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Correio Popular

LNLS entra na luta contra males do fígado

Publicado em 05 setembro 2004

Por Tatiana Fávaro - tfavam@mc.com.br
Criar um medicamento para curar o carcinoma hepatocelular (câncer no fígado) e as doenças crônicas provocadas pelo vírus da hepatite B é uma busca incessante de quatro pesquisadores do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas. Desde 1998, quando chegou ao Brasil, o pesquisador alemão Jorge Kobarg estuda a proteína HBX do vírus da hepatite B, a grande responsável pelo desenvolvimento do câncer de fígado. O projeto "Jovem Pesquisador" é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Com esse trabalho, Kobarg quis analisar essa proteína por saber que ela poderia ter uma grande importância médica. A pesquisa ainda não produziu resultados funcionais aplicáveis. O pesquisador explica tanta cautela com uma justificativa comum no mundo da ciência: "é preciso conhecer seu objeto de estudo a fundo antes de aplicá-lo com segurança num produto". E foi isso que Kobarg fez. Começou a estudar os aspectos estruturais e funcionais da proteína, com o objetivo de entender seu funcionamento numa dimensão bem distante da que vemos a olho nu. Assim, foi parar no LNLS, referência em equipamentos para pesquisas na área de biologia molecular estrutural. AS FERRAMENTAS O código genético do vírus HBV é constituído por um DNA circular pequeno e quatro regiões denominadas S, C, P, e X. A informação usada para produzir a proteína está inscrita na seqüência do DNA. Para estudar a estrutura e a função da proteína HBX, os cientistas induzem sua produção era uma bactéria e testam a atividade biológica da proteína "purificada". Segundo Kobarg, o genoma do vírus da hepatite B é muito, muito pequeno. O pesquisador afirma que das quatro proteínas codificadas, a HBX é responsável pelo câncer de fígado. Classificada como oncoproteína, ela desregula o funcionamento celular e causa um acelerado crescimento do número de células. A expectativa de Kobarg era a de que com o uso da fonte de luz síncrotron, fosse possível construir um retrato tridimensional dos átomos da molécula da proteína HBX. A fonte de luz síncrotron é um equipamento que emite feixes de luz de raios-X, ultravioleta e infravermelho, que permitem análises químicas, físicas e biológicas das moléculas. "Seria um importante passo rumo ao desenvolvimento de um medicamento para o câncer de fígado", diz. Diferentes caminhos Seis anos se passaram e o retrato ainda não está pronto. Isso porque é muito difícil cristalizar a proteína, explica Kobarg. "Então, acabamos trabalhando com a proteína em solução e encontrando diversas particularidades até então desconhecidas", conta. "O que a princípio, nos faria mudar de rumo, nos fez ver novos horizontes." Segundo Kobarg, aminoácidos presentes em algumas proteínas têm a tendência de formar pontes de enxofre, que têm a função de dar estabilidade a essas proteínas. "Acontece que, normalmente, essas pontes são encontradas em proteínas fora da célula, justamente para dar proteção contra agentes degradantes. A HBX é uma proteína intracelular e não faria sentido ela ter pestes de enxofre." Essa informação, diz o pesquisador, abre um precedente: usando a tecnologia de DNA recombinante, os cientistas do LNLS trocaram os aminoácidos da HBX por outros, que têm oxigênio em vez de enxofre. E, com isso, vislumbram a possibilidade de cristalizar as proteínas do vírus da hepatite B. "Agora temos a esperança que ela possa cristalizar. Aí, conhecendo melhor a estrutura tridimensional da proteína, poderemos pensar em aplicações funcionais." Até agora, por outros métodos, Kobarg e sua equipe conseguiram observar que a proteína do vírus da hepatite B tem uma estrutura desordenada, que pode mudar de acordo com a temperatura, concentração de sal e presença de outros fatores. "Isso sinaliza que ela é uma proteína bastante flexível e pode adquirir diferentes conformações estruturais, dependendo do ambiente químico", diz o pesquisador. É uma proteína "promíscua", que interage com várias outras proteínas dentro da célula, afirma ele interage, por exemplo, com proteínas que ligam o DNA, que regulam a expressão gênica ou que "consertam" as falhas celulares. "E é impedindo o funcionamento dessas outras proteínas ou inibindo seus mecanismos, que a HBX abre as portas para o câncer" explica Kobarg. Segundo ele, sabendo como a HBX atua em diferentes situações será possível estudá-la e manipulá-la melhor e, quem sabe, tentar inibir certas interações importantes com essas moléculas externas, alvo da HBX. "Queremos explicar como uma única proteína tem tantas funções dentro da célula. E como poderia ser feita uma droga que inibe todas essas frentes de atuação. "Ao longo de seis anos estudamos profundamente a proteína do vírus da hepatite B. A cristalização não foi possível ainda, mas encontramos novos possíveis caminhos para tentar buscar a cura do câncer de fígado. A ciência não pára e vamos continuar trabalhando."