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O Dia (PI)

Lobato, seus precursores e a moderna literatura infantil no Brasil

Publicado em 14 outubro 2019

Com novos projetos gráficos e surpreendentes edições, a obra de José Renato Monteiro Lobato — Ele só adquiriu o nome José Bento em 1893, para poder usar a bengala de seu pai, que tinha as iniciais J. B. M. L (1882-1948), ressurge no país em adaptações ou textos originais, confirmando a força e a autenticidade de uma obra que encanta há décadas gerações de crianças, jovens e adultos.

Em 2018, completou-se setenta anos da morte de Monteiro Lobato, por isso em 2019, sua obra entrou em domínio público e diversas editoras e autores, como Pedro Bandeira, Walcyr Carrasco, Maurício de Sousa, entre outros relançam a magistral obra do autor que revolucionou o universo infantil nacional, tornando-se um divisor de águas na história da formação, de uma moderna literatura infantil brasileira. Lobato foi tão imenso em sua genialidade caro leitor, que até parece não ter existido uma literatura infantil antes dele no país. No entanto, ela já existia. Hoje, pesquisadores em diversos estados brasileiros divulgam e publicam resultados de pesquisas, que apontam um movimentado mercado literário infantil no país, antes de Lobato.

Tal fato foi objeto de reportagem da revista Pesquisa Fapesp, em março de 2017. E essa pré-história da literatura infantil brasileira se inicia, segundo pesquisadores no final do século XIX e início do XX, ou seja, bem antes da publicação de “ A menina do narizinho arrebitado ”, em 1920, por Monteiro Lobato. Na época já se tinha uma estrutura de articulação do mercado editorial de livros para crianças, com editores, escritores, divulgadores e leitores.

Entre estes autores nacionais, segundo pesquisadores, se registram a presença do bacharel em direito e educador fluminense, João Kópke (1852-1926), que lançou livros de alfabetização e de leituras para crianças, pois pretendia oferecer uma leitura agradável ao educando e aplicar o método analítico para alfabetizar, que desenvolveu em outros livros. Era crítico de propostas educacionais do período e deixou uma obra inédita, só descoberta recentemente por pesquisadores: 86 “ Versos para os pequeninos ”, poemas infantis escritos entre 1886 e 1897. Nesse mercado, circulavam também muitas traduções de obras estrangeiras, mas produções nacionais, “ Contos da Carochinha ”, faziam muito sucesso e como o jornalista carioca Alberto Figueiredo Pimentel (18691914), organizou este e diversos outros livros que apresentavam linguagem coloquial, fábulas de autores europeus, com animais falantes, lobisomens, santos e fadas.

Outro personagem do período, foi o editor fluminense Pedro Quaresma (1863-1921) que pretendia alcançar um público maior de leitores e assim, lançou edições de menor custo, a fim de popularizar a literatura infantil, até então só vista em edições luxuosas. Uma autora popular e de grande destaque na época, foi Júlia Lopes de Almeida (18621934), que teve uma grande e importante produção para a literatura brasileira, escreveu romances, literatura infantil, atuou na imprensa escrevendo artigos e crônicas, era também teatróloga e abolicionista brasileira.

Além disso, foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras; a autora recebeu de Monteiro Lobato, sua admiração. A um amigo escreveu “[ ...| uma extraordinária mulher. Contos maravilhosos. Únicos em nossa literatura ”, Foi nesse cenário então, que Monteiro Lobato entrou em cena com uma linguagem coloquial, irreverente, e vibrante, abordando problemas da época e não de um longínquo país do futuro, como se apresentavam os livros escolares anteriores. Apoiados por intensa propaganda do próprio autor, Lobato distribuiu quinhentos exemplares de Narizinho em escolas públicas paulistas, alavancando seu primeiro grande sucesso, em sua estreia na literatura infantil.

Em 1943, o autor já ultrapassava a tiragem de um milhão de livros. Assim, Lobato cativou e encantou o público imediatamente, pois criou um universo dentro do contexto brasileiro, do cenário nacional, das raízes culturais brasileiras e com personagens marcantes: Lúcia, Pedrinho, Emília, Dona Benta, Tia Nastácia, Via conde de Sabugos a, Saci, Boitatá, Doutor Caramujo e outros, além de dialogar intensamente com personagens de clássicos estrangeiros, como Peter Pan, Pinóchio, Dom Quixote, Alice do País das Maravilhas, Popeye, ou da mitologia grega, como o Minotauro e outros. Todos a qualquer momento poderiam visitar o encantado Sítio do Pica Pau Amarelo, ou vice-versa; Lobato também foi tradutor de clássicos infantis e levou essa experiência para sua escrita. Desse modo, ele se impôs, pois o público leitor se identificou de tal forma, que gerações de crianças, jovens e adultos seguiram apaixonados por sua leitura.

Portanto, Monteiro Lobato reinventou a literatura infantil no Brasil, seu olhar estabeleceu nova interação com os leitores, trouxe originalidade, oferecendo tamanha autenticidade a sua obra, que ela chega aos nossos Em 2018, completou-se setenta anos da morte de Monteiro Lobato, por isso em 2019, sua obra entrou em domínio público e diversas editoras e autores, como Pedro Bandeira, Walcyr Carrasco, Maurício de Sousa, entre outros relançam a magistral obra do autor dias, com o mesmo frescor, ainda que com nova roupagem. Por isso, ela continua sendo um belo presente para cativar as gerações atuais; o sucesso e a popularidade do universo mágico de Monteiro Lobato foram tão avassaladores que ele saltou do texto literário e foi direto para as outras mídias, como o rádio, a televisão, o teatro e os quadrinhos.

Em Teresina neste momento, está em cartaz a peça teatral: “ O Tesouro da Emília ”. Assim, em adaptações ou textos originais a obra de Monteiro Lobato está amplamente disponível por meio de diversos autores, editoras, basta que pais e professores estejam ao lado de seus pequenos para viajar na imaginação do grande autor e fazer dessa leitura um momento especial de prazer e total cumplicidade, o que provocará uma inesquecível experiência leitora, que puxarão outros livros, saberes, leituras e muita cidadania, pois como o próprio autor disse: “ Um país se faz com homens e livros. ”