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Cultura.RJ

Livro Urbano de Gentileza

Publicado em 25 novembro 2014

Resumo

Esta pesquisa consiste em um estudo exploratório do material disponível em livros e redes sociais sobre a vida e obra de José Datrino. O lavrador de origem humilde afirmou ter recebido um chamado divino para viver uma missão na terra, assumindo a identidade de Jozze Agradecido, mais conhecido como Profeta Gentileza. Com suas performances, o Profeta misturou o sagrado e o profano no cotidiano e nas paisagens visuais urbanas. Sua maior contribuição para a arte pública, o Livro Urbano, é composta por 56 painéis pintados por Gentileza em pilastras do viaduto do Caju, na cidade do Rio de Janeiro. Este trabalho considera a relevância da atuação do Profeta Gentileza, o que propiciou que, mesmo após a sua morte, a sua mensagem, agora midiatizada, continue a ser disseminada, espalhando a sua proposta de paz, amor e gentileza.

 

A origem e trajetória do Profeta Gentileza

Nascido em 11 de abril de 1917 na cidade de Cafelândia, interior do estado de São Paulo, José Datrino, segundo Leonardo Guelman (2009), trabalhou como lavrador em sua terra natal e aos 20 anos mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro. Casou-se, então, com Emi Câmara, com quem teve cinco filhos, três femininos e dois masculinos. Mais tarde tornou-se empresário, dono de uma transportadora de cargas.

Há várias histórias que relacionam Gentileza ao imaginário popular, sendo a mais significativa, a que diz respeito ao seu aparecimento como Profeta. A partir de então, em suas apresentações, Datrino coloca-se como um representante de Deus que anuncia um novo tempo. Guelman (2009, p. 23) observa que o profeta já sugere em seu nome a possibilidade de sua missão. Datrino significa, em italiano, de três, enviado pelo trino (trindade).

A filha mais velha do Profeta, em entrevista a Guelman (2009, p. 23), fala sobre o momento da revelação:

Conta Maria Alice, sua filha mais velha, que, numa noite, viu o pai atormentado por uma visita de alguém que queria tornar-se sócio de sua empresa. Com a partida da visita, José Datrino correu para o quintal, e ali cobriu todo o corpo de terra e lama. Soltou, em seguida, os pássaros e as galinhas. Este episódio marcante, já revelava a intensidade daquele momento para o pai de família José Datrino. Invocando-se o direito de reesculpir-se do barro, um novo homem fazia-se de um novo humus. Diante dos gestos e olhares vizinhos, um homem debatia-se em sua própria busca de sentido. De onde fosse possível, mesmo na urgência do instante, era preciso recolher forças para sua conversão no mundo.

 

Em um documentário produzido em 1994 por Luiz Eduardo Amaral e Vinícius Reis, disponibilizado no canal Porta Curtas (1994, online), Gentileza dá um depoimento sobre como se deu o chamado: então veio aquela voz astral na minha mente, que no dia seguinte eu tinha que abandonar tudo o que eu tinha. Ainda sobre sua missão, o Profeta explica: vim como São José, representar Jesus de Nazaré, a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Jesus veio representando o Pai. Eu sou José [...], sendo eu mesmo Jesus, que é o Espírito Santo.

Após a revelação, Datrino deixa a família e tudo que possuía para viver uma missão na terra, assumindo a identidade de Jozze Agradecido, mais conhecido como Profeta Gentileza.

Guelman et al (2011, p. 13) enfatizam que um profeta é alguém que se move na dimensão simbólica entre o humano e o sagrado, sendo tanto aquele que prediz como aquele que exorta e nos conclama para uma nova visão e outro modo de estar no mundo. Gentileza, a seu modo singular, fez isso com toda força expressiva ao apresentar sua denúncia de uma crise do mundo consubstanciada na figura do Capeta-Capital ou do CAPETALISMO [grifo do autor].

Assim, Leonardo Guelman (2009, p. 31) descreve a atuação de quem ele considera um Profeta Urbano: com o verbo na ponta da língua e seu estandarte em punho, encimado por um punhado de flores [...] ele se apresenta nos lugares como um representante de Deus e anunciador de um novo tempo. Com isso, Gentileza foi atraindo as atenções, tornando-se um personagem reconhecidamente popular que proclamava o AMORRR espiritual, a HONRRA e o fim dos vícios da humanidade. Em entrevista concedida a uma dupla de documentaristas, novamente no vídeo disponível no Porta Curtas (1994, online), Gentileza explica o acréscimo proposital de letras às palavras: Há muitos anos eu faço mensagens nas pilastras , mensagens nas passarelas, tudo por amor [...] Amor material se escreve com um R. Amor universal se escreve com três: AMORRR [...] Amor universal, que está faltando no mundo.

Guelman (2009, p. 32) também destaca o caráter pitoresco de Gentileza, como homem de rua, será sempre um fator importante da sua comunicabilidade. Mas esse traço, indissociável de sua figura, nunca retirou a densidade de sua pregação. O autor ainda completa:

É a perspectiva de um homem simples, em sua vivência da realidade e da cultura brasileira, que se estabelece como um contraponto fundamental em relação à forma de vida que implica a todos. Gentileza.Gera.Gentileza conclama o Profeta em mais da metade de seus escritos no Rio de Janeiro (GUELMAN, 2009, p. 51).

Gentileza foi internado por três vezes em hospitais psiquiátricos, segundo Guelman et al (2011, p. 25), mas fugiu deles, até receber um atestado de sanidade mental, seu salvo-conduto no mundo da razão. Peregrinou por vários estados do Brasil, sempre pregando a gentileza, sem cobrar nem um vintém.

Edmir Silveira (2013, online) destaca: Uma característica, no entanto, chamava a atenção: a gentileza e doçura com a qual respondia quando se dirigiam a ele, o que era raro. Ele sempre respondia a mesma frase Gentileza gera gentileza e prosseguia sua caminhada. O autor acrescenta: Ele foi um ser humano totalmente do bem, diferente, único e pouco compreendido, que o tempo transformou no mítico Profeta Gentileza. E nada é mais sábio, verdadeiro e profundo do que a frase que cunhou: GENTILEZA GERA GENTILEZA [grifo do autor].

José Datrino faleceu em 1996, aos 79 anos, mas deixou um rico legado. Assim, nesta pesquisa realizou-se um estudo exploratório com o levantamento do material disponível sobre a vida e obra do Profeta Gentileza em livros, blogs e redes sociais. A partir da análise do material, é proposta uma aproximação do objeto aos estudos da arte pública, partindo-se do princípio de que a própria figura do Profeta mistura um pouco do sagrado e do profano no cotidiano e na paisagem urbana. Depois disso, ainda é apresentada a midiatização da mensagem que teve origem no imaginário popular e é utilizada em produtos comercializados em todo o país, com destaque para o Rio de Janeiro, onde se encontram os 56 murais pintados por Gentileza, uma sequência denominada Livro Urbano.

Esta proposta também é justificada pela relevância do trabalho de José Datrino, o que propiciou que sua mensagem no caso, do Profeta Gentileza continue a ser disseminada até hoje, mesmo após a sua morte, por meio de ONGs Organizações Não Governamentais e pessoas que mantém viva a sua proposta de espalhar a paz, o amor e a gentileza.

Leonardo Boff (2004, online) reiterou a importância do Profeta e de sua obra para a cidade do Rio de Janeiro:

Sua mensagem é de extrema urgência no Rio dos dias atuais. Não bastam os patronos que temos, São Sebastião e São Jorge. Eles ainda usam símbolos de violência, a flecha no corpo e a lança contra o dragão. Precisamos de um símbolo puro como o Profeta Gentileza.

O Livro Urbano e a arte pública

As aparições sempre performáticas de Gentileza indicavam a sua relação com o espaço público do Rio de Janeiro e este acolheu diversas intervenções sob a forma de painéis pintados em canteiros de obras e passarelas, sobretudo da avenida Brasil.

Aos poucos, o Profeta foi criando uma simbologia própria de seu universo ético-religioso (figura 2). Guelman et al (2011, p. 7) depreendem: Manifestação-performance espiritual e artística, as mensagens de Gentileza tinham também método, código e linguagem estética criando uma cosmologia completa: um universo gentileza criado pelo design, pela tipografia, pela escolha das cores, figurino, pelo conteúdo.

Essa identidade mítica criada pelo Profeta em suas inscrições e a maneira característica como acrescenta letras às palavras, é elucidada por Guelman (2009, p. 30-31):

UNIVVVERRSSO de Gentileza é a expressão de uma linguagem nascente na qual o profeta lança mão de uma simbologia religiosa que desperta a atenção pelos signos dos quais se vale e pelo acréscimo de letras nas palavras. Essa forma singular de apresentar-se marca a apropriação de uma simbologia trinitária e quartenária que Gentileza desenvolve em sua linguagem: o UNIVVVERRSSO é a criação conjunta de F/P/E (Pai, Filho, Espírito) em VVV e duplamente participação em RR e SS. Assim como AMORRR ao qual ele sempre se referia: amor material se escreve com um R, amor universal se escreve com três: um R do Pai, um R do Filho, um R do Espírito Santo AMORRR. Esta mesma marcação aparece em F/P/E/N, incorporando um quarto termo (N) SSENHORRA em sua visão religiosa. Essa configuração revela a convergência de sua poiesis singular numa estruturação simbólica de caráter universal.

No final da década de 1980 e início de 1990, Gentileza vivenciou um período de grande atividade na difusão de seus pensamentos, fazendo das intervenções urbanas, uma obra grandiosa: 56 inscrições nas pilastras do viaduto entre o cemitério do Caju e a rodoviária Novo Rio, no Rio de Janeiro.

O conjunto de 56 inscrições realizadas nas 55 pilastras espalhadas por cerca de 1500 metros compõe uma obra grandiosa, que desde 2000 integra o Patrimônio Cultural da cidade do Rio de Janeiro. É o trabalho mais reconhecido de Gentileza e posteriormente foi denominado Livro Urbano, como afirma Leonardo Caravana Guelman, arquiteto e professor da UFF Universidade Federal Fluminense em entrevista ao G1 (2011, online): o profeta Gentileza escreveu propositalmente suas palavras e pensamentos na entrada da cidade. É um livro urbano na entrada da cidade, este precisa ser lido por todos, disse. Guelman et al (2011, p. 13) destacam que o Livro Urbano desponta na maturidade de sua missão profética como um panorama de seu próprio percurso de vida; um livro escrito também como visão panorâmica do mundo, a expor os contrastes e os desafios que se nos colocam diante deste.

 

Os escritos não foram feitos de maneira aleatória, sendo planejados previamente em um caderno de rascunhos com manuscritos. De acordo com Guelman et al (2011), as pilastras são numeradas e há uma sequência de leitura que formam uma cartilha com os preceitos básicos do Profeta.

O livro se lê, preferencialmente, do número 55 ao 1, no sentido Caju -> Av. Francisco Bicalho. [...] No mural 55, Gentileza anuncia que o mundo é uma escola e lança o leitor na escolha das palavras POR GENTILEZA e AGRADECIDO em oposição a POR FAVOR e OBRIGADO. [...] Este ensinamento marca o princípio ético-religioso do seu verbo, pois para Gentileza, dizer por gentileza é colocar Jesus no nome, e agradecido corresponde à graça. O favor se identifica ao CAPETALISMO, assim como obrigado, uma vez que ninguém deve ser obrigado a nada [grifos dos autores] (GUELMAN et al, 2011, p. 13).

 

Paula Alzugaray (2014, online) complementa a ideia do Livro Urbano como arte pública:

"Quem chega ao Rio de Janeiro por uma de suas principais via de acesso, a avenida Brasil, e segue pelo Viaduto do Caju até a rodoviária Novo Rio, tem uma grata surpresa. Em meio à paisagem hostilizada pela poluição química, sonora e visual, o visitante é confrontado por uma seqüência de murais das cores da bandeira brasileira, que anunciam mensagens de paz e sugerem a gentileza como princípio das relações humanas. Inscritas sobre o concreto de 55 pilastras do viaduto, as palavras do mítico andarilho conhecido por Profeta Gentileza (1917-1996), descortinam-se como páginas de um livro urbano ou painéis de uma exposição de arte mural de proporções monumentais."

Assim, um artista marginalizado autointitulado profeta, utiliza o espaço público urbano para comunicar, o que demonstra o poder evocador do muro, que dá a palavra a essa parte da humanidade que, sem ele, estaria condenada ao silêncio (OLIVEIRA, 2012, p. 116).  Considera-se, portanto, a aproximação de Gentileza com a cidade e a arte pública.

"E a arte pública, a arte que se faz no espaço público, o gesto, a intervenção, o evento, a instalação, o espetáculo, a apresentação, a arquitetura que é, enquanto arte, pública por excelência , tudo isso exerce sobre o social preexistente um impacto, em que talvez a hegemonia seja confirmada ou desafiada, mas, mais importante que isso, em que algo de novo desse social passa a ter existência" (PALLAMIN, 2000, p.10).

Massimo Canevacci (2004, p. 31) alia a antropologia e a comunicação na análise das paisagens visuais, sendo que a comunicação visual estabelecendo um nexo entre um evento tecnicamente reprodutível e um edifício imóvel está fornecendo seus próprios signos e contra-signos à cultura contemporânea, com uma força de penetração jamais vista antes. Para o autor (20014, p. 30), a decodificação das mensagens urbanas consiste na arte de interpretar. Nelson Brissac Peixoto (1998, p. 12) corrobora com Canevacci, acrescentando que toda intervenção na cidade é necessariamente plural. É urbanística, arquitetônica, política, cultural e artística. Deve-se reconhecer essa complexidade, em que as ações não são vistas isoladamente (segundo regras próprias, como num museu), mas no interior desse campo mais amplo que é a cidade. Já para Vera Pallamin (2000, p. 15), nesta feitura material e simbólica de que se caracteriza o urbano, a dimensão artística participa como constituinte, havendo entre ambas uma sintonia processual.

Guelman et al (2011) consideram que o Livro Urbano é um território consagrado ao longo de mil e quinhentos metros de extensão (1,5 km) onde se dispõem suas reflexões e ensinamentos. Figueroa Saavedra (2006) apud Campos (2009, online) considera que

"Se a cidade é o contexto onde relações e culturas particulares se desenvolvem, também é o território onde formas particulares de comunicar se desenham. O muro é, desde os tempos mais remotos, suporte privilegiado para a inscrição de símbolos, sendo apropriado por diferentes pessoas, grupos e instituições, com objetivos, funções e poderes distintos. Se o muro é lugar de ordem e harmonia, também é lugar de confronto e desobediência, é objeto de disputa, arena de confrontos simbólicos e recurso cobiçado" (Figueroa Saavedra 2006 apud CAMPOS, 2009, online) [tradução nossa].

José Geraldo de Oliveira (2012, p. 84) considera a cidade um território rizomático. Para o autor, na cidade, a leitura acontece de forma nômade e os pontos podem ser ligados a qualquer momento

"Nas ruas as pessoas tecem a geografia da cidade. [...] Achar na cidade um espaço para comunicar os devaneios, manifestar as inquietudes e anseios diante de uma metrópole que propõe um falso igualitarismo e homogeneização, que leva à perda do sentido de pertencer. Para os transgressores a cidade é um espaço de flanar e um campo de investigação e comunicação apresentando novas possibilidades de ver e de sentir. E eles, por meio de suas obras, criam novas formas de se relacionar com esse espaço" (OLIVEIRA, 2012, p. 84).

Um episódio importante deu-se em 2010, quando o projeto Rio com Gentileza, com o apoio de leis de incentivo e da iniciativa privada, promoveu a restauração dos murais que estavam degradados. Emílio Kalil, então secretário municipal de cultura, em entrevista a Guelman et al (2010, p. 7) destacou a relevância do projeto:

"A restauração dos escritos do Profeta Gentileza, desenvolvida no âmbito do projeto Rio com gentileza, apoiada através da Lei de Incentivo à Cultura / ISS e patrocinada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico NOS, é uma ação sutil, mas forte e relevante de resgate deste patrimônio cultural de alta carga lírica e simbólica para a região e para a cidade do Rio de Janeiro".

O trabalho deu origem a um site http://www.riocomgentileza.com.br e um livro impresso, o Livro Urbano do Profeta Gentileza, dos autores Leonardo Guelman, Dado Amaral e Marianna Kutassy. Ambos detalham os passos de todo o processo de restauração, destacam a relevância do projeto e apresentam diversos depoimentos.

A arte do Profeta Urbano, entretanto, sofre com constantes degradações com a ação de pichadores, de publicidade alocada nas pilastras e da própria prefeitura, como esclarece Vivan Goldmann (2010, online):

"Ainda bem que o protesto da cantora Marisa Monte na música Gentileza, do CD Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, lançado em 20004, é coisa do passado. Um dos trechos da canção diz: Apagaram tudo/Pintaram tudo de cinza/A palavra no muro/Ficou coberta de tinta. Para quem não sabe, a cantora estava se referindo aos poemas de José Datrino, popularmente conhecido como Profeta Gentileza, que foram apagados pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (COMLURB), do Rio de Janeiro".

O Livro Urbano criado por José Datrino se defronta com uma das áreas mais congestionadas da cidade: acesso à cidade, à rodoviária, ao centro. Assim, a mais recente ameaça consiste na demolição do Elevado da avenida Perimetral, onde se encontram parte das pilastras que levam a arte de Gentileza, em função das obras de mobilidade urbana da cidade do Rio de Janeiro, que recebeu a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e se prepara, agora, para os Jogos Olímpicos de 2016. A Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro garantiu, em entrevista ao Extra (2011, online), que as seis pilastras que contém mensagens do profeta Gentileza no entroncamento com o Elevado do Gasômetro, na Zona Portuária, serão preservadas, mesmo com a demolição do Elevado:

"Onde tiver pintura do Gentileza, nós vamos manter as pilastras garante Paes [prefeito da cidade do Rio de Janeiro]. A ideia é que elas fiquem intactas na Avenida Rodrigues Alves. Mas ainda há, segundo o coordenador do Programa Maravilha Cultural e responsável por projetos de preservação do Patrimônio e História da Região, Alberto Silva, a possibilidade de serem removidas para outro local, como uma praça, um memorial ou mesmo um museu. Nenhuma das pilastras com a arte do caminhante incansável José Datrino (nome verdadeiro de Gentileza), todavia, será derrubada [...] A ideia é preservá-las de qualquer jeito, com um tratamento urbanístico, mas ainda não há uma definição do que será feito".

Também em entrevista ao Extra (2011, online), o artista plástico Thiago Caleffi, que desde 2007 vem de ônibus da cidade de Maringá, no Paraná, sul do Brasil, para o Rio de Janeiro, diz que se emociona com as frases do profeta ao chegar à Rodoviária Novo Rio e faz uma oportuna observação acerca de uma possível remoção da obra para outro local: Só espero que a obra não vá para um local fechado ao grande público, porque Gentileza fazia questão que sua ideologia fosse conhecida e absorvida por todos.

A midiatização da mensagem do Profeta

Merecem destaque dois livros publicados sobre o Profeta Gentileza: Univvverrsso Gentileza, escrito por Leonardo Caravana Guelman em 2009 e outro organizado por ele e outros dois autores em 2011, já citado anteriormente, o Livro Urbano do Profeta Gentileza. Nesse último livro, Guelman et al (2011, p. 13) ressaltam que:

"Gentileza dizia ter um livro na cabeça, um livro em que estaria contida a verdade do mundo e que o ajudaria a traçar seu percurso, movido pela sabedoria interior, em sua obstinação em converter o mundo. Com este livro na cabeça, tempos depois, um profeta se lança à cidade transpondo para páginas de concreto de um viaduto, a expressão de seu verbo como a querer redimir as mazelas da urbis contemporânea".

Das suas tábuas de ensinamentos grafadas no concreto e das páginas dos livros impressos, a mensagem do Profeta ganhou espaço e visibilidade nas redes sociais. Além do site Rio com Gentileza www.riocomgentileza.com.br sobre a vida e obra de Datrino, bem como sobre o processo de restauração dos murais, como supracitado, há no Facebook, a página Gentileza Gera, que é uma comunidade com mais de 263 mil likes. A página utiliza a identidade visual característica e divulga mensagens não somente do Profeta, mas também outras que tenham aderência aos seus ensinamentos. Parece ser a mais completa e apresenta link para o blog Gentileza Gera Gentileza7 e para o Twitter @GentilezaGera1, com o mesmo conteúdo repetido ou complementar nessas plataformas. Outras páginas foram encontradas, com menor expressão, dentre elas, a Página do Profeta Gentileza9 e Frases do Profeta Gentileza10, respectivamente com 3293 e 1173 likes. Ambas não utilizam a identidade visual criada pelo Profeta, apresentando somente frases de auto-ajuda com fotos. Ainda foram identificados no Twitter, os perfis @ProftaGentileza, @RiodeGentileza, @OGentileza e @Gentileza_Prof, todos igualmente sem grande expressão e ou relação com a vida e obra de Datrino.

O blog O Impressionista apresenta o Museu Virtual Gentileza, designado como um espaço dedicado a fotos e textos sobre o Profeta Gentileza (José Datrino, 11.04.1917-29.05.1996), com o propósito de ajudar a preservar sua história e sua mensagem. Nele podem ser consultados a biografia e textos escritos sobre o Profeta, imagens dos murais do viaduto do Caju e link para entrevista em vídeo. Já o blog José Datrino, Profeta de Gentileza, apresenta fotos de todos os murais, bem como o texto em português e em inglês.

Foram encontradas algumas músicas em homenagem à vida e obra do Profeta Gentileza. Uma delas já foi citada anteriormente, composta por Marisa Monte acerca da pintura dos murais de cinza pela prefeitura: Apagaram tudo / pintaram tudo de cinza / a palavra no muro / ficou coberta de tinta. Além dessa, Tóxicos Carros, composta por Cabelo e interpretada por Boato, que é utilizada como trilha do documentário produzido por Dado Amaral e Vinícius Reis: Gentileza escreve Gentileza Gera Gentileza/ Amorr à natureza / na passarela pela qual passamos / e embaixo dela escorrem tóxicos . Outra, ainda, composta por Gonzaguinha: Feito louco, pelas ruas / com sua fé Gentileza, / o profeta e as palavras / calmamente semeando o amor / à vida, ao humanos, bicos, matas / Terra, nossa mãe. A cantora Claudia DOrei também gravou uma música onde cita a frase cunhada pelo Profeta Gentileza gera Gentileza e por fim, Em 2001, Gentileza foi homenageado por uma escola de samba durante o carnaval no Rio de Janeiro a GRES Acadêmicos do Grande Rio: Novo milênio /avança o homem para o espaço sideral / em busca de mensagem positiva / valorização da vida, o amor universal / na arena alegria e dor / triste legado que roma pagã deixou..ô..ô..ô..ô / pelas vozes foi guiado / o arauto iluminado / a mudar o seu destino / renuncia a ambição / ao seguir a intuição José Datrino.

Outra curiosidade é que em 2009, o autor Paulo José interpretou o Profeta Gentileza na novela Caminho das Índias, exibida em horário nobre pela Rede Globo, emissora líder de audiência no Brasil.

 

Além das redes sociais e da mídia de massa, de acordo com Heloisa Aruth Sturm (2012, online), há uma montagem teatral inspirada no livro Univvverrsso Gentileza, de Leonardo Guelman, encenada pela primeira vez em 2008.

"Para que não se perca, os organizadores de Univvverrsso Gentileza querem que ele vire "patrimônio afetivo do Rio". Na pré-estreia do espetáculo, no início do mês, fizeram o pedido a Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. Fajardo disse que essa categoria de patrimônio ainda não consta na lei municipal e prometeu estudar o assunto".

Todo esse material citado demonstra que há pessoas interessadas em manter viva e disseminar a mensagem do Profeta, mesmo após a sua morte, sendo a mensagem oriunda no universo simbólico da cultura popular e disseminada em várias plataformas de comunicação massiva.

As mensagens grafadas com a identidade e universo simbólico criados pelo Profeta ainda estampam toda a sorte de objetos (figura 4), dentre eles bottons, adesivos, chaveiros, roupas e bonés, cangas de praia, utensílios domésticos e souvenirs dos mais diversos.

Há que se destacar, portanto, a visibilidade e disseminação ocorrida pela midiatização da mensagem que teve origem no imaginário e na cultura popular.

Considerações Finais

José Datrino torna-se Jozze Agradecido com uma missão de pregar o AMORRR universal na Terra, onde a GENTILEZA se contrapõe ao POR FAVOR e o AGRADECIDO, da mesma maneira, se opõe ao OBRIGADO. O Profeta e seu UNIVVERRSSO simbólico idealizado para disseminação da mensagem, a princípio, por meio de simples intervenções urbanas e contato direto com os transeuntes, de caráter humanizado, migra para pequenas tabuletas e inscrições em canteiros e depois para o concreto exposto entre o caos urbano. O trabalho de Gentileza confunde-se, então, com a arte pública e disputa território com a publicidade, com os artistas urbanos, com o poder público, mas consegue se manter vivo, graças à sua relevância como patrimônio cultural da metrópole. Assim, entre depredações, restaurações e ameaças, a mensagem oriunda de um artista autointitulado profeta, a princípio, de pouca expressão, toma, anos depois, proporções e alcance inimagináveis por quem a concebeu. Do contato interpessoal e da exposição no concreto, os ensinamentos do Profeta passaram a ser difundidos em redes sociais e consolidaram-se na mídia de massa com tamanha repercussão, a ponto de inspirar a produção de músicas (inclusive samba enredo), personagens de novelas e peças teatrais.

 

Da mesma maneira, a mensagem de grafia, design e conteúdo característicos foi ressignificada para a produção de objetos que, comercializados, representam não somente a obra do Profeta, mas também uma identidade ligada à brasilidade, sobretudo à cidade do Rio de Janeiro. Afere-se, portanto, que uma simbologia criada por um homem de origem humilde, tido como louco por se auto declarar profeta e representante de Jesus na Terra, consagrou-se no Brasil e no mundo por meio dessas interações que visaram não somente preservar as suas mensagens, mas também trazê-las para o ambiente mercadológico sob diversas instâncias. É uma simbiose de interesses múltiplos possíveis, em sua maioria mercadológicos, em contraponto ao que pregava o Profeta Gentileza, que era contra o CAPETA-LISMO e sempre prezou pela mensagem de paz em um UNIVVVERSO de AMORRR ideal, mas possível na Terra, onde GENTILEZA-GERA-GENTILEZA.

Referências

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Artigo apresentado no XIV Encontro dos Grupos de Pesquisa em Comunicação, evento componente do XXXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, e publicado nos anais do Congresso.

 

Sobre a autora:

Lucimara Rett é Publicitária pela Unitau Universidade de Taubaté (1994) e Doutora em Comunicação pela Umesp Universidade Metodista (2009). Atua como Professora Adjunta na Escola de Comunicação da UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro. É integrante dos grupos de pesquisa Imagem, Mercado e Tecnologia (UFRN), Mídia, Cultura e Memória (Unip) e Estudos Avançados de Comunicação Organizacional (UFRN). E-mail: ">lucimara.rett@eco.ufrj.br.

 

Colaboração de Lucimara Rett