Notícia

O Tempo

Lotação por cansaço da quarentena

Publicado em 09 setembro 2020

 RIO DE JANEIRO  - Os brasileiros aproveitaram o feriado da Independência para decretar por conta própria o fim das medidas de isolamento e prevenção à Covid-19. Infringindo diversas regras municipais e estaduais, lotaram cidades turísticas, praias e bares, muitas vezes sem usar máscara. Especialistas tentam explicar as razões neurológicas, sociológicas e econômicas para esse comportamento.
Algumas circunstâncias explicam parte do movimento. Este foi o primeiro feriado prolongado, por exemplo, em que as regras da quarentena já estavam flexibilizadas.

Ou seja, a primeira chance real, desde o carnaval, quando não havia casos oficiais, em que a população poderia viajar para cidades próximas, frequentar restaurantes e até tomar um banho de mar.
"As pessoas decretaram por elas mesmas o fim do isolamento, não há nenhuma dúvida sobre isso", diz o infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Unifesp. "E fizeram isso sem seguir as regras da flexibilização, como usar máscara, manter o distanciamento e a higiene reforçada. Então, o que fizeram, de verdade, não foi a flexibilização, mas sim a normalização, a banalização da ameaça", ressalta. "Existe um jogo dentro do cérebro humano ao analisar uma situação de risco", explica Naime.

"Inicialmente, a doença era muito desconhecida, havia uma histeria grande, muito medo, e muita gente foi para o isolamento.Agora que a epidemia já é uma realidade há mais de seis meses, muita gente decide que, se nada grave aconteceu consigo até agora, então não deve ser tão perigoso assim. É um comportamento egoísta, de quem olha mais para si e menos para os outros, e faz uma avaliação equivocada de que talvez o maior risco já tenha passado", explica o neurocientista Luiz Eugênio Mello, diretor científico da Fapesp. Um outro ponto é a fadiga da quarentena: "as pessoas se cansam de ficar em casa."

Para o cientista social Renan Gonçalves Leonel da Silva, da Faculdade de Medicina da USP, o movimento visto no feriado seria, majoritariamente, da classe média, que neste ponto da epidemia tem registrado bem menos casos de covid. "A classe média estava privada de seu papel de consumidor e agora essa bolha explodiu: vou voltar ao meu papel porque já deu, vou resgatar a posição social a despeito da responsabilidade com a saúde pública", explica.

"Se todo dia temos 1.200 mortes e, num belo dia, temos 800, há um gatilho mental que nos faz entender que a epidemia está diminuindo, embora o número continue muito alto", disse.

Por fim, nunca houve um discurso uniforme entre o governo federal e as autoridades estaduais e municipais. "Aqui a epidemia se transformou numa questão política", avalia a especialista em saúde pública Chrystina Barros. 

Não faltaram exemplos de aglomerações no país no feriado. O bairro Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, voltou a ser ponto de grande aglomeração. Em Belo Horizonte, a reabertura de bares e restaurantes com venda de bebidas alcóolicas lotou regiões boêmias como Savassi e avenida Alberto Cintra. Com sol forte no país, praias do Rio de Janeiro, São Paulo e Nordeste receberam uma multidão no fim de semana prolongado. Nas redes sociais, as imagens compartilhadas por quem estava nesses locais mostravam um clima de carnaval fora de época.

Balanço

Últimas 24 horas. O Brasil registrou 504 novas mortes por Covid-19 ontem, segundo o Ministério da Saúde. Com isso, chega a 127,464 o número total de óbitos.