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Avião Revue Brasil

Made in Brazil

Publicado em 16 dezembro 2012

Berço de grandes pioneirosaviação como Bartolomeu de Gusmão, Santos-Dumont, Pinto Martins, entre outros, o Brasil se destaca não apenas na produção de aeronaves, mas também pela criação de tecnologias de vanguarda e por seus centros de pesquisa e formação de padrão mundial. Até meados da década de 1950, esteve distante da indústria aeronáutica, no máximo produzindo por aqui aeronaves sob licença. Com a criação do então GA (Centro Técnico Aeroespacial), em 1953, o país passa a formar engenheiros aeronáuticos, buscando assim ingressar no seleto grupo de países com capacidade intelectual dentro da indústria aeronáutica

O PIONEIRO

O primeiro grande produto desenvolvido com tecnologia nacional foi o IPD/PAR-6504, que levou não apenas à criação do EMB-110 Bandeirante, mas também a Embraer. O projeto, chefiado pelo francês Max Holste, previa um avião com capacidade para dois tripulantes e seis passageiros, visando atender às necessidades da força aérea e da aviação civil. O produto final, o Bandeirante, tornou-se um sucesso mundial, tendo vendido mais de 500 unidades. O projeto simples, robusto e funcional o tornava perfeito para operação regional e para o transporte militar leve.

Ainda que não seja um projeto brasileiro, mas que foi aperfeiçoado pela Embraer e se tornou seu grande trunfo, é a fuselagem dupla-bolha (double-bubble), empregada na família E-Jet. O conceito de utilizar suas seções duplas em formato de bolha foi criado na década de 1930 e patenteado pela então Curtiss. Um dos primeiros aviões a empregar esse novo conceito foi o Curtiss C-46 Commando, que utilizava o novo recurso visando resistir melhor à pressão diferenciai em altas altitudes.

O Boeing 377 Stratocruiser empregava uma solução similar ao criar uma fuselagem parecida com um número 8 invertido, que proporcionava uma cabine ampla e resistente. Durante o desenvolvimento da família E-Jet no final da década de 1990, a Embraer adotou o conceito de dupla-bolha, visando criar um cross section com espaço de cabine e cargas sem precedentes na categoria.

Outro grande projeto nacional é o Ipanema, criado em 1969 para atender às especificações do Ministério da Agricultura, que buscava uma aeronave para pulverização agrícola que empregasse soluções econômicas de construção, operação e manutenção. O modelo foi desenvolvido pelo CTA e posteriormente transferido para a Embraer, que ficou responsável por sua produção. O Ipanema, embora seja um avião bastante simples, conta com algumas soluções genuinamente brasileiras. Em 2002, devido ao constante aumento no preço do petróleo, a Embraer passou a estudar a aplicação do motor a etanol no Ipanema. Com objetivo também de dar novo impulso às vendas do avião e às atividades agrícolas, uma parceria entre a Embraer e o CTA, no mesmo ano, levou ao desenvolvimento dessa tecnologia. Os estudos mostravam que o uso do novo combustível implicava numa melhoria na relação custo-benefício, incluindo maior potência e significativa redução dos custos operacionais.

Após algumas modificações, o motor Lycoming 10-540-K1J5 pôde ser movido a etanol, passando a desenvolver 320 Hp, ante 300 HP da versão a gasolina, e foi homologado em 2004, tornando o Ipanema o primeiro avião do mundo certificado a voar movido a etanol. Vale ressaltar que as pesquisas do propulsor a etanol desenvolvidas no Brasil levaram a criação do famoso motor bicombustível (ílex), que hoje equipa a maioria dos carros nacionais e desperta o interesse da indústria automobilística mundial.

O motor “a álcool” foi originalmente concebido pelo próprio CTA como foco no mercado automotivo e logo se tornou um sucesso industrial e comercial. Ainda que tenha sido desacreditado na década de 1990 devido a problemas com a produção de etanol, o motor sempre se mostrou bastante confiável, além de possuir um rendimento melhor que dos motores movidos a combustível fóssil, como a gasolina.

UM SEGMENTO PROMISSOR

O setor de combustíveis é um dosgrandes trunfos brasileiros e que tematraído grandes empresas ao redor domundo. Em abril a Boeing e a Embraerfecharam um acordo visandobuscar cooperação em diversas áreas,entre as quais pesquisa e tecnologiae biocombustíveis sustentáveis paraaviação. O projeto conta com o envolvimento da Boeing Research & Technology e a Boeing CommercialAirplanes, GE, além da Embraer, AzulLinhas Aéreas, Petrobras e outros parceirosbrasileiros.

O estudo de sustentabilidade do biocombustível para aviação, feito em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, ainda prevê uma análise detalhada da produção proveniente da cana-de-açúcar, considerando, entre outros fatores, a potencial demanda do produto e seus impactos ambientais e sociais.

Além disso, o novo combustível tem na verdade, possui um desempenho de estar de acordo com as especificações estabelecidas por organizações de certificação, como a Sociedade Americana de Testes e Materiais (ASTM, na sigla em inglês), e aceito por agências reguladoras, como a Administração Federal da Aviação (FAA, na sigla em inglês) e Anq5 (Agência Nacional de Aviação Civil). A proposta desenvolvida pela empresa Amyris prevê utilizar uma levedura geneticamente modificada para fermentar o caldo de cana para produzir, em vez do etanol, componentes químicos similares aos encontrados no querosene de aviação. O que significa que não haverá mudanças nos aviões nem nos sistemas de distribuição de combustíveis ou na infraestrutura.

 

O combustível compatível atende a todos os padrões de desempenho e pode ser misturado ou alternado com combustíveis à base de querosene de aviação. Os atuais estudos demonstram que o chamado bioquerosene superior às fontes convencionais de combustível fóssil. O combustível possui um conteúdo energético ligeiramente superior, o que leva a uma maior eficiência.

Em 2011, outro acordo, assinado entre a Boeing e a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), criou o SABB (Susteinable Aviation Biofuels Brazil), com objetivo de promover uma ampla discussão sobre a viabilização da produção de biocombustíveis sustentáveis para aviação, dentro do potencial já instalado no país, considerando a disponibilidade tecnológica, produção e de matéria-prima. Outro projeto que conta com uma boa dose de tecnologia nacional são os estudos sobre como melhorar o conforto dentro da aeronave. A Embraer e a escola politécnica da USP (Universidade de São Paulo) criaram, no Departamento de Engenharia Mecânica, um laboratório para simula uma viagem aérea. O objetivo é estudar como aprimorar o bem-estar do passageiro a bordo de um avião. Os experimentos criam um conjunto de condições de voo no interior do avião, simulando e analisando diversos fatores, como ruído, vibração, umidade, temperatura, pressão, iluminação e ergonomia.

O projeto é bastante inovador e conta com o mais moderno mock-up de avião instalado no mundo com essa finalidade. No caso, existem apenas dois projetos em andamento, o brasileiro e um alemão, instalado em 2005 e que conta com menos recursos. O mock-up nacional, por ser mais novo e contar com apoio de um fabricante de aeronaves, traz uma série de inovações como o fato de simular a temperatura da fuselagem.

PARCERIAS DE SUCESSO

O estudo, iniciado em 2008, conta ainda com parceria da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Cada uma delas ficou responsável por uma divisão, sendo que a da USP engloba os departamentos de Engenharia Mecânica (aspectos térmicos, de pressão e de vibroacústica), de Engenharia de Produção (ergonomia), o Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina e o Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas (ambos responsáveis pelos aspectos psicofísicos)

À UFSC cabe o levantamento de dados e estudos sobre níveis de vibração e ruído por assento. Já a UFSCar estuda questões relacionadas à ergonomia, fazendo levantamentos de voos reais e organizando um banco de dados de atividades. O simulador foi produzido com os mesmos materiais dos aviões reais, simulando a cabine de um E-Jet, incluindo praticamente todos os detalhes existentes numa aeronave verdadeira, como bagageiros, saídas de ar individuais e até mesmo um banheiro funcional. Visando proporcionar um maior grau de realidade, existe serviço de bordo oferecido por comissárias contratadas para o teste. Câmeras monitoram as atividades dos passageiros, o que auxilia os pesquisadores e engenheiros da Embraer no desenvolvimento de espaços e instrumentos mais ergonõmicos. A participação de instituições de ensino superior é fundamental para o desenvolvimento de novas tecnologias, que além de formar profissionais capacitados e atualizados, muitas vezes gera conhecimento por meio de atividades extracurriculares. As principais universidades do país contam com grêmios que oferecem algumas atividades complementares sem vínculo direto com a grade curricular. Um exemplo é o departamento de aerodesign da FATECSp, no qual alunos de diversos cursos e que tenham interesse em aviação se reúnem para projetar aeromodelos que participam de campeonatos de engenharia, como o promovido pela SAE Brasil.

De forma independente, os alunos criam projetos e buscam solucionar uma série de questões dentro das premissas do campeonato, que varia anualmente. Grupos como o da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) têm se destacado pelos resultados apresentados, tendo em 2012 vencido pela quarta vez o SAE Brasil AeroDesign na Classe Regular. As equipes devem aprimorar técnicas de projeto aeronáutico, considerando não apenas a concepção da aeronave, mas também o modelo de trabalho em equipe e empreendedorismo. Muitas soluções apresentadas tem enorme potencial para uso na indústria aeronáutica, além de oferecer algumas melhorias para o mercado de aeromodelismo. O potencial aeronáutico brasileiro tem se destacado ao redor do mundo, atraindo olhares dos mais diversos segmentos e países. Tanto que a 1ª Semana Claudio Barros de Engenharia Aeroespacial (AEROCB), evento organizado pela UFMG, contou com apoio da Boeing. O evento foi um encontro entre profissionais de engenharia e estudantes que estão planejando suas carreiras, permitindo colocar estudantes em contato com profissionais experientes que exponham sua visão sobre o futuro dessa área no país. O Brasil continua sendo um dos líderes mundiais em aviação, tendo se destacado nos últimos anos não apenas por projetar aviões, mas por oferecer ao mundo soluções tecnológicas inovadoras, abrindo um novo leque de oportunidades que vão muito além da fabricação de componentes