Notícia

Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Lodo do esgoto vira adubo orgânico em Botucatu

Publicado em 06 setembro 2015

Por Rita de Cássia Cornélio

Um projeto inovador desenvolvido na Unidade de Negócio do Médio Tietê da Sabesp de Botucatu desde o final do ano passado venceu o 8º Prêmio Ozires Silva de Empreendedorismo Ambiental e Sustentável. O projeto transforma lodo de esgoto em adubo orgânico. O sistema de secagem e compostagem colabora para reduzir os impactos ao meio ambiente. O processo diminui a emissão de gases do efeito estufa, a utilização de aterros sanitários e os gastos para o descarte dos resíduos.

 

Um dos principais pontos avaliados na premiação foi a diminuição de gás carbônico emitido pelo lodo de esgoto durante o transporte até o aterro, explica a responsável técnica da Sabesp Ana Lúcia Silva. “Esse foi um ponto importante na avaliação do prêmio. Criamos uma solução. Deixamos de gerar gás de efeito estufa. Isso equivaleria a 480 árvores que a empresa plantasse em um ano.”

 

Antes da compostagem, segundo ela, eram feitas em torno de 65 viagens/mês. “Dependendo da qualidade de lodo que eu tinha, porque às vezes a gente recebe de outras estações de tratamento. Nós carregávamos esse material para o aterro sanitário. Existem algumas limitações das estradas para o transporte. Eu não posso mandar mais do que 10 toneladas/dia, por caminhão.”

 

É um material não aceito em todos os aterros. Só são aceitos em aterro controlado. “Na região não tem. Então o nosso lodo era enviado para Paulínia (região de Campinas). O que está acontecendo? Os aterros sanitários estão no limite da exaustão. Está chegando num ponto que não vai ter solução adequada para isso. Estamos esgotando as possibilidades.”

 

O aterro sanitário é que dá a destinação aos resíduos sólidos. “No nosso caso, nós estamos fazendo o reciclo. Recolocando o resíduo sólido de volta ao meio e isso contribui para a questão ambiental.  Isso implica em custos para a população, porque esses gastos vão para a tarifa de saneamento. Um dos maiores gastos das estações de tratamento de esgoto são a finalidade dos resíduos sólidos.”

 

Super Úmido

 

Ela explica que, quando o lodo é transportado para o aterro, vai super úmido. “Do lodo, em torno de 25% são sólidos, o resto é água. Com esse equipamento passamos a secar e mandar para o aterro. Estou economizando um valor substancial só com a secagem. Deixei de mandar 80% de água. Mando só 20%.”

 

O equipamento, de acordo com Ana Silva, custou em torno de R$ 800 mil e se pagou em um ano. “Estamos fazendo um investimento maior para poder fazer compostagem. Vamos construir uma ‘fabriquinha’ de adubo orgânico. As obras complementares vão consumir R$ 550 mil. A previsão para conclusão da obra é o final deste mês. Precisamos de espaço para armazenar o produto, fazer o controle de qualidade. Estamos treinando um pessoal para fazer o controle e teremos uma logística associada.”

 

Para o superintendente da Unidade de Negócio Médio Tietê da Sabesp de Botucatu, Mário Eduardo Pardini Affonseca, a cidade é pioneira. “A transformação do lodo do esgoto em fertilizante contribui também para a despoluição dos rios e mananciais. Outro aspecto de grande relevância da compostagem é despertar a consciência em ações sustentáveis que como essa geram impactos positivos e evitam a criação de passivos ambientais.”

 

Próximos passos

 

Após concluir as obras, segundo Maria Lúcia Silva, terá início uma programação de visitas. “A ideia é concluir as obras para começar a programar as visitas de escolas para eles conhecerem e se conscientizarem. Na questão de esgoto é importante salientar que na entrada encontramos de tudo, chinelo, sacola plástica etc. Isso é um problema para a gente. Não sei como a pessoa consegue jogar na rede de esgoto essas coisas.  Queremos mostrar que o esgoto, a parte do lodo que é menos nobre tem utilidade”.

Equipamento faz lodo virar adubo

 

Tecnologia da secagem do resíduo foi desenvolvida no país numa parceria da concessionária de água em conjunto com uma empresa de Monte Azul

A transformação do lodo de esgoto em adubo é um processo razoavelmente simples com a ajuda do equipamento brasileiro, explica a responsável técnica Ana Lúcia Silva. “Ele foi desenvolvido por uma empresa privada e pela Sabesp, um trabalho conjunto. A empresa veio com uma ideia e instalaram o equipamento em Monte Alto, região de Lins. O piloto foi adaptado para o que a Sabesp necessitava. Ele tem algumas característica que são bem interessantes em relação a um equipamento similar de origem alemã.”

 

Dentre as características, a responsável destaca o sistema de pás que otimiza mais a secagem. “O sistema de pás dele é feito de uma forma que aumenta o poder de secagem, isso agiliza o processo. O lodo vem lá de baixo do pátio da centrifugação. Uma caçamba traz e despeja o lodo centrifugado  com mais ou menos 21% de sólidos e 79% de umidade. O equipamento, especificamente as pás vão mexendo e empurram o lodo para trás. Com o movimento, o lodo vai sendo homogeneizado. Cada vez que as pás jogam o lodo para trás, esse material começa a fermentar.”

 

A fermentação é contínua. “A movimentação do lodo provoca a fermentação contínua que vai propiciar o aumento do calor. Em altas temperaturas é que o lodo vai perder a umidade. Com a perda da umidade elimina-se os patógenos que pode ter no lodo. O equipamento está programado para empurrar um metro e meio para trás, essa medida equivale a um dia de lodo. Ele faz isso uma única vez ao dia. O gasto energético é mínimo. O motor do equipamento é de 70 cavalos. O custo de energia elétrica é em torno de R$ 700.”

 

Depois de uma mistura com galhos e cascas de árvore, o lodo seco pode ser usado como adubo. “Sabemos por teoria, ainda vamos estudar isso mais para frente. Que se pegarmos essas podas de árvores que vão para o aterro e juntarmos ao lodo ele se transforma em adubo e jogado nas plantas é reabsorvido.”

 

Quando as podas de árvore vão para o aterro, elas vão degradar. “Elas se transformam em matéria orgânica que normalmente é água e CO2. Quando esse material é misturado ao lodo seco vira adubo e é absorvido como alimento, então se tem uma reciclagem do gás carbono. Isso é o que a gente chama de sequestro de gás carbono. O material que seria lançado no meio ambiente como CO2 e estaria gerando gás de estufa e todos os problemas climáticos, volta pra o meio ambiente de forma que vai ser ingerido de novo. Volta o ciclo inteiro. Fecha o ciclo.”

 

A compostagem, ainda que não desse lucro, estaria dando uma contribuição ambiental imensa, ressalta Ana Lúcia Silva. “Se não lucrasse nada já estava deixando de gastar. A contribuição ambiental é que eu acho que é bastante relevante,” contou a responsável técnica.

 

Onde pode

 

O adubo feito a partir do lodo de esgoto não pode ser usado em qualquer tipo de cultura. Ele é próprio e autorizado para uso em paisagismo e plantas com frutos aéreos. Pode ser usado em eucalipto, cana-de-açúcar e laranja por exemplo. Nas plantações onde a cultura tenha contato direto do lodo não será permitido o uso desse adubo. Por questão de segurança, o Ministério da Agricultura  não libera o uso para alface, por exemplo. Uma vez que ela pode ser mal lavada e ingerida, colocando em risco a saúde do consumidor.

Resíduo é problema para toda empresa de saneamento

 

Os resíduos sólidos e o lodo do esgoto são um problema para todas as empresas que fazem o saneamento básico. A Sabesp vem fazendo vários trabalhos de reutilização do lodo há pelo menos 20 anos. Foram testadas várias técnicas e soluções, desde uso na agricultura uma opção de longo prazo, até para usar na fabricação de telhas, queima em reatores, no Estado de São Paulo todo.

 

A Sabesp de Franca foi a pioneira no uso do lodo na agricultura, ressalta a responsável técnica Ana Lúcia Silva. “Há 10 anos eles começaram a utilizar. A Cetesb elaborou uma legislação específica na época que teve prazo definido. Venceu entre 2007/2008. Foi uma tentativa de legislar e dar uma solução para o lodo de esgoto com uso de reciclo.”

 

A lei só valeu por aquele período e alguns desafios não foram vencidos, principalmente na parte de tecnologia de monitoramento. “Uma das exigências, a análise de vírus que não é feita em nenhum laboratório brasileiro foi o impeditivo. Tinha que fazer o controle por lote e de cada um teria que tirar uma amostra e mandar para o exterior.”

 

À época, diante das dificuldades, Franca parou o processo. “A Sabesp continuou desenvolvendo estudos junto com a faculdade. A Esalq de Piracicaba tocou por um tempo uma outra alternativa, a da compostagem. Ela visa fazer um mistura do lodo de uma estação de tratamento de esgoto com um material que permita que seja desenvolvida algumas bactérias. Elas vão consumindo algumas substâncias que estão presentes nesse meio,  mas o foco principal é aumentar a temperatura no meio e sanitizar. Com o aumento de temperatura ele elimina todos os vírus e bactérias, organismos patogênicos.”

 

Custo

 

A compostagem tradicional exigiria um espaço maior, adverte Silva. “A compostagem feita com trator e outros equipamentos tem a questão da área. Tem que ter uma área grande. Tem um custo relativamente alto. Existia ainda a legislação impeditiva. O pessoal da Esalq junto com a Sabesp conseguiram uma permissão legal junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Foram criadas uma série de instruções normativas. A partir dela, atendendo suas exigências, algumas até mais rigorosas do que a Cetesb, esse parâmetro vírus foi removido.”

 

A legislação do Mapa segue um procedimento de controle, como se fosse uma fábrica de adubo. “Isso dá um caráter de produto para o adubo que estamos criando. Na verdade das duas formas eu teria o mesmo produto. Mas cada órgão enxerga de maneira diferente. A Cetesb vê como resíduo e o Ministério como produto final. A Cetesb por ser um órgão ambiental, enxerga o lodo sempre como resíduo mesmo que eu beneficie.”

 

A legislação do Mapa está permitindo que as empresas de saneamento possam transformar o lodo de esgoto em adubo com maior segurança. “Com o apoio do Ministério  estamos desenvolvendo o projeto com uma destinação melhor controlada. Aqui em Botucatu a produção é de 330 toneladas/mês de lodo úmido que se transforma em 50 toneladas seco.”

 

Ela explica que atualmente, a Sabesp caminha para a elaboração de um protocolo. “Estamos na fase de elaboração de protocolo, procedimentos. Temos as análises que mostraram que o primeiro lote deu um resultado que atende as exigências do Mapa. A ideia é depois trazer o pessoal da Sabesp do Estado para aprender operar. Não tenho protocolo de treinamento é um passo que seria interessante porque isso aqui é maravilha para questão ambiental. Mostrar que tem uma alternativa para o lodo do esgoto.”

 

Unesp pesquisa sistema de Botucatu

 

Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp estuda todo o processo como está sendo adotado a transformação do material em adubo orgânico

A Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp (FCA) de Botucatu acompanha de perto a transformação do lodo em adubo com o objetivo de estudar o processo. Segundo o professor do Departamento de Solo e Recursos Ambientais, Roberto Lyra Villas Boas, a parceria proporciona o entendimento, análise e uso do lodo.

 

“A Unesp tem o objetivo de estudar todo esse processo. Entender, desde a geração, quantidade gerada e todo o processo de transformação desse material em adubo orgânico de interesse na área agrícola. Nós temos paralelo a esse projeto um outro financiado pelo órgão da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), que tem o objetivo de estudar isso para várias finalidades. Um para uso agrícola, outro para a produção de substrato e também a parte econômica, quanto custa a geração desse material? O uso dele. Tudo isso faz parte de pesquisa da universidade.”

 

Lyra ressalta que no campo de estudo é importante observar os benefícios que essa transformação vai trazer para a cidade. “Todo esse material é transformado em adubo orgânico  ao invés de ir para o aterro sanitário. Isso também é objeto de pesquisa.”

 

A responsável técnica e gerente de controle sanitário da Sabesp, Ana Lúcia Silva, lembra que o professor Lyra foi a primeira pessoa a propor fazer compostagem com lodo para uso na agricultura. “Na época não tinha esse equipamento. Ele fazia a compostagem tradicional. Fez vários testes aqui. Ele acha que tem muita coisa para trabalhar nesse processo voltado à agricultura.”

 

Ela explica que anteriormente a Unesp fez uso do lodo de esgoto com o plantio de árvores na cidade de Botucatu. “Eles acordaram com a prefeitura e plantaram árvores em um determinado local da cidade. Algumas plantas receberam o lodo e outras não. Tiveram ótimos resultados. As árvores que receberam o lodo cresceram mais do que aquelas que receberam adubo normal. A Unesp tem esse papel, pesquisar.”

 

A universidade está avaliando quais os possíveis usos do lodo de esgoto. “Na forma como está e recebendo outros produtos. Nele é possível agregar outros produtos. Por exemplo, se um laranjal precisar de mais magnésio, nós podemos agregar ao lodo para fazer o adubo.” Segundo ela, o lodo de esgoto contém todos os micros nutrientes que podem ser colocados em um adubo artificial. “Pouca gente sabe que no esgoto é possível encontrar sais de ouro. Isso é para chamar atenção. Na verdade o lodo de esgoto tem todos os micros nutrientes necessários para o desenvolvimento de uma planta.”

 

Para fazer um adubo artificial com todos os nutrientes encontrados no lodo de esgoto, informa Ana Silva, teria que partir para a importação. “Não tem no Brasil. No país ninguém fabrica. Teria que importar.  Um colega de Franca chegou avaliar isso junto com o pessoal da Esalq. Eles fizeram a qualificação desses nutrientes. A origem do lodo de esgoto,  que vem do ser humano, tem qualidade superior a de um adubo comum. Dependendo da cultura, ele vai apresentar resultados superiores.”