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Machos são de Marte — mas para fêmeas não faz diferença

Publicado em 06 agosto 2007

Resultados de pesquisas com ratos surpreende cientistas 


Agência FAPESP — Há muitos anos cientistas têm procurado partes do cérebro cujas funções poderiam explicar as grandes diferenças entre os comportamentos masculino e feminino. Agora, um novo estudo indica que a procura talvez tenha sido feita no lugar errado, uma vez que a origem de tais diferenças pode nem mesmo estar no cérebro.

Segundo Catherine Dulac, Tali Kimchi e Jennings Xu, da Universidade Harvard e do Instituto Médico Howard Hughes, nos Estados Unidos, o epicentro do comportamento sexual em muitas espécies pode ser um pequeno órgão sensorial localizado no nariz dos vertebrados.

A pesquisa, cujos resultados foram publicados neste domingo (5/8), no site da revista Nature, indicam que defeitos induzidos na estrutura conhecida como órgão vomeronasal levaram fêmeas de camundongos a adotar comportamentos masculinos, como realizar movimentos pélvicos ou montar em outras fêmeas. Ao mesmo tempo, abandonaram comportamentos femininos, como aninhar filhotes.

"Os resultados são surpreendentes. Ninguém imaginava que uma simples mutação como essa poderia induzir fêmeas a se comportar como machos", disse Catherine.

A cientista ressalta que os resultados não se aplicam a humanos, que não contam com o órgão. Além disso, diferentemente dos camundongos, cujo comportamento sexual depende basicamente da ação de feromônios e do olfato, os humanos respondem a uma combinação de estímulos sensoriais e visuais. Apesar disso, a pesquisadora aponta que a descoberta deverá abrir novos caminhos para estudos sobre o comportamento sexual humano.

Os pesquisadores verificaram também que as fêmeas com o órgão vomeronasal não funcional, quando colocadas em jaulas junto com machos, passaram a perseguir e a levantar os quadris dos outros com os focinhos, além de emitir complexas vocalizações ultra-sônicas, que fazem parte do ritual de acasalamento, e montar os companheiros.

Os machos responderam agressivamente e terminaram por emprenhar as fêmeas alteradas. Quando essas tiveram suas ninhadas, os pesquisadores observaram uma surpreendente ausência de comportamento maternal. Em camundongos comuns, as mães costumam passar a maior parte do tempo com os filhotes. Nas fêmeas em questão, após um ou dois dias as crias foram abandonadas.

"Há duas intepretações possíveis: ou o órgão vomeronasal pode ser necessário para o crescimento de um circuito neural específico das fêmeas durante o desenvolvimento, ou o cérebro de um fêmea madura de camundongo pode requerer a atividade vomeronasal para reprimir o comportamento masculino", disse Catherine.

Para testar as alternativas, os cientistas analisaram outro grupo, dessa vez não geneticamente modificado, mas com o órgão vomeronasal extirpado. O resultado foi que as fêmeas passaram a se comportar também como machos, apesar de apresentar níveis de testosterona e estrogênio indistingüíveis dos de fêmeas normais.

"Nosso trabalho sugere que circuitos neuronais por trás de comportamentos tipicamente masculinos são desenvolvidos e persistem no cérebro da fêmea de camundongo, mas são reprimidos pela atividade normal do órgão vomeronasal", destacou Catherine.

Os pesquisadores estão estudando o comportamento de machos modificados geneticamente para não apresentar funcionalidade no órgão, de modo a determinar se eles adotarão comportamentos tipicamente femininos.

O artigo A functional circuit underlying male sexual behaviour in the female mouse, de Tali Kimchi, Jennings Xu e Catherine Dulac, pode ser lido por assinantes da Nature em www.nature.com.