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Luz elétrica priva seringueiros de horas de sono

Publicado em 25 setembro 2015

Entre os trabalhadores extrativistas da Amazônia, a presença de luz elétrica em casa provoca uma redução do tempo de sono. Eles vão para a cama meia hora mais tarde, em média, do que os seringueiros que não possuem iluminação elétrica em casa. A constatação é de uma pesquisa internacional feita com a participação da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e apoio da Fapesp.

 

O estudo foi realizado junto a uma comunidade rural que realiza a extração do látex (borracha) em Xapuri, no Acre. Na Reserva Extrativista Chico Mendes, localizada a 150 quilômetros da capital do Acre, Rio Branco, funciona uma fábrica de preservativos, feitos com o látex das seringueiras, e destinados à distribuição pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Com a colaboração da cooperativa de seringueiros, com 700 trabalhadores cadastrados, foram aplicados 340 questionários por agentes de saúde e pesquisadores para verificar suas condições sócio-demográficas, as  características do estilo de vida e o padrão do sono. No grupo pesquisado, a restrição de sono foi de meia hora. Apesar de um pequeno reduzido ter acesso à eletricidade, todos continuam a ter hábitos matutinos.

 

“Entre os trabalhadores, 74% não possuem eletricidade em casa. Durante a semana, eles costumam dormir em média por volta das 20 horas, cerca de meia hora, em média, antes dos seringueiros que possuem energia elétrica em suas moradias”, afirma Cláudia. Todos acordam às 4h30, pois o látex escorre com mais facilidade das árvores pela manhã, bem cedo. “Desse modo, os trabalhadores com eletricidade sofrem restrição de sono, tanto que acordam mais tarde nos finais de semana”, relata a pesquisadora.

 

“A sociedade atual é muito exposta à iluminação elétrica artificial em adição ao ciclo de luz natural e isso tem impacto na duração e na qualidade do sono e, consequentemente, na saúde e no bem-estar. Restrições ao sono têm sido associadas a problemas como obesidade e diabetes do tipo 2, entre outros”, afirmou diz Cláudia Moreno. Ela diz que a população urbana enfrenta, em média, uma restrição de sono de cerca de duas horas por dia.

 

Mudanças biológicas

 

Os pesquisadores coletaram amostras de saliva dos seringueiros para extrair a melatonina, um dos marcadores do relógio biológico. As amostras eram recolhidas à partir das 16 horas, durante quatro horas, em intervalos de meia hora.

 

“O recolhimento era feito na penumbra, para que não houvesse influência da luz artificial no relógio biológico”, conta a professora Debra Skene, da Universidade de Surrey, no Reino Unido, que participou da pesquisa.

 

Os tubos com as amostras foram congelados e remetidos à Universidade de Surrey, para completar a medição dos níveis de melatonina. Trata-se de um hormônio produzido pela glândula pineal, responsável pela resposta do organismo diante da exposição à luz. “Quando é noite, os fotorreceptores existentes na retina humana sinalizam por meio dos neurônios a ausência de luz para o cérebro, onde os núcleos supraquiasmáticos e a glândula pineal desencadeiam a produção de melatonina”, diz Cláudia.

 

Por meio de um equipamento colocado no pulso dos seringueiros, foi registrada a movimentação dos trabalhadores (ciclos de sono e vigília) e um colar mediu a exposição à luz. Entre os resultados, a análise das amostras da segunda fase mostrou um atraso significativo no tempo de aparecimento da melatonina em trabalhadores com luz elétrica comparados ao outro grupo. De modo geral, os seringueiros expostos à luz elétrica dormiram 2,5 horas a menos por semana. “Aos finais de semana isso leva a um ‘efeito reboot’, fazendo com que os trabalhadores durmam mais”, contou Moreno.

 

“A exposição à luz artificial causa restrição nas horas de sono e suprime a melatonina, o que provoca efeitos deletérios do organismo”, afirma Debra Skeene, do Reino Unido. A falta de melatonina é um fator de risco para distúrbios metabólicos, como o diabetes.

 

Popularmente conhecido como relógio biológico, o ciclo circadiano é o mecanismo interno de funcionamento do organismo que perfaz um ciclo de 24 horas nos processos bioquímicos, fisiológicos e comportamentais do indivíduo, durante o qual a temperatura do corpo, a atividade cerebral e a produção de hormônios variam com a mesma regularidade.

 

Os pesquisadores estudam agora o padrão alimentar de trabalhadores da região, que fazem uma refeição robusta às 5h da manhã, no início da jornada de trabalho. Eles acreditam que o efeito da alimentação também pode levar a diferenças importantes no funcionamento do organismo em comparação a populações que consomem apenas pão e café ao amanhecer.

 

“A pesquisa permite entender a dimensão do problema da interferência da luz artificial, o que inclui o uso de aparelhos eletrônicos, na regulação circadiana, ou seja, dos estados de sono, alerta e vigília, na população atual”, disse o professor Arne Lowden, da Universidade de Estocolmo (Suécia), na Suécia, que participou da discussão dos achados da pesquisa. O trabalho foi publicado pela revista Scientific Reports, do grupo Nature.

Brasileiros com agências Fapesp e USP