Notícia

Jornal da USP

Livros raros ao alcance de todos

Publicado em 23 abril 2000

Nas bibliotecas da USP existem relíquias com valor histórico inestimável. São obras raras e especiais que, até pouco tempo atrás, ficavam escondidas no labirinto de estantes que formam os acervos da Universidade. Hoje, graças ao trabalho de longos anos desenvolvido por especialistas e coordenado pelo Sistema Integrado de Bibliotecas (Sibi), o material está conservado e visível ao público. Assim, a Universidade pôde abrigar, entre outras preciosidades, um livro editado antes mesmo de o Brasil ter sido oficialmente descoberto, em 1500. Esse acervo bibliográfico especial está inserido na Coleção Uspiana - Brasil 500 Anos, a ser lançada este ano pela Edusp e Imprensa Oficial do Estado. E um catálogo, intitulado Biblioteca Universitatis, dos livros impressos nos séculos 15, 16 e 17, acompanhado de índices sobre obras, autores, tipografias, tipógrafos e ilustradores. O volume 1. com 300 páginas e 100 ilustrações em cores, reúne um incunábulo - livro impresso até o ano de 1500 - e mais de 220 títulos do século 16. O lançamento está previsto para o início do segundo semestre com exposição dos originais. O volume 2 cataloga cerca de mil títulos do século 17 e tem 400 páginas com 300 ilustrações. Deverá ser lançado em 2001. "Foi preciso muito empenho e dedicação para restaurar e conservar essas obras", afirma Rosaly Fa-vero Krzyzanowski. coordenadora operacional do Programa Biblioteca Eletrônica (Probe) da Fapesp. "Um dos principais problemas é que algumas coleções precisavam de restauro e de novas encadernações", diz. "A encadernação de obras especiais não pode ser feita de qualquer maneira, exige um serviço artesanal. quase artístico que leve em conta o estado do livro, o número de páginas e até o peso do papel." De acordo com Rosaly, em meados de 1988 o Sibi, através do Plano Nacional de Obras Raras (Planor) da Biblioteca Nacional, começou a pensar sobre um levantamento das obras antigas e raras existentes nos acervos da Universidade. Mas o rastreamento detalhado dos livros teve início em 1992, com ajuda da Comissão de Patrimônio Cultural (CPC) da Universidade. "A partir dessa época, resolvemos fazer uma pesquisa em cada unidade, instituto e museu da USP", ressalta. "Hoje, todo o material se mantém em suas bibliotecas de origem, disposto em salas climatizadas com ambientação especial, temperatura e grau de umidade adequados", observa. "É importante que os acervos raros e coleções especiais sejam mantidos separadamente porque isso facilita a sua conservação." Sob a coordenação da pesquisadora Rosemarie Erika Horch, bibliotecários e restauradores, que muitas vezes tinham de fazer cursos no exterior, trabalharam intensamente para recuperar as várias raridades. Apesar das inúmeras dificuldades, travou-se uma luta para conservar os tesouros de papel. "A maior parte dos acervos, além de empoeiradas, estava com acúmulo de microorganismos, o que exigiu o uso de luvas e máscaras para não provocar alergia nos funcionários que os manuseavam", explica. "Problemas como excesso de umidade e de luz, além de infiltrações e ataques de insetos também eram problemas comuns nos acervos." Rosemarie comenta, com sabedoria e experiência de quem entende do assunto, as peculiaridades dos materiais. "Nos séculos 15 e 16 as publicações eram confeccionadas com papéis feitos de pano, o que contribuiu para sua conservação", analisa. "As folhas originárias da madeira deterioram-se mais facilmente, por isso em muitos casos encontramos livros do século 19 mais danificados do que outros impressos trezentos anos antes." | A pesquisa, do levantamento das obras à higienização e catalogação por meio de descrição técnica, só, foi possível graças à verba da Fapesp que, em 1995, instituiu o Módulo Bibliotecas para Projetos de Restauração e Modernização de Infra-Estrutura. Há proposta de se fazer uma versão on-line do catálogo para Internet, disponibilizando as informações ao público. Como há risco de manuseio, outra idéia é fazer cópias dos livros criando exemplares para que os originais possam ser mais facilmente preservados. Conforme as coleções iam sendo analisadas, passavam por uma triagem, em que é verificado o estado de conservação do material, separando-se o que precisa de restauração. "Como a USP não conta com equipe especializada em restauro, o trabalho foi realizado por profissionais contratados de acordo com a necessidade", argumenta Rosemarie. "Muitos livros foram impressos manualmente e por isso se algumas passagens continham erros eram corrigidas, ao invés de se inutilizar a edição e todo o trabalho ter de ser feito novamente", conta. "São documentos incríveis que servem como referência mundial frente às comemorações sobre os 500 anos de Brasil." A maioria dos títulos que compõe o catálogo organizado pelo Sibi pertence aos acervos do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. As duas unidades concentram verdadeiras "jóias" impressas durante três séculos de história. A principal característica do acervo do IEB é ser formado por coleções particulares! que foram vendidas ou doadas àj Universidade. São 24 grandes coleções de intelectuais como Yan de Almeida Prado, Mário de Andrade, Guimarães Rosa e Anita Malfati. A biblioteca do IEB conta com cerca de 116 mil volumes, entre livros e periódicos. Mas é nos acervos especiais que estão as relíquias do instituto. Um exemplo é a coleção de Yan de Almeida Prado, que tem livros editados desde o século 16 até o ano em que foi vendida para a USP, em 1963., "São dez mil livros, grande parte deles falando sobre o Brasil", enfatiza Maria Itália Causin, responsável pela biblioteca. "Essa coleção é completada pela do Alberto Lamego, em poder da Faculdade de Filosofia até 1968, e então transferida para cá." Na coleção Lamego está o livro mais antigo dos acervos da USP, o Liber chronicarum de Hartmann Schedel. Editada na Holanda em 1493, a obra conta, em latim, a história da criação do mundo. "Esse é considerado o mais ricamente ilustrado dentre os incunábulos com xilogravuras que representam um considerável avanço em relação à técnica anteriormente empregada", relata Ana Maria Camargo, historiadora da USP. O acervo das obras raras da Faculdade de Direito da USP também está devidamente conservado, mas teve de passar por reformulações. Entre 1996 e 1998 o espaço foi reorganizado e seus 6.500 volumes dos séculos 16 a 18, colocados em estantes especiais de uma sala climatizada. Todas as obras do séculos 16 e 17 constam do catálogo. "Em virtude de sua origem, a biblioteca possui obras de filosofia, religião, história, geografia, viagens, literatura, além de obras jurídicas do direito luso-brasileiro e do direito universal", informa Giacomina Faldini, diretora da biblioteca. Entre as raridades é possível apreciar as Ordenações Manuelinas, Afonsinas e Filipinas e obras de autores como São Tomás de Aquino. A obra mais antiga do acervo é a edição de 1520 da Divina Comédia, de Dante Alighieri. "Das Ordenações, a edição mais rara é a das Manuelinas, de 1539, de João Cronberger, da qual restam apenas mais três ou quatro exemplares em todo o mundo", informa Giacomina. "Atualmente o acervo serve aos professores e alunos, mas pode ser usado pelo público, para consulta." NOS PASSOS DE MARTIUS E SPIX Com instalações recentemente reformadas, a biblioteca do Instituto de Biociências (IB) da USP apresenta condições privilegiadas para conservação de seu acervo que é constituído, em sua maioria, por obras dos séculos 18 e 19. O material foi formado por meio de aquisição de acervos fechados para seleção de obras raras e significativas para a área de Ciências Biológicas, por doações, pela transferência de obras da Escola Politécnica e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, além de obras selecionadas do acervo corrente, pelos docentes do próprio instituto. O Projeto de Restauração de Obras Raras e Especiais do IB foi apresentado em 1994, pelo Serviço de Biblioteca do instituto, à Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, para obtenção de recursos destinados à restauração de 2 mil livros através da Lei Mendonça, que contempla projetos culturais com incentivos fiscais. "O projeto foi aprovado, mas o prazo para captação de recursos foi insuficiente", lembra Nelsita Ferraz de Campos Trimer, diretora técnica do Serviço de Biblioteca do IB. "Em 1995, a Fapesp instituiu o Módulo Bibliotecas e o projeto foi apresentado novamente acrescido da previsão de adequação ambiental, incluindo reforma, mobiliário e climatização do novo espaço." A partir da aprovação do projeto da Fapesp em 1996, o trabalho tem sido realizado pela equipe coordenada pela Associação Brasileira de Encadernação e Restauro. "Inicialmente foi feito um levantamento das condições de conservação das obras, que resultou em um laudo técnico e na previsão orçamentária para a execução do trabalho", conta Nelsita. "O acervo foi higienizado e os diferentes danos de conservação foram avaliados e tratados de maneira criteriosa, segundo normas e técnicas reconhecidas internacionalmente." Apesar de não ter sido oficialmente inaugurada, no dia 23 de março recebeu a visita do reitor da USP, Jacques Marcovitch, do diretor científico da Fapesp, Fernando Perez, e do bibliófilo José Mindlin. Foram realizadas desde pequenas intervenções até restauro com técnicas bastante sofisticadas como reinfibragem, que reintegra áreas faltantes do suporte, no caso, o papel. "Os materiais utilizados para as encadernações, nos casos indispensáveis, foram o couro e o linho", informa Nelsita. "As encadernações originais, sempre que possível, foram preservadas e restauradas." Algumas obras destacam-se por sua.importância científica e valor artístico, entre elas as de Cari Friedrich Phillipp von Martius, Nova Genera et Species Plantarum, em latim, é um maravilhoso compêndio ricamente ilustrado, com pranchas coloridas à mão, contendo descrições originais de numerosas espécies novas da flora do Brasil. Na área de zoologia, obras como Viagem pelo Brasil, de Martius e Johann Von Spix, descreveram pela primeira vez a natureza do Brasil do ponto de vista científico. Spix coletou e pesquisou 35 primatas, 289 aves, 44 cobras, 53 sapos, 17 morcegos, 42 lagartos e 18 tartarugas, em expedição considerada de maior sucesso já realizada na América do Sul.