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Maior observatório de raios cósmicos do mundo completa 20 anos

Publicado em 21 novembro 2019

Infraestrutura de pesquisa envolve detectores distribuídos por uma área duas vezes maior que a da cidade de São Paulo

Um grande evento internacional nos pampas argentinos comemora, de 14 a 16 de novembro de 2019, o 20º aniversário do Observatório Pierre Auger. Situado em Malargüe, a cerca de 100 quilômetros (km) da Cordilheira dos Andes e aproximadamente 370 km ao sul da cidade de Mendoza, o Auger, como por vezes se diz, é o maior observatório de raios cósmicos do mundo, operado por uma colaboração internacional de mais de 400 cientistas de 17 países, envolvendo físicos, engenheiros, técnicos e estudantes de pós-graduação.

Dezenas de pesquisadores brasileiros têm participado ativamente das pesquisas ali realizadas, desde a concepção do observatório na década de 1990, passando pela construção, o desenvolvimento de detectores, a operação e a análises dos dados. No total, a FAPESP já forneceu 32 auxílios e bolsas a projetos desenvolvidos no Auger. E proveu recursos para a fabricação de parte dos 1.660 tanques de água puríssima usados no sistema de detecção, para a compra de baterias para os detectores de superfície e para a confecção de lentes corretoras dos telescópios.

Várias partes dos detectores e de outros equipamentos foram fabricados por indústrias brasileiras, como Alpina Termoplásticos, Rotoplastyc Indústria de Rotomoldados, Equatorial Sistemas, Schwantz Ferramentas Diamantadas e Acumuladores Moura.

Uma participante de primeira hora da equipe do observatório é a física Carola Dobrigkeit Chinellato, nascida na Alemanha e radicada no Brasil, onde atua há mais de quatro décadas como professora do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Pesquisadora responsável pelo Projeto Temático “Estudo de raios cósmicos de energias ultra-altas com o AugerPrime”, iniciado em 2010 com apoio da FAPESP, Dobrigkeit também preside, desde 2013, o Comitê de Publicações do Observatório Pierre Auger.

“O Pierre Auger foi um dos primeiros projetos em que a FAPESP se associou a agências estrangeiras para apoiar experimentos de grande magnitude e impacto. Os apoios iniciais da FAPESP para o projeto datam de 1996, quando o professor Carlos Escobar, do Instituto de Física da Unicamp, criou a oportunidade. A participação, sob a liderança da professora Carola, tem sido ótima para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado de São Paulo e para abrir oportunidades para conexões internacionais e, principalmente, para a criação de boa ciência”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

“Raios cósmicos são partículas de altas energias que estão continuamente chegando à Terra, vindas do espaço exterior. Eles são constituídos majoritariamente por prótons e outros núcleos atômicos, mas também por elétrons, neutrinos etc. O Observatório Pierre Auger está especialmente interessado em estudar as partículas com maior energia, que são as mais interessantes e também as mais raras. Por isso, construímos um observatório com área tão grande, da ordem de duas vezes a da cidade de São Paulo. Nessa área, de 3 mil km2, estão espalhados nossos detectores”, disse Dobrigkeit à Agência FAPESP.

A energia dos raios cósmicos se distribui em uma faixa bastante ampla, que vai de 109 a 1021 elétrons-volts. Os de menor energia originam-se no Sol, enquanto os de altíssima energia são provenientes de fontes extragalácticas. Estes constituem, de fato, as partículas mais energéticas já observadas pela humanidade, alcançando patamares de energia milhões de vezes superiores aos obtidos em um feixe no LHC (Large Hadron Collider), o maior acelerador de partículas existente no planeta, localizado na fronteira franco-suíça.

“Os raios cósmicos colidem com núcleos presentes na atmosfera. Das interações resultam novas partículas, que vão se multiplicando em uma cascata, até os detectores localizados no solo. Quando chegam ao chão, as partículas já estão com energias muito menores e atravessam nossos corpos sem nos darmos conta disso”, contou a pesquisadora.

Fonte: Agência FAPESP