Notícia

Gazeta Mercantil

Mais espaço para os cientistas

Publicado em 29 dezembro 1998

Por Maria Clara R. M. do Prado
Não há país que consiga crescer e desenvolver-se sem pesquisa científica. Ao lado da educação em todos os níveis, investir em ciência e tecnologia talvez seja o presente maior que os governos e a iniciativa privada podem dar à sociedade. Não dá frutos de imediato nem torna ninguém famoso da noite para o dia. É, porém, mais fundamental do que ficar dando tratos à bola, à busca de formas imaginativas que viabilizem o aumento das exportações. E o que importa quando se quer dar o verdadeiro salto para perto dos desenvolvidos. Os cientistas e pesquisadores brasileiros não ficam a dever muito. Já são hoje autores de 1% da produção mundial de artigos publicados em revistas internacionais especializadas nas mais diversas áreas de conhecimento. Ou seja, essa participação mais do que duplicou nos últimos quinze anos. Uma marca significativa, que leva o Brasil a dividir a mesma posição com a Coréia em matéria de publicação internacional. São competidores no campo da literatura científica. No entanto, nada têm a ver um com o outro no campo prático. Quando se trata de dar vida ao conhecimento, a Coréia está muito à frente. Esse país detém 1 % das patentes registradas nos Estados Unidos. Já o Brasil tem, nos mesmos Estados Unidos, trinta vezes menos patentes registradas. Há no caso brasileiro uma distorção que é facilmente explicada: "O setor empresarial do País não investe em inovação tecnológica e pesquisa, esse tipo de investimento continua muito concentrado no meio acadêmico, e patente é coisa que não nasce dentro das universidades, mas resulta de pesquisas desenvolvidas dentro das empresas", comentou para a coluna o físico José Fernando Perez, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Sempre há muita festa quando alguém ou alguma instituição científica toma a iniciativa de buscar um canal de entrosamento com o setor privado nacional. Os discursos proliferam saudando a necessidade de uma vinculação mais estreita entre universidade e empresa, mas fica por aí. Em geral, os empresários brasileiros pouca importância dão à existência de um departamento de pesquisa e desenvolvimento e não se vislumbra o dia em que esse departamento possa ser tratado com o mesmo status que se confere ao departamento financeiro ou operacional. Ou seja, os cientistas brasileiros estão preparados para pensar. Afinal, o País desenvolveu um forte sistema de pesquisa básica nos últimos trinta anos. Têm capacidade técnica e conhecimento para competir no exterior, mas não conseguem transformar o resultado de suas pesquisas em produtos ou práticas de produção que efetivamente tenham impacto na vida de seus conterrâneos, seja pela redução de custos, seja pela melhoria de padrão de vida, ou pela maior racionalidade que possam imprimir ao cotidiano. "Nosso desafio é ampliar as fronteiras da pesquisa, mas para isso é preciso fazer com que ela migre para o ambiente empresarial e não fique apenas no ambiente acadêmico", observa o professor Perez. Enquanto a mentalidade não muda, a Fapesp tem atuado como uma espécie de catalisadora ao ajudar no financiamento de projetos do setor privado, no Estado de São Paulo. A Fapesp, como se sabe, pertence ao governo estadual de São Paulo e é alimentada com uma verba assegurada e diretamente vinculada à receita fiscal do estado: 1% de toda a arrecadação de impostos é obrigatoriamente destinada a ela. Isso a transformou no principal órgão de financiamento à pesquisa e à distribuição de bolsas de estudo em São Paulo, à frente da atuação do CNPq e da Capes no território paulista. O programa que visa incentivar a pesquisa dentro do setor privado já atinge mais de 100 empresas. Dessas, 41 são atendidas pelo sistema da parceria. São empresas de maior porte. Aqui, os interessados da área privada entram com boa parte do dinheiro. Já outros 61 projetos envolvem pequenas empresas. Só são selecionadas as propostas que atendam a dois requisitos: que privilegie a inovação tecnológica e que tenha potencial comercial. É tudo muito novo. São programas que não têm mais de dois anos de existência. Chega a causar espanto quando se sabe o avanço em que se encontram outros países nessa área. No campo da concessão de bolsas de estudo no País - que ocupa cerca de 30% dos recursos da Fapesp-, ficam sempre pendentes os efeitos que os cortes de gastos do setor público federal terão sobre o CNPq e a Capes. Por mais que se procure avançar, a defasagem também aqui ainda é enorme. Dados preliminares de um trabalho realizado pela própria Fapesp, tomando por base o ano de 1995, mostram um diferença gritante: enquanto no Brasil a relação é de um pesquisador para 2.237 habitantes, nos Estados Unidos isso cai drasticamente para 273 habitantes e na França a relação é ainda mais estreita, de um pesquisador por 184 habitantes. A "Análise Comparativa entre Indicadores Mundiais de C&T e Indicadores de São Paulo e do Brasil", que a Fapesp pretende editar em breve, mostra também que naquele mesmo ano de 1995 os investimentos brasileiros na área de pesquisa e desenvolvimento atingiram US$ 4,6 milhões, correspondentes a 0,6% do PIB. Uma migalha, ante os US$ 156,6 milhões despendidos pelos Estados Unidos, um valor equivalente a 2,12% do PIB norte-americano. A França investiu US$ 24,2 milhões, ou 1,62% do PIB. Essa defasagem o Brasil precisa encurtar. E não é preciso esperar pelo nunca alcançado ajuste fiscal. E mais do que hora de os empresários abrirem as vistas, ficarem espertos e começarem a se mexer. Seu sucesso no futuro depende basicamente dos investimentos que fizerem hoje em ciência e tecnologia. (Esta coluna sai todas as terças, quintas e sextas-feiras)