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Macacos-pregos do Piauí usam ferramentas há mais de 700 anos

Publicado em 12 julho 2016

Por Reinaldo José Lopes

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No Parque Nacional Serra da Capivara (PI), famoso pelas intrigantes pinturas rupestres com milhares de anos de idade, pesquisadores descobriram antigos instrumentos de pedra usados por uma sociedade não humana. Seriam neandertais? ETs? Não, macacos-pregos.

Como diz o título de um novo estudo, são "ferramentas pré-colombianas", utilizadas pelos primatas da região pelo menos desde o século 13 d.C., quando os europeus nem sonhavam com a existência de um continente chamado América.

Os pequenos conjuntos de "martelos" e "bigornas" de pedra eram empregados pelos macacos da espécie Sapajus libidinosus para quebrar castanhas de caju, um comportamento que lembra muito o adotado pelos primos mais próximos da humanidade, os chimpanzés, em seus lares africanos.

Os achados são fruto de uma parceria entre os brasileiros Eduardo Ottoni e Tiago Falótico, do Instituto de Psicologia da USP, e a equipe do britânico Michael Haslam, da Universidade de Oxford.

Inspirados por descobertas similares nos chamados "sítios de quebra" de chimpanzés (ou seja, onde esses grandes símios quebram coquinhos há milhares de anos), os pesquisadores têm desenvolvido um novo ramo de pesquisa, a arqueologia de primatas não humanos (é necessário acrescentar o termo "não humanos" porque, afinal, o Homo sapiens também é um primata).

"Por um lado, os arqueólogos ficaram empolgados com essa ideia", contou Ottoni. "E também apareceram grupos de paleoantropólogos que queriam usar os dados sobre esses sítios de primatas não humanos como uma espécie de guia para identificar instrumentos de pedra muito simples produzidos por hominíneos [ancestrais da humanidade]."

É PAU, É PEDRA

Diante desses objetivos, estudar os macacos-pregos era uma boa pedida porque os bichos são conhecidos por sua inteligência, versatilidade comportamental e predileção pelo uso de ferramentas -ao menos no caso dos bichos que vivem no cerrado e na caatinga.

Nesses ecossistemas de vegetação mais aberta, o emprego de um pequeno kit de pedras para quebrar coquinhos ou castanhas é relativamente comum. Na Serra da Capivara, os bichos usam gravetos e galhos para desentocar presas, como pequenos lagartos e mocós (roedores típicos de áreas pedregosas). As pedras servem ainda para cavar, e as fêmeas na fase de estro (cio) também adquiriram o costume de jogar pedrinhas nos machos para chamar a atenção deles.

Na região, pedra é o que não falta, mas um detalhe ajuda os pesquisadores a identificar os "sítios de quebra": para que a tarefa de esmigalhar as castanhas de caju dê certo, os macacos precisam selecionar com cuidado seus instrumentos.

Os "martelos" usados para golpear as castanhas são cerca de quatro vezes mais pesados que a média das pedras disponíveis ali, enquanto as "bigornas", em cima das quais as castanhas são apoiadas, são quatro vezes mais pesadas que os martelos.

Esse conjunto característico de instrumentos vai se acumulando nos sítios de quebra ao longo do tempo. A ideia, portanto, era fazer escavações no entorno desses lugares e ver se a mesma distribuição de tamanhos de pedra aparecia em camadas mais profundas e antigas do solo.

Após escavar uma área de 35 metros quadrados, até uma profundidade de uns 70 cm, a equipe achou 69 instrumentos de pedra, os quais tinham não apenas os tamanhos esperados como também um padrão de marcas em sua superfície que era consistente com o quebra-quebra provocado pelos macacos modernos. A presença de carvão gerado por incêndios naturais junto com os instrumentos ajudou a equipe a estimar a idade das ferramentas.

Não há sinais de que a tecnologia dos macacos-pregos tenha mudado ao longo dos séculos -o que não surpreende tanto, já que inovações tecnológicas em períodos relativamente curtos de tempo também demoraram a aparecer entre os ancestrais da humanidade. "O estilo Olduvai, na África, pouco mudou durante cerca de 1 milhão de anos", lembra Ottoni.

Apesar dessa estabilidade, há pistas de que os hábitos de uso de instrumentos dos bichos surgem e se propagam de acordo com processos similares à cultura humana. Existem diferenças entre o emprego de ferramentas de lugar para lugar, por exemplo, e alguns bandos de macacos parecem mais versáteis neste quesito do que outros. Os pesquisadores brasileiros tiveram apoio da Fapesp, do CNPq e da Capes.