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USP - Universidade de São Paulo

Livros, documentos e objetos do Centro de Memória da Educação contam um pouco da história do ensino no país

Publicado em 07 janeiro 2009

Por Luiza Caires

Nenhum tipo de pesquisa histórica pode ter êxito sem um acervo relativamente bom à disposição; só se faz história com memória, escrita ou oral - mas a oral tem seus limites, já que é preciso entrevistar personagens vivos. O caso da história da educação não é diferente. Há 17 anos, os pesquisadores desta área que começava a se firmar na Faculdade de Educação (FE) da USP perceberam a necessidade de preservar os documentos que eles levantavam. Propuseram então a instituição de um espaço capaz de amparar e subsidiar as pesquisas neste campo. Nascia assim o Centro de Memória da Educação (CME) da FE.

 “O CME procura recolher variados conjuntos de documentos, que muitas vezes estão dispersos, relacionados a temas da educação. Desde prontuários de alunos, cadernos de anotações de professores, até conjuntos de legislação sobre educação, livros-ponto e correspondências”, explica a historiadora da educação e professora da FE Cecília Hanna Mate. Cecília está no Centro desde 2001, como uma das coordenadoras, ao lado das também professoras Carmen Sylvia Vidigal de Moraes e Marta Maria Chagas de Carvalho.

“No momento, por exemplo, estamos terminando o recolhimento de um grande acervo da Escola Moderna Nº 1 e o arquivo pessoal de um de seus fundadores: João Penteado, professor e militante anarquista do início do século XX”, conta. Neste período, o Brasil recebeu muitos militantes do movimento anarquista por meio da imigração européia, que se juntaram aos que já estavam aqui e acabaram formando uma escola. A instalação de instituições escolares estava apenas começando naquele momento, mas como os anarquistas sempre foram favoráveis à independência em relação ao Estado e críticos em relação a Igreja – a maioria das instituições de ensino eram católicas naquela época –, resolveram fundar a sua própria escola em 1912. Localizada em São Paulo, a Escola Moderna Nº 1 passou por várias etapas e transformações, mudando inclusive de nome e chegando a ser fechada em 1919 para ser aberta posteriormente. Nos anos 30, foi transformada no Colégio Saldanha Marinho, e com o passar do tempo perdeu suas conexões antigas, tornando-se simplesmente uma escola de comércio que viria a ser fechada definitivamente em 2002.

Os documentos que foram se acumulando durante este período precisavam de um destino melhor do que o descarte. “Sabendo desta situação, a professora Carmen Sylvia desenvolveu um projeto com apoio do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] para recolhimento do arquivo. Toda a documentação passou por uma série de etapas, começando com a higienização, restauração, enfim, a realização de todos os procedimentos técnicos da arquivística. Estamos finalizando o inventário, ao elaborar um guia das fontes recolhidas e formar uma espécie de catálogo disponível para a pesquisa”.

 “A pata nada. Pata pa, nada na”

Os leitores de boa memória alfabetizados até os anos 50 certamente reconhecem a frase acima, retirada da primeira lição da Cartilha Sodré. Esta cartilha e sua também famosa sucessora, Caminho Suave, bem como obras ainda mais antigas, podem ser encontradas no acervo de livros didáticos dos séculos XIX e XX do CME.

O acervo é outro exemplo de ação do Centro: um projeto finalizado em novembro de 2007 que contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a coordenação da professora Circe Bittencourt. “Hoje o tema do livro didático tem sido muito valorizado em todo o mundo, por se tratar de um objeto que diz muito sobre a cultura da época, da região e principalmente sobre o ensino”, explica Cecília.

A Biblioteca do Livro Didático, que está instalada com mais de 15 mil livros e continua crescendo, entra neste contexto. “A história das disciplinas também pode ser acessada por estas obras. Questiona-se, por exemplo, como se ensinava matemática em períodos mais antigos. Existem algumas formas de buscar esta informação, mas o livro didático é uma espécie de caixa-preta que pode fornecer importantes respostas”.

Além da ligação com estes e outros projetos de pesquisa e da manutenção do acervo documental, o Centro conta ainda com um acervo museológico (mobiliário e materiais escolares antigos); proporciona visitas monitoradas; estágios para graduandos da FE; cursos para professores e funcionários do ensino público; e, ainda, orientação a alunos de pré-iniciação científica, que cursam o Ensino Médio.

“Temos estimulado as escolas a manterem e conservarem elas mesmas seus arquivos, principalmente porque é a própria escola que pode preservar e estimular sua memória. Mas também porque não teríamos espaço físico e mão-de-obra suficiente para abrigar e cuidar da documentação de tantas escolas. Mas para isso é preciso que a comunidade escolar - pais, alunos, professores e funcionários - não só esteja sensibilizada da importância da iniciativa, como também receba as informações necessárias sobre como recuperar, preservar e armazenar, estando assim apta a dar continuidade ao que foi iniciado pelo CME.”

Aprendendo a valorizar a memória

Em contato com o trabalho do CME, os cerca de 30 alunos que participam da pré-iniciação científica da FE começam a entender o valor de cada documento antigo, além de aprenderem sobre as técnicas para sua preservação. Assim, o quanto antes a cultura da valorização da memória esteja presente na vida dos alunos, melhor. Pensando nisso, o Centro criou um “kit” didático composto por um jogo de tabuleiro, um gibi e um manual a ser distribuído em escolas públicas do estado de São Paulo fundadas até 1950.

Antes da distribuição do material para asescolas escolhidas, , uma equipe composta predominantemente por bolsistas já treinados e supervisionados pelo CME realiza uma visita onde é feito o diagnóstico e o roteiro das ações necessárias em cada instituição. Posteriormente é entregue o kit criado pela historiadora e arquivista do Centro, Iomar Zaia: o jogo e o gibi, que ensinam as crianças de maneira lúdica a importância da memória da educação, e o manual com orientações para que os professores insiram esta atividade nas aulas.

O “Projeto Kit” tem a coordenação da vice-diretora da FE, professora Maria Cecília Cortez Cristiano de Souza, e também recebe apoio financeiro da Fapesp. “Trata-se de um projeto ambicioso, por seu alcance em mais de 150 escolas, e de extrema importância dentro das perspectivas do CME”, ressalta Cecília.

Serviço

Localizado no bloco B da FE, (Av. da Universidade, 308, Cidade Universitária, São Paulo) o Centro de Memória da Educação fica aberto à visitação e consulta de segunda a sexta-feira, das 10 às 18 horas, e aos sábados, das 8h30 às 13 horas. Mais informações podem ser obtidas no site www.cme.fe.usp.br, pelo email cmeusp@usp.brEste endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. , ou pelo telefone (11) 3091-3194, em que também podem ser agendadas as visitas monitoradas.