Notícia

Jornal do Commercio (RJ)

Livros na sala cirúrgica

Publicado em 24 fevereiro 2005

A conservação preventiva e mesmo as intervenções de restauro feitas anteriormente falharam. Para salvar um acervo de 4 mil obras, o Senado e a Universidade de Brasília (UnB) fecharam um contrato para que livros do Poder Legislativo possam entrar na sala de cirurgia. Serão investidos R$ 2,08 milhões no projeto.
"Nesse material existem documentos da história do próprio Senado e ainda exemplares da literatura dos séculos 17, 18 e 19", diz José Carlos Andreoli, diretor do Centro de Documentação da Universidade de Brasília. O engenheiro químico será o responsável pelos trabalhos de restauração das obras, ao lado de uma equipe de 14 pessoas.
"A coleção mais rara é formada pelos 24 volumes da Flora Brasiliensis. Alguns volumes estão em bom estado, mas alguns vão dar bastante trabalho", explica Andreoli, que se especializou em restauração em Florença (Itália) e na Sorbonne, na França. A importante coleção do acervo do Senado, feita pelo botânico alemão Karl Von Martius em 1842, é uma das duas que existem no mundo. A outra está na Áustria.
Toda a restauração dos livros que formam o acervo da biblioteca do Senado não vai ficar pronta antes dos três próximos anos. "Esse não é um trabalho rápido. Ele é delicado e lento. Restauro não é como fazer pão de queijo. Só colocar no forno e pronto", brinca o diretor do Cedoc da UnB.
No caso do acervo de parte do Poder Legislativo, Andreoli explica que vários agentes biológicos agiram sobre os papéis e as encadernações, como as brocas que perfuraram os papéis e os fungos que também danificaram bastante as páginas históricas do Brasil. "A própria tinta usada anteriormente acaba corroendo o papel. As fibras da celulose também sofrem um desgaste natural com o tempo", explica o químico da UnB.
O agente biológico homem também tem uma contribuição importante na má conservação de obras históricas em termos gerais, segundo lembra Andreoli. "O manuseio incorreto, por exemplo, causa o rompimento na lombada", adverte o pesquisador. Em obras com capas de couro, o cuidado deve ser redobrado.
"Mesmo depois do restauro dos livros do Senado, por exemplo, será preciso fazer um trabalho constante com eles. A hidratação do couro tem que ser feita a cada dois anos", informa Andreoli. (Agência FAPESP)