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A Tribuna (Santos, SP) online

Maconha, entre nós: 1,5 milhão usam todo dia

Publicado em 02 agosto 2012

Por Maurício Martins

Mais de 1 milhão e 500 mil brasileiros, incluindo adolescentes, consomem maconha todos os dias. Já o uso da droga pelo menos uma vez, nos últimos 12 meses, é admitido por 3,4 milhões de adultos e 470 mil adolescentes entre 14 e 16 anos. Chega a oito milhões o número de pessoas entre 18 e 59 anos que experimentaram a droga alguma vez na vida, ou 7% de toda a população brasileira.

Os dados fazem parte do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) no início do ano e divulgado ontem em São Paulo. Foi a primeira amostra detalhada sobre usuários de drogas no País, seguindo padrões internacionais. Em 2006 a Unifesp fez outra pesquisa, menos abrangente.

Segundo o estudo, o primeiro contato com a maconha acontece principalmente antes dos 18 anos, segundo respostas dadas por 62% dos entrevistados em todo o Brasil, inclusive nas cidades da Baixada Santista.

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor da Unifesp e um dos coordenadores do levantamento, a mudança da Lei em 2006, despenalizando o consumo de drogas, favoreceu o aumento do vício entre os adolescentes.

"As pessoas que têm transtornos decorrentes do uso de maconha são exatamente aquelas que começam a usar antes dos 18 anos, quando o cérebro está se organizando. Estudos mostram que 10% dos adolescentes que começam a usar com 14 ou 15 anos vão ter surtos psicóticos. Estamos falando de 50 mil adolescentes; olha o tamanho disso", alerta Laranjeira, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto.

Segundo o psiquiatra, a maconha é a única droga capaz de desencadear esquizofrenia, talvez a pior doença psiquiátrica. A proporção de adolescentes usuários é de 1.4 para cada adulto.

Dependência

A pesquisa comprovou que a dependência de maconha é bastante comum entre os usuários do entorpecente. Cerca de um terço dos adultos que usa fica viciado na droga. O dado parece mais claro com uma análise nos aspectos comportamentais avaliados: Cerca de um terço dos usuários adultos já tentou parar alguma vez e não conseguiu; 27% já tiveram sintomas de abstinência quando quiseram interromper o consumo da droga; 41% classificaram o uso como foram de controle. "Não é um comportamento sem consequências", avalia o professor da Unifesp.

Legalização

A maioria da população pesquisada não concorda com a legalização da maconha: 75%. Apenas 11% são a favor e 14% não têm opinião formada sobre o tema.

"A solução não é colocar o usuário de maconha na prisão, ninguém nunca defendeu isso. Mas é preciso uma certa intolerância com o consumo. Ou vamos para esse caminho ou para o caminho dos países que toleram o uso, e o consumo aumenta. A minoria defende a legalização. É essa minoria que vai pautar o que queremos para a sociedade?", questiona Laranjeira.

Outros países

O índice de uso da droga no Brasil no último ano foi de 3%. O total parece pouco, mas segundo os responsáveis pela pesquisa, em números absolutos, é a mesma quantidade encontrada em países com maior prevalência do uso. No Canadá o índice sobe para 14%, nos Estados Unidos fica em 10%. Já o Japão tem apenas 0,20%.

A pesquisa

O Lenad foi realizado pelo Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas da Unifesp, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e executado pela Ipsos Public Affairs. Foi concluído em março deste ano, com 4.607 entrevistas em 149 municípios. A amostragem, chamada de probabilística, é representativa de toda a população brasileira.

Os entrevistados, de 14 anos ou mais de idade, responderam sigilosamente um questionário padronizado com mais de 800 perguntas que avaliaram o padrão de uso de álcool, tabaco e drogas ilícitas, bem como fatores associados, como depressão, qualidade de vida, saúde física, violência infantil e domestica entre outros. Por enquanto, apenas os dados específicos sobre o perfil do usuário de maconha foram divulgados. O estudo custou pouco mais de R$ 1 milhão.