Notícia

Jornal da USP

Mais acesso, qualidade e visibilidade da produção científica

Publicado em 03 agosto 2009

Por Patrícia Santos

Ter um artigo científico publicado é parte do ciclo de pesquisa, exige esforço do autor muitas vezes em um longo caminho: da definição do título ideal, passando por cuidados técnicos, conclusão, até a escolha do periódico para publicação, submissão, revisão e publicação. Por outro lado, a visibilidade do trabalho e, quem sabe, sua citação em outros artigos é parte do reconhecimento almejado por qualquer autor.

Esse processo contribui para aumentar o impacto da pesquisa científica ao comunicar informação de qualidade, essencial para a evolução tecnológica, econômica e social. Reunir publicações científicas na internet, com acesso livre e gratuito aos seus textos completos, foi a estratégia para a criação da biblioteca Scielo (Scientific Eletronic Library On-line), pioneira nessa modalidade de acesso aberto, disponibilizando artigos publicados em periódicos científicos brasileiros.

Iniciada em 1997, a Scielo é resultado da cooperação entre a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e Bireme (Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde), com o apoio de editores científicos, agências e conselhos de ciência e tecnologia nacionais e internacionais e, desde 2002, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

A Scielo tem a média de mais de 7 milhões de acessos por mês. Entre os usuários inscritos no portal, estudantes de graduação são a maioria, seguidos de especialistas em diversos níveis, que, conectados a partir de qualquer lugar do mundo, têm acesso a 196 periódicos brasileiros. A iniciativa inaugurada no Brasil inspirou o desenvolvimento da Rede Scielo em outros 11 países latino-americanos, além de Portugal, Espanha e, em breve, África do Sul. O conteúdo total, até maio de 2009, é de cerca de 600 periódicos e 200 mil artigos publicados. Os artigos Scielo geram a base de 4 milhões de citações aproximadamente.

Abel Packer, diretor da Bireme e coordenador operacional da Scielo, afirma que "hoje a Scielo constitui uma instância essencial da comunicação científica do Brasil e países ibero-americanos. Ela opera em rede com coleções nacionais e temáticas, com uma plataforma tecnológica que segue o estado da arte da publicação científica on-line, posicionando os periódicos dos países em desenvolvimento com destaque no fluxo global de informação científica. De fato, trata-se do mais importante empreendimento de publicação científica em acesso aberto entre esses países".

Para fazer parte da Scielo, os artigos são publicados em periódicos científicos que, por sua vez, disponibilizam suas edições na rede Scielo, em português, inglês ou espanhol. Entre os campos obrigatórios, os artigos devem ter ao menos o resumo em inglês, promovendo maior visibilidade do conteúdo, já que, de qualquer lugar do mundo, é possível saber o que se estuda no Brasil ou em outros países da rede Scielo.

A busca possibilita acesso ao conteúdo publicado e indexado por diferentes sistemas na web. Para isso, todo documento na Scielo recebe links de hipertexto que levam o usuário a bases de dados nacionais e internacionais, como a Lilacs (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), Medline (Literatura Internacional em Ciências da Saúde e Biomédica) e Google Scholar, entre outras.

Na Scielo, o usuário pode ainda reunir uma coleção de artigos de seu interesse, encontrar trabalhos similares ou traduzi-los para outros idiomas. É possível monitorar artigos, saber quando os textos foram citados por outros colegas e obter estatísticas de acesso aos trabalhos publicados, entre outros recursos para autores.

Ciência brasileira se destaca - Rogério Meneghini, coordenador científico da Scielo, lembra que a Scielo também promove uma etapa importante no ciclo de fazer ciência: a publicação em periódicos. "Para que sejam selecionados para a coleção Scielo, é preciso que os periódicos desenvolvam capacidades e infraestruturas, com todos os desafios e benefícios que isso acarreta", afirma.

As publicações passam pela seleção feita por uma equipe técnica e pela avaliação de assessores ad hoc, que opinam sobre a qualidade do conteúdo, forma e desempenho dos periódicos, com critérios de avaliação internacionais. Assim, a Scielo registra mais de mil pedidos de ingresso na coleção entre 2001 e 2008, sendo que 160 foram aprovados.

Para Meneghini, exigir a melhoria dos periódicos científicos contorna uma melhor avaliação dos artigos e as publicações estabelecem um fluxo de informação que pode ser detectado pelo quanto são citadas.

No âmbito internacional, os 33 periódicos nacionais disponíveis na Scielo e no índice Journal Citation Report (JCR) tiveram um aumento médio de 118% do fator de impacto (FI), entre 2002 e 2007. O JCR é responsável pela produção do indicador cienciométrico FI, que relaciona o total de citações recebidas por um periódico ao número de artigos publicados num determinado intervalo de tempo.

"Dados a partir do JCR mostram que a posição expressiva do Brasil é certamente auspiciosa. O peso da Scielo não fica comprovado, mas é o que mais próximo se pode alcançar do ponto de vista cienciométrico para se avaliar o papel exercido por ela", declara Meneghini.

O Brasil também é responsável por um porcentual importante da ciência mundial disponível em acesso aberto. A edição de janeiro de 2009 do Journal of the Medical Library Association traz um estudo na área biomédica, com base em artigos indexados em 2005 na base de dados de literatura biomédica Pubmed. Destes, 26% estavam em acesso aberto. Entre os 20 países com o maior número de artigos publicados na amostra, os primeiros autores eram da Bélgica (41,7%), Índia (40%) Canadá (37,6%) e Brasil (36,4%). O Brasil se destaca ainda com alto índice de disponibilização em acesso aberto por meio de portais como a Scielo (85%) e em sites de periódicos (10%).

"A Scielo procura contrabalançar a tendência acadêmica de drenar a nata da produção científica para a literatura internacional de prestígio. Esse grupo de autores ainda hoje é pequeno", lembra Meneghini. Um artigo do periódico Scientometrics, de 2005, edição 62, mostra que entre os 240 periódicos de maior fator de impacto do ISI há 12.498 desses gatekeepers, ou seja, bons pesquisadores em posições de destaque em corpo editorial de periódicos mais prestigiosos do mundo. Desse total, apenas 28 eram do Brasil (0.22%).

USP usa metodologia Scielo - Além dos periódicos que já faziam parte da coleção Scielo, a USP também passou a usar a metodologia Scielo para ter suas publicações científicas on-line no Portal de Revistas da USP. A medida foi oficialmente lançada em novembro de 2008, com a disponibilização dos textos completos das revistas produzidas pela Universidade e credenciadas pelo seu Programa de Apoio às Publicações Científicas Periódicas.

O Portal de Revistas da USP publica inicialmente 30 títulos e prevê a inclusão dos demais títulos já credenciados. Novos títulos serão agregados à medida que atenderem aos critérios de credenciamento do programa.

Além da USP, a metodologia Scielo é adotada pela Universidad Austral de Chile e a Universidad del Zulia, na Venezuela. "A plataforma Scielo está disponível para as instituições e redes científicas publicarem seus periódicos on-line em acesso aberto de acordo com o estado da arte, como a coleção de periódicos da USP e da Biblioteca Virtual em Saúde em Psicologia. Isso permite que os títulos que ainda não cumprem os critérios para ingresso na coleção Scielo possam usufruir das mesmas capacidades tecnológicas de interoperabilidade e avaliação de uso e impacto. Assim, a plataforma Scielo se constitui como serviço público que contribui para baixar radicalmente os custos de publicação científica on-line.

O endereço eletrônico da Scielo é www.scielo.org. O Portal de Revistas da USP pode ser acessado em http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php.

Patrícia Santos é assessora de comunicação do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), ligado à Organização Pan-americana da Saúde (Opas) e à Organização Mundial da Saúde (OMS)