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Maior projeto da ciência brasileira começa a sair do papel em Campinas

Publicado em 21 abril 2013

Por Herton Escobar

O maior projeto da história da ciência brasileira está prestes a sair do papel. Nas próximas semanas deve ter início o trabalho de limpeza do terreno para construção do novo acelerador de partículas do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas. Com um anel de mais de 500 metros de circunferência, instalado num prédio de 250 metros de diâmetro - do tamanho de um estádio de futebol -, a nova máquina será cinco vezes maior e muito mais avançada do que a atual.

O custo total do projeto, chamado Sirius, está estimado em R$ 650 milhões, com inauguração prevista para 2016. Outro grande projeto federal, do Reator Multipropósito Brasileiro, a ser construído em Iperó (também no interior paulista), tem um orçamento maior, de R$ 850 milhões, mas sua missão principal será a produção de radioisótopos para uso médico.

"Se você pensar numa infraestrutura dedicada exclusivamente à pesquisa, o Sirius é o maior", diz o físico Antonio José Roque da Silva, diretor do LNLS.

A expectativa na comunidade científica é grande. A luz síncrotron (uma radiação eletromagnética de amplo espectro, que abrange desde o infravermelho até os raios X) é usada em várias áreas de pesquisa, como física, química, biologia, geologia, nanotecnologia, engenharia de materiais e até paleontologia.

O acelerador funciona como um gigantesco microscópio, que os cientistas utilizam para enxergar a estrutura atômica e molecular de diferentes materiais (uma rocha, uma proteína, um fóssil, um cabo de aço ou um fio de cabelo), iluminando-os com os diferentes tipos de radiação síncrotron.

Diferenças. O acelerador atual, chamado UVX, entrou em operação em 1997 e atende cerca de 1,4 mil pesquisadores por ano, com quase 3 mil trabalhos científicos publicados. O Sirius será substancialmente maior e melhor em vários aspectos, produzindo uma luz mais brilhante e de melhor qualidade, que permitirá ampliar consideravelmente o seu leque de aplicações.

Será a única máquina do tipo na América Latina e apenas a segunda no Hemisfério Sul, além de uma na Austrália. Mais do que isso, suas especificações técnicas deverão colocá-la na linha de frente das melhores fontes de luz síncrotron do mundo. "O Sirius será a máquina de maior brilho na sua classe de energia", garante Roque.

"Tem tudo para ser uma das melhores máquinas do mundo", diz o físico francês Yves Petroff, ex-diretor do maior laboratório de luz síncrotron europeu (o ESRF) e ex-diretor científico do LNLS, que ajudou a projetar o Sirius. "É o projeto mais moderno que se pode fazer com a tecnologia hoje."

Recursos estão assegurados, diz secretário do MCTI

Projeto é considerado prioritário pela pasta, que promete bancar a diferença caso falte dinheiro no final

Os R$ 650 milhões necessários para colocar o Sirius de pé e funcionando ainda não estão garantidos legalmente, mas o secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luiz Elias, garante que eles aparecerão. "Estamos ainda finalizando algumas negociações, mas posso te dizer que os recursos estão assegurados", disse ao Estado na quinta-feira. "Estamos no cronograma e não haverá atrasos. O projeto vai acontecer."

Segundo ele, o ministério está negociando com vários parceiros para dividir os custos do projeto e ampliar o leque de usuários da máquina, tanto no setor público quanto no privado. Entre eles, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Petrobrás e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), além de outras fundações e empresas nacionais.

"O MCTI está assegurando isso como um projeto estratégico para o País", afirma Elias. "Eventualmente, caso não se garanta alguma parte desses R$ 650 milhões, o ministério vai bancar (o que faltar)."

O projeto executivo, que custou R$ 6 milhões, deve ser finalizado em julho. O terreno onde o prédio será construído, de 150 mil m², que pertence ao banco Santander, está sendo desapropriado pelo governo do Estado (por R$ 23 milhões) e será cedido ao LNLS para o projeto. Faltam apenas algumas etapas burocráticas para a terraplanagem começar.

Confiança. Para o engenheiro e físico Ricardo Rodrigues, principal responsável pelo projeto, o maior desafio de construir o Sirius será o "excesso de experiência" adquirido pela equipe nos últimos 30 anos, desde que ele, em 1984, recrutou três alunos de graduação para ir a Stanford fazer um estágio e desenvolver com ele o projeto do acelerador atual.

"Sempre digo para o pessoal que começou comigo: Isso só deu certo porque vocês foram idiotas o suficiente para acreditar que daria", conta Rodrigues - rindo e falando sério ao mesmo tempo. "Hoje já está todo mundo muito calejado, muito pessimista."

Ainda assim, ele mantém o otimismo e espera colocar sua experiência "calejada" em prática o mais rápido possível. "Se sair o dinheiro, garanto que entrego para as Olimpíadas."

Assim como a máquina atual, o Sirius será construído majoritariamente (cerca de 70%) no Brasil.

estadao.com.br