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Mackenzie inaugura primeiro centro de pesquisa em grafeno da América Latina

Publicado em 04 março 2016

Por Daniela Klebis

A Universidade Presbiteriana Mackenzie lançou na quarta-feira, 2 de março, o MackGraphe, Centro de Pesquisas Avançadas em Grafeno, Nanomateriais e Nanotecnologias, no campus Higienópolis, em São Paulo. O Centro, o primeiro do gênero na América Latina, foi construído com apoio da Fapesp, BNDES e do CNPq e teve um investimento de R$100 milhões. Segundo o coordenador do laboratório, Eunézio Antônio Thoroh de Souza, o objetivo do empreendimento é desenvolver tecnologias que possam ser convertidas em negócios, transformar pesquisa básica em inovação.

Para a inauguração do novo centro de pesquisas, a universidade trouxe ninguém menos que Andre Geim, laureado com o Prêmio Nobel de Física em 2010 por seus estudos sobre o grafeno. Na quinta-feira, 3 de março, além de uma conferência com Geim, foi também realizada uma mesa-redonda que reuniu o presidente da Fapesp, José Goldemberg, o diretor do Centro de Pesquisas Avançadas em Materiais 2D da National University of Singapore (NUS), Antônio Hélio de Castro Neto, a assessora especial do BNDES, Margarida Batista e o diretor de Avaliação da Capes, Arlindo Philippi Jr.

“O MackGraphe está sendo estruturado para criar uma ponte sobre o chamado vale da morte”, conta Thoroh. O vale da morte (“valley of death”) é o espaço entre o desenvolvimento de pesquisas básicas e a comercialização – onde a maioria das pesquisas morre por falta de investimentos ou estratégias antes de se tornarem produtos comercializáveis.

“Para tanto, o centro desenvolverá pesquisas sobre esses materiais, mas com foco no que a indústria nacional precisa”, conclui Thoroh.

Geim alertou que criar essa ponte é um desafio hoje em dia, pois as indústrias estão cada vez mais resistentes em manter investimentos em pesquisas que levarão décadas para gerar resultados concretos, produtos. “A longa corrente de produção, que vai da pesquisa básica à comercialização, foi quebrada. Hoje você não encontra uma companhia no mundo satisfeita em sustentar um estudo por um horizonte de cinco ou dez anos. Como é possível sustentar o progresso futuro sem os fundamentos que geram novos conhecimentos? Não somos uma espécie muito esperta, nós só vemos o curto prazo”, critica.

José Goldemberg, que é também presidente de honra da SBPC, argumentou que, nesse cenário, as fundações de amparo à pesquisa do País, como a de São Paulo, vêm desenvolvendo um papel importante na aprovação de projetos de longa duração. “Além de financiar esses projetos, a Fapesp coloca fundos à disposição de empresas que desejam  desenvolver essas pesquisas”.

De acordo com ele, o sucesso das iniciativas de inovação depende da área, e depende do país. “Aqui no Brasil, temos bons exemplos, sobretudo na área da agricultura. O Brasil tem vantagens geográficas especiais. A produtividade da agricultura brasileira é extraordinária e isso ocorreu com base nos centros de pesquisa, como Esalq,  Embrapa, etc.”, afirmou.

Mas, é preciso refletir bem sobre a escolha das áreas nas quais se quer investir. “Tivemos, no passado, decisões que não deram em nada, como desenvolver energia nuclear no Brasil. Um raciocínio inadequado para as condições geográficas de um país com energia hídrica abundante”, recorda.

Escolher o grafeno é uma decisão interessante, pioneira e de grande criatividade, aposta Goldemberg. “O grafeno é uma decisão corajosa. A Mackenzie teve a coragem de identificar um nicho promissor”, comentou.

Relação universidade-empresa

A assessora do BNDES alerta que é raro, nos centros de pesquisa básica, ouvir a palavra dos empreendedores. “O sucesso de um centro de pesquisa como o MackGraphe passa pela administração. Um plano de negócios é fundamental para transformar ideia em riqueza”, pontuou.

Para o diretor do NUS, Antônio Hélio de Castro Neto, o desafio de unir a academia à indústria é um desafio mundial. “O sistema de recompensa na universidade não recompensa o professor que quer ser empreendedor. Empreender está fora do tripé ensino, pesquisa, extensão. Por outro lado, a indústria quer algo que esteja quase pronto”, observa.

Ele ressalta que cada vez mais as empresas estão fechando seus laboratórios industriais – a IBM é um exemplo. “A tendência agora é que as universidades comecem a produzir algo que tenha valor comercial. Esse tipo de mudança é muito complicado ainda para as instituições públicas. Cabe às privadas puxar isso”, afirma.

Arlindo Philippi Jr., diretor de Avaliação da Capes, contou que o Brasil vem desempenhando um papel de destaque em pesquisas sobre nanomateriais e nanotecnologias: “a produção de artigos brasileiros na área cresceu 700% no período de 2005 a 2015. O Brasil ocupa a 17ª posição no ranking da produção científica internacional na área”.

Porém, chegar ao fim da cadeia é questão importante para as universidades, que precisam se dispor efetivamente a buscar a interlocução com setores empresariais e governamentais. “Muitas vezes, a universidade tem condições de dar as respostas por meio de seus pesquisadores. Mas isso não é colocado muito em prática porque somos tímidos, para dizer o menos. A universidade deve agir mais firme, buscando o empresariado para uma atuação mais conjunta”.

A questão diz respeito também à indústria, no lado oposto da cadeia: “O empresariado tem dificuldades de entender os tempos da universidade”.  A solução, segundo ele, está nas confederações empresariais. “As instituições – confederações das indústrias – poderiam, sim, ter condições de colocar investimentos para ter na universidade a condição de gerar um retorno que será significativo em termos de apropriação de conhecimento, do ponto de vista econômico, para a empresa e para o País”.

O representante da Capes traz aí uma questão central – é preciso criar uma cultura de inovação no Brasil. “Precisamos mudar a nossa cultura nesse sentido e compreender que a economia, para funcionar, precisa reconhecer que as universidades são espaços relevantes para fazer a aplicação desses princípios na busca de caminhos que levem a um empreendedorismo mais efetivo. São desafios que as universidades terão que enfrentar, com apoio dos órgãos de fomento”, conclui.

O prêmio Nobel, concordando com a tendência, citou o exemplo da Universidade de Manchester, onde ele é professor. A sequência normal, descreve ele, é pensar na pesquisa antes e em negócios depois. O que eles vêm experimentando em Manchester é encorajar os estudantes de doutorado a pensar nos dois ao mesmo tempo e buscar empreender, aprender a fazer negócios.

Em um primeiro momento, a maioria dessas novas empresas fracassa – 95%, calcula o físico – mas, no futuro, as chances de ter sucesso aumentam com as experiências.  “Meu conselho é que o MackGraphe coloque pesquisadores e engenheiros para trabalhar junto com administradores e buscar gerar empresas. Após alguns fracassos, vocês terão chances grandes de lançar algo importante em poucos anos”, recomenda.

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