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Medium (EUA)

Luiz Eugênio Mello é nomeado para a diretoria científica da Fapesp

Publicado em 13 dezembro 2019

Por Unifesp • Universidade Federal de São Paulo

Em entrevista, o docente da Unifesp fala sobre os desafios do cargo, a importância da Fapesp para a ciência e tecnologia e o cenário atual de fomento à pesquisa.

Luiz Eugênio Mello, professor titular de Fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foi nomeado o novo diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Primeiro docente da instituição a ocupar o cargo, ele assume a função a partir de abril de 2020, substituindo Carlos Henrique de Brito Cruz, que ocupa a diretoria científica desde 2005. Além disso, é a primeira vez que essa posição de liderança da fundação não será ocupada por pesquisadores e professores das universidades estaduais paulistas. Na entrevista a seguir, Mello fala sobre os desafios dessa nova empreitada, a importância da Fapesp, cujo orçamento anual é de 1.4 bilhão de reais, para o desenvolvimento da ciência e tecnologia e o cenário atual de fomento à pesquisa, dentre outros assuntos:

Quais serão os desafios de sua gestão como diretor científico da Fapesp? Como o senhor classifica essa conquista?

Os desafios são os mesmos que se impõem quando se trata de uma grande organização, como é o caso da Fapesp. Ela é uma grande organização, que tem uma contribuição decisiva e fundamental para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado de São Paulo e, por conseguinte, para o próprio Brasil. O atual diretor é um gestor que dispensa comentários. O fato de ele estar nessa posição há cinco mandatos consecutivos fala por si só. Evidentemente, ele está lá há tempo pelo fato de que seu trabalho tem sido reconhecido, com muita qualidade. E, antes dele, houve outros diretores, que também foram muito importantes para o avanço da fundação. Ser escolhido, primeiramente, pelo Conselho Superior da Fapesp, e depois ser indicado pelo governador do Estado para a sua diretoria científica, certamente, é algo que se traduz em muita responsabilidade.

Já é possível pensar em alguma ação concreta?

Sempre há muito a ser feito, pois qualquer atividade humana é passível de ser melhorada. É muito cedo para se dizer o que, concretamente, pode ou deve ser melhorado ou modificado na Fapesp, uma vez que não conheço os detalhes. De fora, é sempre mais fácil você olhar e querer colocar o dedo nessa ou naquela ferida, sem saber quais as origens daquilo. O que é possível dizer, neste momento: estarei aberto a várias sugestões e comentários, pois é da minha natureza. Acho que a construção de qualquer projeto só se estabelece com o diálogo. Temos que ouvir as partes interessadas, que são a própria comunidade científica, os funcionários e os gestores públicos, respeitando sempre os objetivos gerais da Fapesp, o que ela se propõe a fazer. Ainda que eu entenda que controles e processos são importantes, entendo também que, em qualquer lugar, sempre existe espaço para a otimização.

Como a sua passagem anterior pela Fapesp pode contribuir neste momento?

Eu trabalhei durante alguns anos em uma posição de muito prestígio e muito central na operação do órgão: como coordenador adjunto da diretoria científica [de 2003 a 2006]. Quando fui convidado para assumir esse cargo, eu era o caçula ali. Tive a oportunidade de aprender bastante e muito cedo em minha vida. Com isso, adquiri uma bagagem que teve muito valor para mim em outros trabalhos que desenvolvi durante minha trajetória. Mas ela terá ainda mais serventia nesse novo momento, pois já conheço internamente a instituição, por mais que ela tenha mudado nesses últimos anos.

Qual a importância da Fapesp para a ciência? E para a sua via profissional?

Desde a sua criação no início da década de 1960, a Fapesp claramente contribuiu e continua contribuindo na interação entre a indústria e a academia e na formação de recursos qualificados. A fundação colabora de maneira decisiva para entendermos a realidade do país e para o desenvolvimento do Estado de São Paulo. Ela também contribuiu e muito para a minha vida profissional. Fui bolsista de mestrado, de doutorado e de pós-doutorado, e me beneficiei de auxílios à pesquisa da Fapesp em vários formatos, desde os regulares até os CEPIDs [Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão], como vice-coordenador. Em um momento, diminui o ritmo de atividade na minha vida acadêmica pessoal e fui trabalhar na Vale S.A., da qual fui diretor-global de Pesquisa e Desenvolvimento. A experiência na Fapesp foi decisiva para isso, me permitindo crescer e me capacitar para esta outra empreitada.

Qual a importância dessa conquista para a Unifesp e de que forma sua experiência na universidade contribuiu para isso?

Mais do que uma vitória pessoal, essa nomeação é uma conquista institucional, um marco para a Unifesp. Talvez eu não estivesse nessa condição de futuro diretor científico da Fapesp se eu não tivesse trabalhado nesta instituição. Certamente, a universidade constituiu o alicerce sobre o qual construí a minha carreira científica, que hoje me proporciona a bagagem para estar nessa posição. É também um reconhecimento da Unifesp como uma instituição de excelência. É a primeira vez que essa posição de liderança da fundação não será ocupada por pesquisadores e professores das universidades estaduais paulistas. Esse momento é emblemático e significativo. É o reconhecimento do trabalho de toda Unifesp. Temos todos de nos sentir vitoriosos e participantes desse momento.

Como o senhor avalia o atual cenário do fomento à pesquisa no Brasil?

Vivemos um momento trágico diante das crises econômica e fiscal do país. Concretamente, ninguém pode gastar mais do que ganha, pois as contas não fecham. Temos plena ciência disso. E o Brasil demorou para se dar conta disso. As medidas econômicas tomadas, como a do teto de gastos, foram fundamentais. Por outro lado, temos que entender que é preciso ter regras e exceções. A partir do momento em que se abre uma exceção, pode surgir um conjunto de problemas enormes. Especificamente, os orçamentos de Ciência, Tecnologia e Inovação, na esfera federal, vêm sendo reduzidos de maneira drástica há alguns anos. Os níveis de investimento federal nessas áreas atualmente equivalem aos níveis de 2010. É como se tivéssemos perdido uma década, praticamente. Por conseguinte, o ônus na esfera estadual aumenta ainda mais.

De que forma as universidades e a as agências de fomento contribuem para a sociedade?

A principal função da universidade de qualidade é a formação de recursos humanos qualificados e de cidadãos responsáveis com capacidade de contribuição para a sociedade. Quando ela forma esse cidadão nessa condição, talvez ele precise de menos qualificação adicional, pois já saiu bem qualificado, seja porque a universidade era boa ou porque ele fez iniciação científica ou desenvolveu trabalhos que foram apoiados por instituições como a Fapesp. A agência de fomento contribui para a melhoria dos níveis de conhecimento, de ciência e tecnologia, e também nas áreas de humanas e para a superação de crises econômicas e das dificuldades do país de múltiplas formas. Os governantes e a sociedade verão muito mais valor no trabalho da academia quanto mais resultados práticos ela tiver para a própria sociedade.

É possível descrever um panorama da atuação da universidade quando se trata de inovação?

A Unifesp, em sua história, foi pioneira em vários aspectos, como a criação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), originado pela Portaria 662, de 2002, como Comissão de Marketing Institucional/Núcleo de Propriedade Intelectual (Nupi), antecedendo em dois anos a Lei de Inovação, de dezembro de 2004. Isso mostra o quanto a universidade já estava acompanhando as mudanças da sociedade. Temos como outro exemplo mais recente a transformação do NIT em uma agência que não trata somente de inovação tecnológica, mas também social [a Agência de Inovação Tecnológica e Social (Agits), criada em outubro de 2019, da qual é o atual diretor]. Meu foco principal nesse curto período que estive à frente da Agits foi acelerar e facilitar as tramitações de processos. Gostaria de ter participado mais da estruturação do trabalho da agência em ações concretas de inovação social, especificamente, mas isso ficará a cargo das gestões futuras.