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Mais doutores, mais patentes

Publicado em 25 maio 2009

Por Marcela Buscato

A ciência brasileira vai crescer. Mas, para fazer parte do primeiro pelotão do conhecimento, precisamos resolver – agora – os entraves à pesquisa

As tecnologias desenvolvidas pela Embraer lhe valeram a posição de terceira maior fabricante de aviões do mundo. Seus jatos feitos para voar distâncias curtas, cotados entre os mais modernos do mundo, rivalizam com os da gigante empresa americana Boeing e da francesa Airbus. Suas aeronaves executivas, para poucos passageiros, dominam o mercado mundial. São exemplos de um Brasil que pode se tornar uma potência científica e tecnológica. Mas, por enquanto, exceções. Na próxima década, o progresso tecnológico brasileiro ainda não deverá ter a velocidade de um dos modernos jatos da Embraer. Em 2020, é provável que o desenvolvimento de novas tecnologias esteja na pista de decolagem na maior parte da indústria brasileira.

É crucial investir em inovações, porque elas tornam os produtos mais competitivos em relação aos estrangeiros e agregam um novo e valioso item à carteira de exportações nacional: conhecimento. As inovações aumentam o valor das exportações, geram mais empregos, ajudam o país a crescer.

“Em dez anos estaremos no segundo pelotão do avanço tecnológico”, afirma Ricardo Mendes, diretor da consultoria de políticas públicas Prospectiva, que a pedido de ÉPOCA analisou o rumo científico e tecnológico do país nos próximos dez anos (leia o quadro) . “O Brasil poderá até disputar em competitividade com alguns países da Europa que desaceleraram seu investimento em inovação, como a Itália. Mas não terá condições de se aproximar de China e Índia, que já estão se destacando na área.” A produção científica brasileira não está parada. Segundo dados da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica, ela quintuplicou entre a década de 1980 e a de 2000. Mas a da China aumentou 26 vezes. Isso significa perder espaço na competição internacional. O número de patentes concedidas pelo Escritório de Marcas e Patentes dos Estados Unidos à Índia aumentou 60% entre 2001 e 2003. Os registros chineses cresceram 55%. Os brasileiros caíram 10%.

Nos próximos dez anos deveremos melhorar esses indicadores, mas não a ponto de superar a distância tecnológica que nos separa de expoentes como China e Índia. Produziremos mais artigos científicos, depositaremos mais patentes, teremos mais profissionais qualificados saindo das universidades e um número maior de empresas investindo em pesquisa. “O avanço tecnológico já é uma preocupação nacional, e não de partidos políticos”, afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, agência do governo estadual. “Mesmo que haja mudanças de governo, é provável que a atual política de investimento na ciência e tecnologia permaneça.” Até 2020, os efeitos de medidas adotadas pelo governo federal na última década deverão começar a aparecer.

A Lei do Bem, criada em 2005, permitiu às empresas deduzir do Imposto de Renda o investimento em pesquisa. A Lei de Inovação Tecnológica, em vigor desde 2004, libera cientistas ligados a universidades para trabalhar em empresas e permite ao Estado investir em projetos de instituições privadas. O objetivo é resolver um problema antigo: empresas afastadas das pesquisas e universidades voltadas para estudos de base – importantes para a compreensão da ciência, mas que raramente geram novos produtos. No ano passado, os cientistas brasileiros escreveram 2% dos artigos publicados no mundo, o que coloca o país em uma posição relevante na produção científica global: 13o lugar. Mas, entre as nações que mais solicitam patentes, o país está em 24o lugar.

A ideia da atual política de inovação é proporcionar às demais áreas da indústria brasileira o salto tecnológico já vivido pelo setor de exploração de petróleo, representado pela Petrobras, e pelo aeronáutico, encabeçado pela Embraer. Hoje, eles são considerados referências internacionais porque foram tratados como estratégicos pelo governo e receberam investimentos desde as décadas de 1950 e 1960. Formaram um elo estreito com instituições de pesquisa (a Embraer com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA) e investiram em departamentos próprios de inovação (o Cenpes, da Petrobras, é o exemplo).

O próximo setor a dar esse salto deverá ser o da biotecnologia. Já produzimos avanços importantes, como a criação de uma insulina que não causa alergia nos pacientes e o sequenciamento de uma bactéria que ataca plantas frutíferas, e somos pioneiros na fabricação de um combustível renovável, o etanol.

Quão competitivo o Brasil se tornará em 2020 dependerá da disposição dos governos para resolver entraves. Desde pendengas na legislação, que dificultam a obtenção de verbas públicas e a isenção de impostos para atividades de pesquisa, até a falta de mão de obra qualificada (não só doutores, também técnicos de linhas de produção). Outro desafio é acabar com a imagem de “país da pirataria”. Ao contestar pontos do acordo internacional de patentes em prol das nações emergentes, o Brasil afugenta investidores que temem não ter reconhecida a patente da inovação que ajudaram a criar. É uma agenda cheia para os próximos dez anos.