essas bolsas do CNPq, principal órgão de fomento à ciência do País, têm os valores mais altos e aumentam à medida que cresce a produção do pesquisador. Levantamento feito pela ONG Gênero e Número sobre a base do CNPq em 2015 observou que apenas 5% dos bolsistas 1AFapesp”, enumera.

Na Capes, dos 49 coordenadores de áreas, somente 14 são mulheres. Uma delas é Cristina Parada, de 56 anos, que coordena a área de Enfermagem. Pesquisadora e chefe do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, ela diz que sente menos a disparidade de gênero justamente por estar na área com a maior presença feminina.

Mas diz que na produção científica em geral ainda há o problema. “Trabalhamos muito, com competência, mas ainda somos menos conhecidas e reconhecidas”, afirma. Na sua experiência profissional, diz que sempre buscou adotar uma postura em que demandou ser tratada em pé de igualdade. Mas sabe que não é assim para todas, em especial em relação à maternidade.Trabalhamos muito, com competência, mas ainda somos menos conhecidas e reconhecidas”

Uma das questões que faz as mulheres serem preteridas em bolsas de produtividade é porque o tempo considerado para medir a produção corre igual para os dois gêneros. Então mulheres que se ausentaram na gravidez ou na licença maternidade acabam ficando com indicadores mais baixos – um critérios que as mulheres tentam mudar.

“Eu busco ter esse cuidado com quem trabalha conosco, com nossas alunas, porque a maternidade é tão importante, tão única e cada vez mais rara. A maioria vai passar por isso uma, no máximo duas vezes na ida. E a gente tem de alguma maneira proteger alunas, colegas de trabalho. Fazer crítica é absolutamente incabível”, ressalta.

“Acho que o que a mulher brasileira conseguiu em tão pouco tempo, não ocorreu em nenhum outro lugar. Não podíamos ir à escola, votar. A mulher percebeu que consegue ter família, cuidar dos filhos, fazer ciência. Agora já temos mais mulheres como reitoras, apesar de ainda serem minoria. Está aumentando”, diz Helena.

Além dela, a SBPC teve somente duas outras presidentes mulheres: a pioneira Carolina Bori e Glaci Zancan. Na ABC, Helena é a segunda mulher a ocupar uma vice-presidência. Mas ela afirma que está preocupada que haja um retrocesso.

“A ciência está sob ataque. O país está retrocedendo, com machismo, com piada de mulher. E me preocupa que isso venha de representantes do governo. Está voltando a velha ideia de que a responsabilidade dos filhos, da casa, é da mulher. E que se mantenham os recursos na ciência, ou não vamos ter nem mulher nem homem na ciência.”O país está retrocedendo, com machismo, com piada de mulher. E me preocupa que isso venha de representantes do governo. Está voltando a velha ideia de que a responsabilidade dos filhos, da casa, é da mulher.”

MAIS NAS BIOLÓGICAS, MENOS NAS EXATAS

A distribuição mais equânime observada no estudo de gênero por autores, porém, não se mantém em todas as áreas do conhecimento. As cientistas brasileiras ocupam posições melhores nas médicas e biológicas. Considerando os temas dos artigos publicados entre 2014 e 2018, a participação feminina era majoritária na autoria de estudos sobre diabetes e endocrinologia (1,44 mulher para cada homem); psicologia (1,65) e pediatria (1,81).

A área com mais mulheres, disparada no estudo, é enfermagem, com 2,7 mulheres para cada homem – uma hegemonia que se repete em todo o mundo e que, no caso do Brasil aumentou ao longo dos anos. No levantamento anterior, apesar de elas já serem maioria, a relação era menor: 1,6 para 1.

Chamam atenção os saltos observados em algumas áreas. Em fertilidade e nascimento, por exemplo, elas deixaram de ser minoria no período de 1999 a 2003 (0,8 mulher para cada homem) para se tornarem maioria no período de 2014 a 2018 (1,53 para 1). Isso também ocorreu em clínica médica geral (de 0,77 para 1,32) e em neurociência (de 0,85 para 1,20).

Elas são maioria também, mas já em mais pé de igualdade com homens, em estudos de bioquímica, câncer, biologia molecular e celular, odontologia, medicina, farmacologia e saúde pública.

Nas exatas, porém, elas ainda estão sub-representadas. Apenas 0,25 para 1 tanto na ciência da computação quanto em matemática – em taxas que praticamente não mudaram desde o período anterior. Nas engenharias e na área de energia, elas são apenas 0,3 para cada homem.

Mas em todas as outras áreas houve alguma melhora. Em ciências planetárias, por exemplo, a proporção subiu de 0,26 para 0,46 para cada homem. Em economia, foi de 0,1 para 0,4. Em ciências agrícolas, de 0,56 para 0,82.

PERFIS

Para chamar a atenção para o avanço feminino dos últimos anos, foi lançada no começo de fevereiro uma plataforma online, a Open Box da Ciência, que destaca 250 cientistas consideradas protagonistas em suas áreas.

Foram selecionadas 50 mulheres em cada uma de cinco áreas analisadas – Ciências Sociais Aplicadas; Ciências Biológicas; Ciências Exatas e da Terra; Ciências da Saúde e Engenharias.

O projeto cruzou dados do Censo da Educação Superior com informações de outras bases de dados oficiais, como a Plataforma Lattes, para rastrear os número de artigos científicos publicados, prêmios recebidos, eventos organizados pelas cientistas e se elas estão engajadas em divulgação científica. Helena Nader, Cristina Parada e a cirurgiã Angelita Habr-Gama (veja um perfil dela nesta reportagem) são algumas das pesquisadoras destacadas. Conheça as histórias de outras cinco.

SAÚDE AS MULHERES E O GENOMA DO CORONAVÍRUS

ESTER SABINO

PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE MOLÉSTIAS INFECCIOSAS DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP

A médica Ester Sabino, de 60 anos, faz ciência de ponta não é de hoje no Brasil. Em meados dos anos 1990, foi uma das pesquisadoras a montar uma rede que fez o sequenciamento genético do HIV no Instituto Adolfo Lutz, quando o País despontava no tratamento da aids.

Em 2015 se tornou a primeira mulher a dirigir o Instituto de Medicina Tropical da USP e no ano seguinte, com a epidemia de zika, mergulhou nas arboviroses. Mas foi na semana que passou, ao liderar o grupo que sequenciou o genoma dos dois casos de coronavírus no Brasil, que Ester ficou instantaneamente famosa. Ela e toda a sua equipe – formada majoritariamente por mulheres.

O feito de sequenciar o genoma rapidamente pareceu ter recebido ainda mais destaque por ter mulheres à frente dele. “Passei um bom tempo lendo comentários das matérias para tentar entender o que estava acontecendo. Não entendi muito bem ainda, mas acho que foi uma história que mexeu com algum sentimento das pessoas, com o emocional”, disse Ester ao Estado, na terça-feira, 5 (leia a reportagem completa), “É um sentimento de orgulho pela ciência brasileira, por serem mulheres por trás das pesquisas. Orgulho acho que foi a palavra que mais ouvi”, conta a coordenadora do Projeto Cadde (Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus), que desenvolveu uma tecnologia rápida e barata para sequenciar vírus e, assim, conseguir monitorar o desenvolvimento de epidemias em tempo real.É um sentimento de orgulho pela ciência brasileira, por serem mulheres por trás das pesquisas. Orgulho acho que foi a palavra que mais ouvi.”

O trabalho com o coronavírus foi possível justamente porque o Cadde vem acumulando experiência no assunto desde o surto de zika. “Aqui no Brasil temos tido muitas epidemias. Então, estamos ficando espertos”, brinca. “Veja a Itália. Quantas epidemias eles tiveram nos últimos tempos? Talvez pudessem ter feito com o sarampo. Mas aqui temos sarampo, zika, chikungunya, dengue, febre amarela. É uma atrás da outra.”

JAQUELINE GOES DE JESUS

BIOMÉDICA, FAZ SEU PÓS-DOC EM MOLÉSTIAS INFECCIOSAS NA USP

A bioquímica Jaqueline Goes de Jesus, de 30 anos, pós-doutoranda em Moléstias Infecciosas sob orientação de Ester, estava fazendo esse monitoramento para o surto atual de dengue quando o coronavírus chegou ao Brasil. Foi ela que fez a ponte com o Instituto Adolfo Lutz, responsável pela vigilância da doença em SP e que recebeu a amostra para confirmar a infecção.

“Fizemos o sequenciamento dentro da nossa rotina que já tínhamos com a dengue. As pessoas falaram bastante de ter sido feito em 48 horas , e na hora a gente pensou: ‘mas isso é normal aqui dentro’. Depois vimos outros pesquisadores elogiando e pensamos: ‘puxa, acho que é uma grande coisa mesmo’”, diz Jaqueline.

Da noite para o dia, a pesquisadora baiana, formada na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, conta que viu o número de seguidores na sua conta de instagram passar de mil para mais de cem mil. “Descobri que teve uma campanha por eu ser mulher, negra, nordestina.”

Apesar de assustada com a repercussão inicial, Jaqueline agora quer aproveitar a onda. “Ganhamos visibilidade como cientistas e isso ajuda a inspirar outras mulheres. A maior parte dos comentários foi porque as mulheres estavam querendo incentivar outras mulheres na ciência. Elas se sentiram representadas, viram que têm em quem se inspirar”, afirma Jaqueline.Descobri que teve uma campanha por eu ser mulher, negra, nordestina.”

Ela planeja agora usar sua conta no instagram, que ganhou milhares de seguidores, para divulgar os trabalhos do grupo. “Vou fazer a divulgação científica das nossas descobertas lá. Mostrar coisas que acontecem na universidade e as pessoas nem sabem. E não ser pontual, mas mostrar que a ciência é importante.”

BIOLÓGICAS DO SONO AO SEXO

MONICA LEVY ANDERSEN

PROFESSORA E VICE-CHEFE DO DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA DA UNIFESP

O tema principal de pesquisa da bióloga Monica Levy Andersen, de 46 anos, é considerado ainda meio tabu mesmo dentro da ciência: o impacto que dormir mal pode ter sobre a sexualidade.

Especialista em sono, já descobriu que não ter boas noites de sono pode levar à impotência. A apneia, por exemplo, pode acabar prejudicando a ereção; o homem privado de sono tem redução de testosterona; a mulher tem menos frequência sexual e satisfação; a insônia pode piorar a TPM.

“Havia apenas cinco pesquisadores em todo o mundo que estudava o assunto quando eu comecei, em 2000. Tem muito estudo sobre sono no mundo, mas a maioria sobre os impactos nas alterações cardíacas, no bem-estar em geral. Acho que ainda existe um certo tabu, vergonha”, conta a pesquisadora, que percebe, por outro lado, uma enorme curiosidade de colegas por seus resultados, mesmo que velada, algumas vezes.

Por parte dos pacientes que ela avalia no Instituto do Sono, da Unifesp, há um sentimento de alívio. “Muitos têm dificuldade de debater isso com seus médicos. Mas já ouvi de homens comentários do tipo: ‘Ufa, agora está explicado… Tenho apneia e há três anos não tenho uma ereção’”, lembra a pesquisadora.

No ano passado ela coordenou a quarta edição do maior levantamento sobre problemas de sono na capital paulista, o Episono São Paulo. É uma pesquisa feita de porta em porta, na casa das pessoas, para basicamente saber como dorme o paulistano e quais consequências ele pode ter – não apenas no campo sexual.Em muitos casos, quando vai se buscar um especialista brasileiro em um assunto, é sempre o fulano, quase nunca a mulher.”

Cerca de mil entrevistados – com idades entre 20 e 80 anos – foram depois para o Instituto do Sono para passar a noite e ter possíveis distúrbios avaliados por polissonografia. Os dados ainda estão sendo compilados e devem ser divulgados no segundo semestre. O levantamento anterior, de 2007, tinha mostrado que 1/3 das mulheres participantes tinha insônia e 40% dos homens roncavam e tinham apneia.

Monica conta que sempre quis ser cientista e uma das suas linhas de trabalho é incentivar crianças a também buscarem uma carreira em ciências. Para isso, edita o gibi “Dona Ciência”São Paulo ficou debaixo d’água, a física Sandra Padula, de 63 anos, esperava receber cerca de cem garotas, todas estudantes do ensino médio, para ter um dia de discussão sobre um assunto que nenhuma delas provavelmente jamais tinha visto na escola: a física de partículas.

Era um evento para celebrar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, criado pela ONU para ser comemorado no dia 11 de fevereiro. Apesar de a cidade ter ficado em boa parte intransitável, inclusive a Barra Funda, onde se localiza o IFT, cerca de 50 meninas conseguiram chegar para aprender sobre o tema cabeludo. No meio da tarde, porém, a luz teve de ser cortada no câmpus e a programação foi adiada. Será realizada justamente neste fim de semana que coincide com o Dia Internacional das Mulheres.

“Esse hoje é o meu xodó”, conta Sandra. “Nessa aventura incrível que é fazer física experimental de altas energias, veio também uma outra paixão: fazer divulgação científica e trazer alunos para explicar o que é isso”, diz a pesquisadora que investiga partículas presentes nos núcleos dos átomos. Ela colabora, desde 2008, com os experimentos que são feitos dentro do maior acelerador de partículas do mundo, o LHC.

Seu foco é nas propriedades do chamado plasma de quark-glúon, que se forma nas colisões de prótons de núcleos de chumbo. Supõe-se que esse estado da matéria seja similar a uma condição que teria existido no início do Universo. “É ciência pura em que buscamos entender o universo em que vivemos, como ele se comporta. Mas para poder estudar experimentalmente, é preciso desenvolver tecnologias sofisticadas que acabam levando a vários outros desdobramentos, como tomografia, ressonância, o touch screen”, explica.

“A física que a gente aprende na escola para no século 19, nem tem Higgs”, reconhece ela, citando talvez um dos mais famosos resultados do LHC, a comprovação da existência do bóson de Higgs, em 2012, partícula que havia sido teorizada nos anos 1960. E por isso mesmo ela se esforça para levar o conhecimento avançado da física experimental em eventos de divulgação em geral e em iniciativas voltadas especialmente para as meninas.Um tio me disse que eu ia esquecer da família. Que a realização é ter filhos. Fui a primeira da minha família a fazer graduação. Eu fiz física e a família veio depois.”

“Ainda existe uma estrutura de ideias silenciosas de que as exatas não são apropriadas para as mulheres”, diz, citando como um instrumento importante a criação da plataforma online Open Box da Ciência, que destaca 250 pesquisadoras brasileiras protagonistas em suas áreas. Sandra foi escolhida entre 50 cientistas da área de Ciências Exatas e da Terra. Ela conta que quando era adolescente também sentiu uma pressão da família para tentar outra área. Se era para ir para as exatas, que fosse para a engenharia, em vez de ser cientista. “Um tio me disse que eu ia esquecer da família. Que a realização é ter filhos. Fui a primeira da minha família a fazer graduação. Eu fiz física e a família veio depois.”

Para ela, as coisas estão mudando. Uma das escolas públicas que participa do seu projeto de divulgação, os estudantes foram incentivados a criar um varal de desejos. “Me mandaram uma foto do varal e várias meninas escreveram que queriam ser cientistas”, conta.

“Acho que a plataforma pode ajudar a mudar esse paradigma esquisito e mostrar que não é assim e que não precisa ser assim. Mostrar que mulheres escolheram essas áreas, inspirando outras meninas a irem atrás. Até que cheguemos a uma situação em que a gente não precise mais de uma plataforma para destacar as mulheres. Assim como talvez um dia a gente não precise mais de cotas, porque teremos alcançado a igualdade.”

ENGENHARIAS EM ÁREA COM PREDOMÍNIO MASCULINO, ELA VÊ OÁSIS E LIBERDADE

BLUMA GUENTHER SOARES

QUÍMICA E PROFESSORA DO INSTITUTO DE MACROMOLÉCULAS DA UFRJ

Ao completar 50 anos de UFRJ, a química Bluma Guenther Soares, de 68 anos, guarda, em meio as comemorações, uma mágoa. “Pior do que a falta de recursos atual da ciência, me dói o que andam falando por aí dos professores, dos cientistas. Estamos aqui trabalhando em janeiro, fevereiro, sem férias, porque temos alunos no laboratório para orientar, defesas de teses de doutorado para assistir, e ouvimos que somos parasitas, que ninguém trabalha, que aqui é balbúrdia”, afirma se referindo a declarações dos ministros da Economia, Paulo Guedes, e da Educação, Abraham Weintraub.

E mesmo com as dificuldades atuais, conta que não tem a menor intenção de se aposentar. “Se eu tiver com esse pique todo, vou até os 75 anos (quando ocorre a aposentadoria compulsória). Se parar, eu morro. Tenho ainda muitos planos, muitas coisas para fazer”, diz a professora do Instituto de Macromoléculas (IMA), que também dá aulas na graduação de Química, na pós em Ciência e Tecnologia de Polímeros e na Engenharia de Materiais e Metalúrgica.

Ela orienta atualmente cerca de 30 anos alunos e se dedica à pesquisa de materiais condutores voltados, principalmente, para blindagem eletromagnética, Bluma e seus alunos buscam por materiais que podem proteger equipamentos de ondas eletromagnéticas, que poderiam comprometer a transmissão de dados, por exemplo. Há uma aplicação tanto para a área civil quanto para a militar, para navios e aviões passarem despercebidos por radar.

Apesar de atuar nas engenharias, onde ainda há um predomínio masculino, Bluma conta que a questão de gênero para ela nunca foi forte. Originária da área de química, onde há uma presença maior de mulheres, ela defende que a universidade, como um todo, é um “oásis”. “No meio acadêmico existe competência, trabalho, todos são basicamente iguais. Acho que é um oásis num país que discrimina a todos: negro, pobre, mulher. Aqui ainda existe liberdade”, afirma.

Nascida no interior do Rio, na cidade de Barra do Piraí, o único obstáculo que ela lembra ter enfrentado foi a oposição da mãe quando disse que queria fazer Química. Para isso, teria de cursar o então Científico (uma das divisões da época para o que hoje é o Ensino Médio) – onde, praticamente só havia homem. A mãe queria que ela fizesse o Normal, para já poder sair com formação para ser professora. O acordo a que chegaram foi que ela faria os dois: um de manhã e o outro à noite.

“O duro mesmo é que lá só tinha o científico em um colégio estadual noturno. Era longe, tinha de pegar ônibus, ficava num lugar escuro. Mas depois que eu entrei na UFRJ minha mãe era só elogio, só orgulho, contava para todo mundo”, brinca. Bluma fez toda a sua carreira de graduação, mestrado e doutorado no mesmo câmpus do Fundão. O pós-doc foi na Universidade de Liège, na Bélgica.

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Estadão.com JC Notícias (São Paulo, SP)