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Livro retrata história e perspectivas do medicamento brasileiro P-Mapa

Publicado em 24 março 2016

Birigui, no interior paulista, é o lugar do início de uma história incrível: a de um médico inquiridor e persistente chamado Odilon da Silva Nunes, que há mais de 50 anos pôs na cabeça que faria um medicamento contra o câncer – e a seu modo fez.

Depois do trabalho inicial do médico, esse fármaco, hoje conhecido como P-MAPA (abreviação de agregado polimérico de fosfolinoleato-palmitoleato de magnésio e amônio proteico), tem sido estudado em centros de pesquisa no Brasil e de outros países e está pronto para entrar na fase de testes clínicos formais para avaliação de sua eficácia – que, se bem-sucedidos, poderiam permitir seu registro por órgãos oficiais para amplo uso em humanos.

A formulação criada a partir de uma variedade do fungo Aspergillus oryzae mostrou-se um imunomodulador capaz de ativar as defesas do organismo, ajudando-o a combater, além de tumores, também vírus, bactérias e protozoários, conforme experimentos detalhados em vários trabalhos acadêmicos e artigos científicos. São 11 artigos científicos já publicados e um com aceite para publicação no Brazilian Journal of Urology.

A história e as dificuldades desse longo trabalho – conduzido inicialmente longe dos centros convencionais de pesquisa científica – foram narrados pelo jornalista de ciência Carlos Henrique Fioravanti, que acompanhou durante 24 anos o desenvolvimento do P-MAPA, no livro “A Molécula Mágica – A luta de cientistas brasileiros por um medicamento contra o câncer”, que será lançado no próximo dia 28 de março, em São Paulo.

Como destaca Fioravanti na apresentação da obra, trata-se de um relato jornalístico sobre a trajetória de pessoas que lutaram durante décadas para fazer algo extremamente difícil no Brasil: um medicamento original contra o câncer.

O prefácio é assinado pelo médico Esper Abrão Cavalheiro, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foi em seu laboratório onde, em 1991, Fioravanti conheceu o trabalho feito pelo médico de Birigui.

De acordo com o livro, o plano de Odilon para criar um medicamento contra o câncer teve início a partir de uma hipótese própria sobre a origem da doença, formulada em 1948, ainda durante a graduação em Medicina, na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.

O médico acreditava que os tumores eram resultado de um desequilíbrio iônico nas células, que as fariam se reproduzir de modo descontrolado e contínuo. Depois, de volta a Birigui, em seu laboratório particular, ele formulou milhares de extratos desenvolvidos a partir da fermentação de fungos e os testou em camundongos com linhagens específicas de tumores, que recebera de instituições científicas, até encontrar o composto que induzia a regressão tumoral.

Odilon Nunes trabalhou praticamente sozinho em seu laboratório durante 25 anos. A trajetória solitária começou a mudar em 1985, quando seu filho Iseu Nunes atraiu um grupo de pesquisadores acadêmicos – entre eles Nelson Duran e Alba Brito, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – para confirmar as propriedades químicas e biológicas da substância, na época conhecida como SB-73.

Em 1987, o grupo criou o Centro de Desenvolvimento de Novos Compostos com Atividade Biológica (Cedecab) para organizar a pesquisa científica formal sobre o SB-73 e facilitar a aproximação com empresas, governo e outros potenciais colaboradores.

A primeira coisa que o grupo precisava fazer era descobrir a identidade química do composto. Tinham indícios de que ele poderia tratar câncer e doenças infecciosas, mas ninguém sabia ao certo por quê.

Além da pesquisa básica, que incluía a caracterização química e avaliação da toxicidade do SB-73, o Cedecab atuou em outras três vertentes integradas: pesquisa tecnológica, para ampliar a escala de produção do composto; pesquisa clínica formal e controlada em centros médicos qualificados, para avaliação de sua segurança de uso e eficácia; e proteção dos direitos de propriedade intelectual, essencial nas eventuais negociações com empresas interessadas em produzir o medicamento.

Como resultado desse modelo de organização, os pesquisadores atingiram, entre 1987 e 1992, três objetivos importantes: definiram as primeiras possibilidades de uso do composto por meio de experimentos feitos na Unicamp e, ao lado de médicos, o empregaram para tratar portadores de HIV/Aids (numa época em que o AZT ainda era raro e caro), expandiram a escala de produção e receberam a primeira patente, aprovada em 1992 nos Estados Unidos.

A visibilidade do medicamento cresceu a partir de 1991com a epidemia de Aids e aumentou a demanda de interessados no fármaco, que ainda não havia passado por todos os testes de segurança e eficácia. Mesmo assim, o médico Odilon o usou para tratar pessoalmente, em seu consultório, pessoas com câncer, amparado por uma liminar judicial. Essa decisão foi contestada pelo grupo ligado ao Cedecab, que queria cumprir todas as etapas de testes exigidas para a liberação de um novo medicamento. A liminar perdeu validade em 2001, quando o médico morreu.

Por outro lado, as conversas com diretores de empresas farmacêuticas nacionais e multinacionais não avançavam. Como explica o livro, para completar os testes necessários para aprovação da droga, as empresas teriam de fazer algo que no início da década de 1990 não estavam habituadas: investir em pesquisa e contratar pesquisadores. Uma empresa de Campinas fez, na época, uma proposta ao grupo, que não avançou.

As divergências sobre os rumos da pesquisa levaram à dissolução do grupo, refeito anos depois por meio da Farmabrasilis, uma rede de pesquisa criada para retomar os estudos com o P-MAPA, reunindo cientistas do Brasil e dos Estados Unidos.

A partir de 2009, sob a coordenação do pesquisador Wagner José Fávaro, do Instituto de Biologia da Unicamp, o grupo avançou no entendimento de como o P-MAPA atuava contra tumores e doenças infecciosas.

Com o uso de modelos animais para câncer de bexiga, Fávaro mostrou que o fármaco ativa receptores da membrana celular conhecidos como toll-like – particularmente os subtipos 2 e 4. Isso induz uma resposta imunológica mediada pela citocina interferon-gama e estimula a restauração da produção e da função da proteína p-53. Em conjunto, esses efeitos induzem a morte das células tumorais.

“Em consequência da ativação dos receptores toll e p-53 pelo P-MAPA é produzido um tipo de colágeno conhecido como endostatina, que diminui a formação de novos vasos sanguíneos necessários para nutrir o tumor. Secundariamente, o composto regula os receptores dos hormônios sexuais (andrógenos e estrógenos) e, desse modo, altera o metabolismo das células tumorais. A partir desses efeitos o sistema imune pode reconhecer e combater o tumor”, explicou Fávaro.

Também pela ativação dos receptores do tipo toll, o P-MAPA estimula o sistema imune a combater parasitas intracelulares. Já mostrou bom resultado em experimentos feitos no Brasil e nos Estados Unidos contra tuberculose, leishmaniose e alguns tipos de vírus.

Artigos descrevendo os mecanismos de ação do P-MAPA foram publicados em periódicos como o International Journal of Clinical and Experimental Pathology e o Infectious Agents and Cancer.

Boa parte dos estudos feitos para entender o efeito do fármaco teve apoio da FAPESP. Entre 1997 e 2015, foram aprovados cinco Auxílios Regulares a projetos de pesquisa, quatro bolsas de pós-doutorado, quatro de doutorado, três de mestrado, dez iniciações científicas e dois auxílios à participação em reunião científica no exterior – somando um total aproximado de R$ 3,5 milhões investidos pela Fundação.

Com base nos testes pré-clínicos, na baixa toxicidade do P-MAPA e nos estudos realizados na Unicamp , os pesquisadores pretendem fazer os ensaios clínicos contra câncer de bexiga intravesical.

Segundo Fávaro, experimentos indicam que a droga também poderia ser indicada contra câncer de próstata, ovário, pâncreas e, possivelmente, outros tumores dependentes de hormônios, como mama.

Primeiro contato

A primeira entrevista pessoal de Fioravanti com Odilon, que depois de transcrita somou mais de cem páginas e serviu de base para o livro, foi realizada em 1993.

Sua primeira análise sobre a trajetória e os possíveis significados do P-MAPA foi concluída em 2007, quando ele estudava na University of Oxford, da Inglaterra, por meio de uma bolsa oferecida a jornalistas pelo Reuters Institute for the Study of Journalism.

Ele voltou a abordar o tema no doutorado, concluído em 2010 na Unicamp. Continuou entrevistando pessoas e ouvindo histórias. Ao todo, foram 75 entrevistados.

A Molécula Mágica – A luta de cientistas brasileiros por um medicamento contra o câncer

Autor: Carlos Henrique Fioravanti
Editora: Manole
Lançamento: março 2016
Preço: R$ 34,00
Páginas: 256
Mais informações www.manole.com.br/