Notícia

Jornal do Commercio (RJ) online

Mais duas parcerias para testes

Publicado em 30 maio 2005

O Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas (Ladetel), da USP de Ribeirão Preto (SP) está negociando duas novas parcerias para testes com uso de biodiesel em frotas de ônibus e pick-ups do Estado do Rio e da Bahia. O coodernador do Ladetel, professor Miguel Dabdoub, não adiantou detalhes dos projetos, porque os termos dos acordos estão sendo fechados, mas reforçou que o interesse das empresas pela pesquisa de desempenho do biocombustível nos seus motores é crescente, o que continuará motivando futuras demandas no centro de referência tecnológica.
A mais recente parceria do Latetel foi fechada no dia 17 deste mês, na presença do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, e visa à homologação e validação junto à Agência Nacional de Petróleo (ANP) da adição de 5% a 20% de biodiesel ao diesel de petróleo em tratores - atualmente é permitida no Brasil a adição voluntária de até 2%.
Participam desse acordo para ampliação de pesquisa com biocombustível a fabricante de tratores Valtra, Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), de Jaboticabal, Texaco, Delphi e Cooperativa dos Citricultores de Bebedouro (Coopercitrus). Os testes serão realizados na Usina Catanduva e a expectativa de Dabdoub é de que estejam concluídos em 12 meses.
Com o incremento do uso de biodiesel em tratores, as usinas de açúcar e álcool que já produzem combustível mais limpo e utilizam fontes renováveis de geração energética para movimentar suas caldeiras, entre as quais, a biomassa, poderão também reduzir as emissões provocadas pelos veículos usados nos canaviais. Em época de safra, os tratores chegam a consumir de 15 mil a 25 mil litros de óleo diesel por dia.
O professor Dabdoub explicou que, devido a essa preocupação, em 2001 o Ladetel iniciou testes para uso de biodiesel nos tratores da fabricante Valtra, obtendo grandes avanços. Nas avaliações de campo, os equipamentos demonstraram bom desempenho com uma mistura de até 50% de biodiesel (B-50) ao diesel de petróleo. Com a incorporação oficial do biodiesel na matriz energética brasileira, a parceria agora visa à homologação de utilização do biocombustível acima do percentual permitido pelo Governo.
A pesquisa de desempenho do uso de biodiesel nos tratores da fabricante Valtra, iniciada há três anos, teve a participação também da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Fundo de Pesquisa da Unesp (FundUnesp). Com essa política de busca da redução das emissões de Gases do Efeito Estufa (GEEs) - advindos principalemente da queima de combustíveis fósseis - substituindo o diesel pelo biocombustível, a Valtra conquistou a certificação ambiental ISO 14001.
- Todos os testes realizados até agora foram um sucesso, e por isso estamos buscando essa homologação junto ao Governo - observa o coordenador do Ladetel. O professor lembrou que uma pesquisa com veículos da Peugeot Citroen, realizada durante um ano e meio, comprovou excelente desempenho com adição de 30% de biodiesel (B-30) ao diesel de petróleo.
Com os resultados dessas e de outras pesquisas e a garantia de que os fabricantes podem utilizar com sucesso percentuais maiores de biodiesel em seus motores a tendência é de que gradativamente sejam requisitadas novas validações e homologações junto ao Governo, explica o professor. Outro processo que já está em curso, nesse sentido, é o de validação de adição de 5% de biodiesel (B-5) para caminhões e ônibus.
- O Brasil está desenvolvido tecnologicamente para uso de biodiesel, na USP de Ribeirão Preto temos o centro mais avançado de testes, mas temos uma escala de produção lenta, e isso pode transformar-se em complicador para que o País atinja, em três anos, a meta de produzir 800 milhões de litros - quando passará a ser obrigatória a adição de 2% de biodiesel ao diesel de petróleo.
O coordenador do Ladetel sustenta que, para alcançar a meta planejada, o Governo brasileiro precisa ampliar a oferta de incentivos fiscais. Atualmente eles são dados apenas a produtores de palma e mamona, radicados nas regiões Norte e Nordeste, onde a produção seja feita em regime de agricultura familiar.
Dabdoub considera que o Programa Nacional de Biodiesel, lançado em dezembro do ano passado pelo Governo Lula, é excelente pelo fato de buscar a inclusão social e o desenvolvimento regional, mas é de opinião que precisa ter alguns pontos revistos e um deles está relacionado à questão tributária.
- É preciso que os marcos tributário e tarifário sejam modificados para motivar os investidores porque hoje os incentivos são limitados - reforça Dabdoub.
O professor afirmou que, sem renúncia fiscal, o biodiesel brasileiro não será competitivo. Ele afirmou que, com a atual carga tributária e incentivos limitados à agricultura familiar no Norte e Nordeste, o biocombustível terá preço equivalente ao diesel de petróleo.
- O Brasil vive um estado de euforia quando se fala em biodiesel, devido às vantagens sociais e ambientais que o combustível renovável pode oferecer, mas é preciso que esse sentimento se transforme em união de esforços para identificar e resolver os gargalos existentes - conclui.