Notícia

Jornal da USP

Mais dinheiro para a cana-de-açúcar

Publicado em 03 agosto 2007

Por Marcelo Basso, de Piracicaba

Evento sobre tecnologia sucroalcooleira movimenta negócios no valor de R$ 1 bilhão, entre eles um acordo da Fapesp para financiamento de pesquisas sobre novos métodos de produção de etanol

Entre os dias 17 e 20 de junho, a cidade de Piracicaba abrigou a quinta edição do Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologia da Agroindústria Sucroalcooleira (Simtec). Mais do que as melhorias tecnológicas no processo de produção de etanol a partir da cana-de-açúcar, outros dois assuntos predominaram nas apresentações técnicas: co-geração, já adotada por algumas usinas para a obtenção de energia elétrica, e o desenvolvimento de novos métodos para a produção de etanol a partir do bagaço da cana.

A produção de eletricidade na usina está tão em moda que o Simtec abrigou ainda um simpósio simultâneo voltado às oportunidades de geração de energia elétrica utilizando a queima do bagaço e da palha da cana, o Simcoger. "Uma das finalidades do simpósio é mediar e disponibilizar as informações para o setor sucroalcooleiro. No momento a demanda energética é pela eletricidade", destaca José de Jesus Vaz, coordenador-geral do Simtec.

Análises comparativas sobre a geração de energia elétrica a partir da queima do bagaço e da palha da cana já apresentam viabilidade e garantem retorno de investimentos. O Grupo Dedini, maior indústria de base do Brasil, assinou contrato no valor de R$ 80 milhões com a empresa Sykué Bioenergya para a construção de uma usina geradora de eletricidade a partir do capim-elefante. A cultura foi escolhida devido à sua alta capacidade de receber energia solar e transformar em matéria celulósica, através de um ciclo de produção completamente limpo, renovável e economicamente viável.

A planta será construída na Usina de São Desidério, na Bahia, e inicialmente sua capacidade será de 30 megawatts, limite mínimo de produção para o investidor receber os benefícios para cobrir os custos da transmissão, que chegam a 10% no valor final da conta. "O projeto foi elaborado respeitando a legislação brasileira quanto à geração de eletricidade no mercado livre. Por isso, o grupo pretende investir em outras unidades, para alcançar seu objetivo de 300 megawatts", explica Ana Maria Diniz, representante da empresa.

O encerramento do simpósio contou com a presença de Marcos Sawaya Jank, recém-empossado presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), que se mostrou entusiasmado com os novos investimentos na área de co-geração, tecnologia que passou a denominar de bioeletricidade. "O governo acabou de anunciar investimentos para a usina nuclear de Angra 3, que vai custar R$ 7,2 bilhões para produzir 1.300 megawatts. Hoje, o setor sucroalcooleiro produz 5 mil megawatts e exporta 2 mil para a rede elétrica, com potencial para chegar a mais de 20 mil megawatts", afirmou o presidente da entidade que congrega e representa mais de 100 unidades produtoras de açúcar e álcool. Jank reforçou que a Unica pretende instalar pelo menos quatro escritórios de representação, em vários pontos do mundo, para liderar as discussões sobre a certificação do setor canavieiro e especificações para o etanol.

Segundo José de Jesus Vaz, as discussões sobre o mercado da bioeletricidade contribuirão para o crescimento do setor e para a economia do País. "O setor pode chegar à produção correspondente a três Itaipus, ou seja, 20% da necessidade brasileira", explicou o coordenador. "Por que o Brasil tem de investir em hidroelétrica no rio Madeira, em termoelétrica a carvão, supersuja, e em usina nuclear, com os riscos que todos nós conhecemos, quando há, em São Paulo, um mundo de biomassa para gerar eletricidade?", questionou.

Criado em 2003, graças ao impulso que o setor sucroalcooleiro tomou nos últimos anos, quando o mundo passou a entender as matrizes energéticas como fundamentais para a sobrevivência do planeta, a quinta edição do Simtec 2007 tinha uma expectativa de fechar negócios em torno de R$ 350 milhões, número que foi superado por inúmeros convênios e acordos selados pelos participantes, atingindo a cifra de um R$ 1 bilhão só no evento, com perspectivas de R$ 4 bilhões nos próximos quatro anos.

Fapesp — Um exemplo expressivo das negociações firmadas durante o Simtec ocorreu entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Dedini Indústrias de Base, que aproveitaram a oportunidade para anunciar o fechamento de uma cooperação científica no valor de R$ 100 milhões. O acordo prevê o financiamento de estudos conjuntos, em universidades e institutos de pesquisa, na busca de novas tecnologias para a produção de etanol de cana-de-açúcar.

De acordo com José Luiz Olivério, vice-presidente de operações da Dedini, o convênio permitirá pesquisas conjuntas entre as universidades e a empresa. "O mais natural é que o trabalho se desenvolva nos centros de pesquisa das universidades com participação dos profissionais da empresa. Mas, se houver projetos que necessitem da construção de protótipo, os pesquisadores da universidade poderão ir para a usina."

Válido por cinco anos, o convênio terá aporte financeiro de R$ 50 milhões de cada uma das partes e os projetos serão definidos em conjunto entre a Dedini e os pesquisadores das universidades e instituições paulistas envolvidos nas pesquisas. "O século 20 foi marcado pelo 'ouro preto' e poluente. O século 21 será marcado pelo 'ouro verde'", afirmou o governador do Estado, José Serra, que esteve na abertura do evento e prestigiou a assinatura do convênio.

Essa foi a maior parceria assinada até o momento entre a Fapesp e uma empresa privada. "O acordo com a Dedini foi uma escolha lógica, já que é uma das principais empresas do mundo na área de tecnologia industrial para a produção de etanol", afirmou o presidente do Conselho Superior da fundação, Carlos Vogt.

O diretor-científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, destacou o aumento das atividades empresariais ligadas ao setor de produção do etanol no País. "Hoje, o etanol é um assunto de interesse mundial e temos que privilegiar o fomento à pesquisa tecnológica, para que ajude a manter o Brasil entre os principais produtores e exportadores de álcool."

Além do sucesso econômico do Simtec, durante os quatro dias o evento recebeu perto de 22 mil pessoas. Segundo Vaz, a larga superação das previsões de negócios reflete o desenvolvimento do setor sucroalcooleiro. "Neste ano, os empresários visitaram a feira com o real propósito de investir. Nas edições anteriores houve muita pesquisa e especulação de negócios, mas ainda existia receio de instabilidade do setor. Agora os visitantes vieram para fechar negócios e adquirir novas tecnologias", explicou.

Durante o Simtec, foram realizados paralelamente três outros eventos tecnológicos: o Simpósio de Biotecnologia em Etanol e Biodiesel (Simbio), o Simpósio sobre Co-geração de Energia (Simcoger) e o Simpósio sobre Manutenção e Tecnologias Industriais (Simantec), promovendo cerca de 35 palestras.