Notícia

Jornal da Tarde

Livros: Ele sabe tudo sobre mortos e túmulos

Publicado em 20 novembro 2002

Nos últimos três anos, ele passou mais tempo em cemitérios do que em qualquer outro lugar. Quem encontrasse o arquiteto e urbanista Renato Cymbalysta caminhando entre túmulos e mausoléus, com um bloco de papel na mão e uma câmara fotográfica a tiracolo, poderia pensar que se tratava de um jovem melancólico que preferia a paz dos cemitérios ao burburinho das ruas. Nada disso, Renato tomava notas e fotografava para sua dissertação de mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. O tema era incomum e pouquíssimo estudado: "Arquitetura e atitudes perante a morte nos cemitérios do Estado de São Paulo". A tese agora virou livro, com o título "Cidades dos Vivos" (Ed. Anna Blume/Fapesp, 200 págs.), e foi lançado no último dia 26, no Bar Balcão. Engana-se quem pensa que o lançamento foi em clima de velório. Para Cymbalista, os cemitérios são espaços mais vivos do que se pensa, daí a razão do título. Na entrevista a seguir, ele falou sobre o livro. Por que seu interesse em investigar cemitérios? O interesse acabou surgindo á medida que meus trabalhos na Faculdade de Arquitetura se ligavam à arquitetura anônima. Nenhum lugar é melhor do que os cemitérios, que na verdade são cidadezinhas. Acabei na história e na sociedade. Veja bem, nos cemitérios são enterrados ricos e pobres, pretos e brancos... Então a única forma de diferenciação social é por meio da arquitetura dos mausoléus. Quando foi inaugurado o primeiro cemitério público de São Paulo, e que impacto enterrar os mortos em um espaço não religioso teve sobre as pessoas? Em 1858, foi construído o Cemitério da Consolação, em um lugar que naquela época era longe e até praticamente o final do século 19 todo mundo era enterrado lá. O grande impacto foi do ponto de vista institucional, mas não podemos esquecer que havia um discurso sanitarista e médico por trás disso, que dizia ser uma obscenidade enterrar pessoas nas igrejas. Mas as pessoas nunca mudaram com relação à morte. Em algum momento esse trabalho lhe causou arrepios? Em apenas um. Em uma visita ao cemitério de Lençóis Paulista (interior de São Paulo), aproximou-se de mim um jovem adulto mancando. Ele me disse que ia ali todos os dias, porque já estivera do "lado de lá". Ele foi o responsável por um acidente de caminhão que matou o melhor amigo dele e o deixou em coma. Aquele homem realmente realizou sua viagem ao mundo dos mortos e carregava a culpa de ter matado o colega, e o único lugar que conseguiu encontrar depois disso era o de negociador entre dois mundos. Nunca mais ele voltaria inteiramente ao mundo dos vivos. Foi o único momento em que me aterrorizei em todo o trabalho.