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Mente e Cérebro

Luto proibido

Publicado em 01 janeiro 2011

Por Ingrid Esslinger

Cada cultura tem suas próprias representações sobre o fim da vida e regras para a expressão do pesar. Na sociedade ocidental contemporânea a morte prevalece de duas formas: tanto como interdita, oculta e evitada quanto escancarada e até banalizada pela mídia. Na primeira perspectiva, é vista como vergonhosa, como algo que "não deve acontecer", sendo associada a intensos sentimentos de fracasso e impotência. A morte escancarada é aquela na qual não há possibilidade de mediação: ela invade nosso cotidiano por meio dos veículos de comunicação de massa e pela violência à qual estamos constantemente expostos.

Essas representações são fundamentais para entender como a sociedade se organiza no que se refere ao luto - a dimensão pública do pesar - e principalmente a suas manifestações e rituais. É importante considerar que esse fenômeno tem uma interface individual, subjetiva, e outra, social.

O processo tem início após a perda significativa de um objeto-entendido aqui no sentido psicanalítico, ou seja, uma pessoa, um relacionamento e até uma situação que tenham sido investidos de afeto e energia e com o qual se tem um vínculo forte. Entretanto, aquilo que é considerado significativo para quem sofreu a perda nem sempre é reconhecido e valorizado da mesma forma pela sociedade. E aí está a origem de sua faceta proibida, "não franqueada" e/ou não reconhecida.

O papel-tarefa do luto é dar um sentido à perda para que a pessoa enlutada consiga seguir em frente. O psiquiatra e psicanalista inglês John Bowlby (1907-1990) define como tarefa desse processo reconhecer e aceitar a realidade; lidar com os problemas que advêm da experiência da perda, permitindo que a pessoa se reorganize sem a presença do objeto perdido. Uma das principais condições para que esse "trabalho" (já que se dá no tempo e exige empenho) se complete é a possibilidade de expressão e compartilhamento da dor. No entanto, no luto não franqueado isso se torna praticamente impossível: prevalecem os sentimentos de culpa, vergonha, raiva e medo.

A cena descrita na página ao lado retrata a enorme solidão e o risco de adoecimento daqueles que vivem o luto não permitido. Segundo Kenneth J. Doka, nesses casos não há apoio social nem legal ou reconhecimento, impossibilitando que o enlutado expresse seu pesar e partilhe sentimentos. É o que G. Caselatto define como dor silenciada, pois há regras de como, quando, quem, por quem e porquanto tempo o processo de luto deve ser vivido. Em linhas gerais, esses aspectos estão presentes, ficando mais evidenciados em situações não franqueadas.

Todas as situações que envolvem o não reconhecimento do luto (ver quadro acima) são carregadas de estigma, segredo, impossibilidade de rituais e sofrimento não expressado: condições que estão na base de um luto complicado. Adoto esse termo para substituir a ex-pressão "luto patológico", que repete o modelo médico, cristalizando a noção de "normal" e "não normal".

Para que aquele que sofre com a perda continue sua vida, sem estancar, é preciso entender (emocionalmente e não apenas intelectualmente) que, apesar da morte da pessoa querida, sua existência continua na memória do que foi vivido.

O que define se uma reação é considerada saudável ou não é a intensidade com que determinados sintomas se manifestam. A pergunta que deve ser feita é: por que algumas pessoas não conseguem gradativamente, retomar sua vida? Vários sintomas são esperados, tanto na esfera cognitiva quanto comportamental, social e emocional, e, no que se refere ao critério temporal, é sabido que o primeiro ano da perda é particularmente difícil, pois remete a todas as datas significativas que serão experimentadas, dali em diante, sem a presença da pessoa - são as chamadas reações de aniversário.

Assim como existem fatores de risco para luto complicado (mortes súbitas, violentas, perdas múltiplas, precoces, desaparecimento e suicídio), existem aspectos que ajudam na elaboração - eles são de ordem individual, familiar, religiosa e social. Destaco, entretanto, a possibilidade de ter esse sentimento validado, reconhecido, expressado em suas diferentes formas, principalmente nos rituais. Para aqueles que vivenciam um luto não autorizado é fundamental procurar formas de acolhimento com algum amigo que possa assumir o papel de confidente ou com um profissional capaz de ajudá-los a atravessar a dor.

PARA SABER MAIS

Dor silenciosa ou dor silenciada? Perdas e lutos não reconhecidos por enlutados e sociedade G. Casellato (org). Livro Pleno, 2005.

Educação para a morte: desafio na formação dos profissionais de saúde e educação.

Maria Júlia Kovács. Fapesp/ Casa do Psicólogo, 2003.

Disenfranchised grief - New directions, challenges and strategies for practice K. J.

Doka. Research Press, 2002.

A separação dos amantes. I.

Caruso. Cortez, 1986.

História da morte no Ocidente. P. Aries. Francisco Alves, 1977.