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"Maioria silenciosa vai decidir" - entrevista com Hélio Costa

Publicado em 28 setembro 2010

Qual o desafio de enfrentar um governo bem avaliado?

O desafio é muito grande. Primeiro, porque o governo gastou R$ 1,2 bilhão fazendo sua autopromoção. Eu gostaria de usar isso com a saúde, segurança, educação. É raro ver uma crítica ao governo de Minas na imprensa mineira e também na nacional. Tiro o chapéu para O TEMPO, que tem sido muito isento. Mas é difícil lutar contra uma máquina que está trabalhando em função de uma autopromoção. Segundo, você pega o candidato e o transforma em príncipe consorte. É como se estivéssemos em uma monarquia. O processo democrático fica muito deturpado, nós não temos como chegar a ninguém e pedir ajuda financeira. Se você for procurar um empresário, ele foge porque o governador ou o governo vai ficar olhando para ele como de oposição. Ele tem medo de perder os negócios no futuro. Não tenho a menor dificuldade de relacionamento com o ex-governador Aécio Neves. Mas, a verdade é que o governo de Minas Gerais é uma máquina poderosa. Chega a um ponto que você chega a todos os pontos de intimidação e aliciamento. A intimidação é brutal neste governo.

O senhor já esteve melhor avaliado nas pesquisas e agora está em segundo lugar. Quais são as táticas para reverter o quadro?

A pesquisa fotografa um momento, uma fotografia de um momento anterior, então já começa errado. Por outro lado, eu não tenho maiores preocupações com pesquisas porque da mesma forma que ele (Antonio Anastasia), quando estava atrás, não se sentia prejudicado, hoje, eu também não me sinto preocupado. Campanha em Minas para o governo, normalmente, vai se afunilando nos últimos sete dias. De tal maneira que nunca tivemos em eleições recentes, exceto na reeleição de Aécio, uma disputa que não fosse decidida por 100 mil 150 mil votos. Todas as eleições em Minas são muito apertadas. No dia 3, a maioria silenciosa dos eleitores é que vai decidir a eleição.

O senhor teve duas candidaturas ao governo de Minas que não tiveram êxito. O que há de novo agora?

Na primeira vez, eu fui candidato a deputado e me elegi com quatro meses de campanha. Ao fim desse mandato, fui candidato a governador por força de imposições de partido e eu não entendia que eu ia continuar a carreira política. Então, eu me propus a ser candidato e, para minha surpresa, sem partido forte, sem coligação, com um único prefeito do interior, fui para o segundo turno e perdi por um por cento. Depois, quebraram o Estado para eleger um candidato e, mais uma vez sozinho, eu tinha 50 prefeitos. Foram duas grandes eleições em que eu muito solitariamente percorri o Estado e consegui resultados formidáveis. Hoje, eu sou candidato de uma aliança que une os dois maiores partidos do Brasil e ainda temos o PCdoB e o PRB e, certamente, o apoio da nossa candidata Dilma e o apoio do presidente Lula.

Caso eleito, o senhor pretende manter a Cidade Administrativa ou faria alterações?

Eu não sou contra a Cidade Administrativa. Sou contra a utilização de R$ 1,8 bilhão em um momento em que estávamos precisando de investimentos na saúde e educação. Se fez, o que vamos fazer? Tem que ser usado. Até porque é um prédio muito bonito. Eu não sei se é prático. Nos EUA e na Europa, já se pagam os funcionários para trabalhar em casa. Aqui não, eles concentram todo mundo no mesmo lugar. O que tá lá, tá lá. Não precisava ir para lá, principalmente o governador. Os atos tradicionais da política mineira têm que ser feitos no Palácio da Liberdade.

O país assistiu a uma série de ataques à imprensa feita pelo presidente Lula e pela candidata Dilma. O senhor compactua com essa visão?

Eu não tenho a menor dúvida de que não compete ao governo qualquer controle sobre a mídia. Não penso nem que o próprio presidente pense isso. O Brasil deu um salto tão grande nos últimos 20 anos. Temos hoje extrema liberdade de imprensa. Eu acho que seria proveitoso é fazer o que os americanos fizeram. Eles têm um código de ética que se aplica a todos os veículos. Quando alguém ultrapassa aquele código de ética, os próprios veículos vão lá e penalizam.

A BR-381 espera há anos por obras. Quais as ações para resolver esse problema?

Nós entendemos que o meio ambiente pode ter atrasado a obra em três anos. Depois, veio a disputa sobre a cobrança do pedágio antes ou depois da obra. Como é que você cobra um pedágio entre São Sebastião do Oeste e Divinópolis, que é como um bairro de Divinópolis? Não se pode pagar pedágio antes da obra. Quando ficou pronto, foi feita a licitação. Dos dez blocos, oito foram licitados e dois ninguém quis porque eram os que davam mais despesas. Até o fim do ano, todos esses assuntos serão resolvidos. Os recursos já existem, estão no PAC 2. Quando o governador quer, ele sai daqui, vai para Brasília, arma uma barraca, senta com o presidente e briga pela obra. Faltou na realidade defender Minas. Pegar a bandeira da BR-381 e falar: nós temos que fazer. E quando pegaram, pegaram errado. Aprovaram um projeto que leva a 381 só até o Vale do Aço. A BR-381 tem que ir até Governador Valadares.

O que se pode fazer para garantir vagas na rede hoteleira suficientes para a Copa do Mundo? Tem cerca de 30 projetos de hotéis já em andamento. Qual é a dificuldade?

Esses hotéis têm que sobreviver depois da Copa. Então é melhor que sejam médios do que grandes, que depois vão ficar vazios. Acho também que a grande expectativa são os projetos como o metrô e o Rodoanel. A primeira coisa a ser feita antes da Copa é você aumentar o número de vagões existentes na linha Eldorado-Vilarinho. Isso já está decidido. O governo federal já disponibilizou R$ 1 bilhão. O dinheiro vai para o sistema BRT. Esse projeto está em andamento. O mais difícil é você cavar e fazer o metrô subterrâneo. Agora, lá na frente, vai ter que se decidir se faz esses estudos ou se vai para outro projeto. O que é importante é o compromisso do governo federal com o metrô. É viável o metrô, basta ter disposição do governo do Estado, junto com a prefeitura, mais o governo federal, que vai ter uma presidenta de Belo Horizonte, que vai fazer o metrô.

A Fapemig ainda está muito longe da Fapesp. Como melhorar o setor de pesquisa?

No governo tucano, a determinação constitucional de passar 2% para a Fapemig foi reduzida para 1%. Sob qual alegação? Não temos como pagar. Um Estado que não prioriza a ciência e a tecnologia está perdendo o rumo da história. Minas fez o que nesses últimos anos? Deixou crescer o foco de dengue no Cetec, diminuiu os recursos para o setor.

Como distribuir um computador para cada aluno da rede pública? Essa ideia é muito bonita, é viável e vai fazer uma revolução em Minas. Nós fizemos isso em Tiradentes, um computador para cada aluno em todas as escolas da cidade. Fizemos um sistema de banda larga sem fio igual ao de BH, e funciona. Nos lugares públicos da capital tem isso, mas ninguém sabe, ninguém divulga.

Um problema do Estado é a falta de assistência jurídica para o cidadão carente. Qual seu plano para resolver esse problema?

Aqui em Minas me parece que temos a relação de um defensor por mil habitantes. É praticamente impossível você dar assistência a tanta gente. Vamos ter que fazer um trabalho muito bom, aumentando o quadro da defensoria e, principalmente, dando uma remuneração adequada, porque pagando o que está se pagando, ninguém quer.

A classe artística reivindica 1,5% do orçamento para a cultura. É possível atender isso?

A classe tem razão. Nós representamos 65% da cultura do Brasil. Minas tem uma riqueza que precisa ser cultuada, preservada e divulgada para o mundo. Como você consegue conviver num ambiente cultural quando o governo de Minas se recusa a assinar o Pacto das Cidades Históricas? Acho que faltam recursos na área da cultura. Nesses últimos anos, ninguém conseguiu recursos na lei de incentivo à cultura por causa da transferência tributária.

O outro lado

Entrevista. A sabatina com o candidato do PSDB ao governo de Minas, Antonio Anastasia, foi publicada no último domingo e pode ser vista na TV O TEMPO - www. otempo.com.br