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Brasil Econômico

Mais linhas de financiamento para incubadores de SP

Publicado em 06 novembro 2009

Por João Paulo Freitas

Em 2002, Willian Carnicelli e Luiz Carlos Zanotti, dois ex-executivos da indústria farmoquímica (que fabrica químicos para medicamentos), decidiram montar sua própria empresa. A intenção era produzir no país algumas matérias-primas que são importadas pelas fabricantes de remédios. Na busca por um local para instalar o empreendimento — batizado de Alpha Br Produtos Químicos  - ele conheceram o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), a maior incubadora da América Latina, instalada na Universidade de São Paulo (USP). A empresa, que há sete anos ocupava 42 metros quadrados, hoje espalha-se por 350.

Carnicelli gosta de contar que criar a empresa dentro do Cietec foi o melhor começo possível. A incubação permitiu que seu sócio e ele se dedicassem exclusivamente aos desenvolvimento do negócio. Vigilância, telefonia, informática, entre outras necessidades básicas de qualquer empreendimento nascente, ficaram por conta do Cietec. Mesmo contando praticamente apenas com capital dos sócios, a empresa prosperou. Em 2008, o faturamento foi de R$ 1,15 milhão. Neste ano, o montante deve chegar a R$ 2,5 milhões.

Esse é um exemplo de como o processo de incubação pode significar a diferença entre o sucesso empresarial e a falência em poucos meses. A própria trajetória do Cietec demonstra

de como o movimento de incubação tem evoluído. Em 2008, as empresas incubadas ali faturaram R$ 42 milhões, valor 25% superior ao de 2007. Quando deu início às atividades, em 1998, o Cietec contava com 15 empresas incubadas. No final do ano passado, o número havia subido para 121.

Avanço paulista

A incubação de empresas é uma atividade particularmente forte em São Paulo, região do país que parece possuir inovação e tecnologia em seu próprio código genético, como diz o exgovernador e atual secretário de Desenvolvimento do estado, Geraldo Alckmin. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), o estado possui 74 incubadoras, totalizando mais de mil empresas incubadas.

Os números são vistosos. Porém, o que revela mais é o esforço de inúmeros empreendedores. É fato que ainda há muito a ser feito no que diz respeito ao estabelecimento de ambiente propício à incubação e à inovação no estado. Mas algumas ações recentes são sinal de que tanto o poder público quanto a iniciativa privada começaram a olhar a atividade como fundamental à economia como um todo e particularmente lucrativa aos investidores.

Como observa o diretor executivo do Cietec, Sérgio Risola, um dos principais desafios de um empreendimento inovador nascente é conseguir capital suficiente para que a fase inicial

do projeto, uma das mais difíceis, seja superada. Por isso, programas como o Primeira Empresa Inovadora (Prime), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e que atualmente encontra-se em sua primeira fase, são tão importantes.

O programa, que teve início no começo deste ano, visa ajudar financeiramente empresas nascentes inovadoras. Na visão da superintendente da área de subvenção e cooperação da Finep, Gina Paladino, ele funciona como uma espécie de fundo de capital semente (dinheiro necessário para que um empresa dê seus primeiros passos). Nesta primeira fase, o programa conta com R$ 230 milhões. Em São Paulo, 298 empresas incubadas foram contempladas com R$ 120mil cada.

Do lado do setor privado, há poucos meses a Associação Brasileira de Venture Capital & Private Equity (Abvcap) criou um comitê voltado ao empreendedorismo e ao capital semente. Na avaliação de Risola, do Cietec,  a corrente está extremamente favorável às incubadoras. “Isso é muito bem-vindo. Nenhuma empresa, principalmente as de ponta, consegue alçar voo sem capital, sem investimento. Nunca as incubadoras foram tão assediadas”, diz.

Porém, ele observa que é preciso que as próprias incubadoras se organizem para que possam receber investimentos  e investidores. É o que está acontecendo, pelo menos no estado de São Paulo, onde foi criada, no último dia 15 de outubro, a  Rede Paulista de Incubadoras (RPI), com 56 associadas.

Risola, que também é presidente  do conselho deliberativo da nova entidade, diz que a união dará mais força às incubadoras  para que possam fazer desde reivindicações junto ao poder público até o estabelecimento de novos modelos de formação de administradores.

Apoio governamental

Para alguns dos envolvidos com o universo da incubação, o governo do estado tem feito pouco pelo segmento. Os mesmos críticos também reconhecem que a situação, ao que parece, começa a mudar, principalmente devido à ação da secretaria do desenvolvimento.

Em junho, ela lançou o primeiro edital do Fundo Estadual de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcet), com R$ 10 milhões em linhas de crédito para projetos de inovação e pesquisa tecnológica de micro e pequenas empresas paulistas. É um bom sinal.

Três perguntas a Geraldo Alckmin, Secretário de Desenvolvimento e ex-governador do Estado de São Paulo

Para o secretário de Desenvolvimento de São Paulo, Geraldo Alckmin, o estado é sinônimo de inovação e tecnologia. Por isso, ele reconhece que é preciso melhorar as condições para o surgimento de empresas inovadoras, principalmente no que diz respeito a linhas de financiamento.

Qual é a importância da inovação para o estado? O que tem sido feito para estimulá-la?

Pesquisa, inovação e o avanço tecnológico estão no DNA do estado. Regulamentamos a Lei Paulista de Inovação [nº 1.049/2008], que estabelece avanços importantes na questão. Ela dá diretrizes à Rede Paulista de Incubadoras (RPI) e ao Sistema Paulista de Parques tecnológicos (SPTec). Este último permite a união entre conhecimento e produção, pesquisa e indústria. Já são nove os parques tecnológicos em credenciamento provisório [trata-se do primeiro passo para entrar no sistema. Ainda não há parques com credenciamento efetivo]. Na semana passada credenciamos o de Santos, voltado para a área de petróleo, gás, logística e tecnologia de informação. O próximo será o de Barretos, dedicado à biotecnologia.

As incubadoras alegam que faltam linhas de financiamento. Como o governo do estado vê essa reivindicação?

Elas têm razão, isso realmente é uma necessidade. Por isso lançamos o primeiro edital do Fundo Estadual de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcet), que disponibiliza R$ 10 milhões em linhas de crédito para projetos de inovação, com um limite de R$ 200 mil por empresa. A taxa de juros é de 6% ao ano, o que é quase zero, considerando a inflação. Estamos preparando outro edital, que pode sair em até 50 dias.

Quanto o estado tem investido nesse setor?

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) é a grande fonte de financiamento. São 800 milhões por ano, isto é, 1% do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços]. Somando 2008 e 2009, estamos investindo cerca de R$ 30 milhões nos parques tecnológicos.