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Cruzeiro do Sul

Lupa eletrônica facilita leitura em pessoas com baixa visão

Publicado em 17 novembro 2010

O projeto lupa eletrônica, desenvolvido a partir de uma pesquisa realizada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, tem como principal objetivo facilitar a vida de pessoas com baixa visão, aliando conforto, praticidade e baixo custo. O equipamento é composto por uma câmera de vídeo que filma palavras, frases e imagens e as exibe num monitor (televisão ou computador) ampliando em 80 vezes o tamanho original do que está escrito. "A câmera percorre um trilho e, embaixo desse trilho, há um livro apoiado numa prancha de leitura", descreve a médica e arquiteta Fernanda Bonatti.

Os dados do projeto estão na tese de doutorado Design para deficientes visuais: proposta de produto que agrega videomagnificação a uma prancha de leitura, apresentada na FAU em setembro de 2009, sob a orientação da professora Maria Cecilia Loschiavo dos Santos. O projeto acabou saindo do papel graças ao Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), onde a empresa incubada Bonavision Auxílios Ópticos pôde aprimorar a ideia. Atualmente o produto já está sendo comercializado. A iniciativa também contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Além da lupa eletrônica, a empresa também comercializa a prancha de leitura e a lupa, todas com pedido de patente em andamento.

"A lupa eletrônica fica fixada no trilho e pode percorrer toda a largura da página. Para mudar de linha, basta apenas mover o trilho para cima ou para baixo. É a própria pessoa quem comanda os movimentos. Essas características possibilitam que mesmo os portadores de mal de Parkinson, por exemplo, sejam beneficiados", descreve a pesquisadora.

Foco é calculado de forma a caber uma palavra grande inteira na tela e se mantém fixo graças a um sistema próprio de ajuste.

Outra vantagem, destaca a médica, é o preço: cerca de R$1.800,00, valor em que estão incluídos a prancha para leitura, o trilho, a câmera e os cabos para conexão. "Este preço é inferior a produtos similares que chegam a custar até R$5 mil. Alguns aparelhos importados que também incorporam o monitor, custam entre R$ 14 e 17 mil", conta. Outro problema desses aparelhos é que diante de quebras, o conserto demora muito tempo.

Fernanda explica que o projeto foi iniciado durante sua graduação em Arquitetura. Como trabalho de conclusão de curso, a médica desenvolveu, em 2004, uma prancha de leitura com lupa (lente óptica). Os ensaios foram realizados no Laboratório de Modelos e Ensaios (LAME) da FAU. Foi este projeto inicial de prancha de leitura que deu o impulso para que Fernanda, juntamente com o oftalmologista José Américo Bonatti, criasse a empresa Bonavision e fizesse sua incubação no Cietec. "A lupa eletrônica foi desenvolvida a partir deste modelo inicial. Primeiramente usamos uma lupa no lugar da câmera e o aumento proporcionado foi de seis vezes o original", explica.

Doutorado direto

Fernanda decidiu entrar no mestrado e começou a pesquisar iniciativas semelhantes. Ela percebeu que a maioria dos equipamentos, tanto nacionais quanto importados, eram cópias uns dos outros e apresentavam pouca inovação. Em um dos modelos, uma espécie de câmara mouse, explica a médica, a câmara fica na parte de baixo do aparelho. Conforme a pessoa passa o "mouse" em cima do texto, ele aparece em um vídeo. "Mas a pessoa precisa ter muita firmeza na mão, caso contrário acaba se perdendo", aponta. Em um outro modelo, a câmera é fixa e é a pessoa quem movimenta o livro ou o recipiente onde ele fica, mas segundo a pesquisadora, este não é um modelo funcional. A pesquisadora decidiu então trabalhar com a ideia de aliar a prancha de leitura com a proposta de videomagnificação. A iniciativa proporcionou à médica a saída do mestrado para ingresso no doutorado direto.

Prancha de leitura foi o projeto que impulsionou os pesquisadores a desenvolverem a lupa eletrônica

A lupa eletrônica, segundo a pesquisadora, abrange um grande número de pessoas, não apenas pelo nível de aumento que proporciona, mas também pelo conforto e praticidade que possibilita, afinal, a pessoa pode ficar sentada em um sofá, ou mesmo em uma cama enquanto lê um livro ou revista. Os aparelhos podem ser levados para qualquer lugar e conectados a um computador ou televisão.

Fernanda lembra que para cada pessoa cega, existem três pessoas com baixa visão. "É uma condição em que a pessoa não é beneficiada pelo uso de óculos, cirurgias ou medicações. São problemas causados pelo envelhecimento, em decorrência de doenças como glaucoma, diabetes, mas também é encontrada em crianças, em virtude de problemas congênitos", explica.

Fernanda destaca que a lupa eletrônica não existiria sem a integração entre universidade e empresa. "A incubação no Cietec e o apoio da Fapesp foram fundamentais para que o protótipo saísse do papel e se transformasse em produto de mercado", finaliza.