Notícia

Jornal da USP

Mais perto de uma vacina

Publicado em 31 agosto 2003

O Instituto Butantan - em parceria com a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia e 20 laboratórios da Agronomical & Environmental Genomes do Programa Genoma da Fapesp - está próximo de criar uma vacina contra a leptospirose humana. Com investimentos da ordem de R$ 776 mil, vindos da Fapesp, pesquisadores seqüenciaram o genoma do maior causador da doença no Brasil, o Leptospira interrogans sorovar copenhageni, considerado o mais severo. "A idéia é encontrar uma proteína que possa servir de vacina contra todos os tipos de sorovar", comenta Ana Lúcia Nascimento, professora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e coordenadora do projeto. O grande problema, segundo Ana Lúcia, é que há vários tipos de leptospirose e não existe uma forma eficiente de diagnóstico da doença. "O teste sorológico é muito subjetivo. O anticorpo que ele detecta aparece somente 15 dias após a infecção. Queremos achar uma proteína que responda logo no início", afirma. Entretanto, para que a idéia da vacina fosse cogitada, o grupo passou por uma série de etapas, desde a pesquisa do genoma até a patente nos Estados Unidos. Entre o início de 2001 e o final de 2002, os laboratórios seqüenciaram o genoma da leptospira. Até fevereiro do ano passado, por meio da bioinformática, codificaram-se cerca de 2.000 genes, que foram depositados no banco de patentes americano em caráter provisório. Depois de um ano, o grupo foi obrigado a dizer quais eram as proteínas potencialmente viáveis para a fabricação da vacina e que poderiam ser utilizadas no diagnóstico da doença. Entre fevereiro de 2002 e fevereiro de 2003, o grupo separou de 300 a 400 proteínas. Dessas, 200 foram clonadas e 23, tidas como potenciais. Foram essas 23 as patenteadas nos Estados Unidos. "Fizemos isso nos Estados Unidos porque no Brasil é mais complicado", comenta Ana Lúcia. A patente é importante para que o Brasil possa pesquisar e comercializar essas proteínas. "Assim, podemos reivindicar um uso mais amplo, que vai desde a vacina até o diagnóstico da leptospirose", afirma a professora. "O Butantan é um instituto que produz as mais variadas vacinas. É de interesse do Brasil e dos Estados Unidos combater a leptospirose. Aqui, a humana, lá, a animal." Como a doença pode ocorrer de maneira branda e severa, uma política de combate à bactéria a partir de uma campanha de vacinação poderia diminuir gastos da saúde pública com internações e diálises, fora os dias em que o paciente é obrigado a se afastar do trabalho. De acordo com dados da Fundação Nacional da Saúde (Funasa), durante os anos de 1987 a 2001, foram notificados 46.180 casos da doença no País, com uma taxa de 6,5% a 20% de mortalidade. No Estado de São Paulo, de 1986 a 2000, houve mais de 8 mil casos e 1.141 registros de óbito. A leptospirose pode ocorrer tanto no ambiente rural quanto no urbano. Mas é nas grandes cidades que a doença adquire um caráter mais severo. Isso se deve ao grande número de moradias à beira de córregos, em locais sem saneamento básico e sem condições adequadas de higiene e habitação. Como a leptospirose é transmitida pela urina do rato, águas e solos de locais com alta insalubridade são ambientes perfeitos à proliferação da doença, ainda mais se aliados a alagamentos nos períodos de chuvas. A criação de uma nova vacina contra a doença atenderia a essas camadas mais pobres da população, que estão mais suscetíveis à doença. O projeto do Instituto Butantan encontra-se no segundo ano. "Os testes em humanos devem começar depois de dez anos de pesquisa", prevê Ana Lúcia.