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Livro resgata garotas de Alceu Penna em O Cruzeiro

Publicado em 24 setembro 2010

Na infância, sempre que ia para a casa do avó, Gabriela Ordones Penna, recebia vários lápis de cor e xerox com desenhos de diferentes garotas. Aos 10 anos, divertia-se colorindo aquelas meninas. Sabia que haviam sido criadas pelo tio Alceu, irmão do avô que não conhecera, morto antes de ela nascer. Gabriela cresceu. Universitária, no curso de publicidade e propaganda começou a se envolver com o mundo fashion. "Ao fazer estágios sobre moda e comunicação, a referência a tio Alceu foi inevitável", comenta.

Formada, Gabriela passou a cursar mestrado em moda no Centro Universitário Senac SP, o primeiro do gênero na América Latina. Não pensou duas vezes: decidiu estudar a obra de Alceu Penna 1915-1980 , o tio que havia conhecido por meio dos desenhos da infância.

Vamos, garotas! Alceu Penna - Moda, corpo e emancipação feminina 1938/1957 , livro resultante da dissertação de Gabriela Penna, defendida em 2007, será lançado hoje à noite, na Academia de Ideias. O artista gráfico mineiro, que fez sua trajetória no Rio de Janeiro, tornou-se figura de referência no meio por causa da coluna As garotas, que assinou de 1938 a 1964 na revista O Cruzeiro.

A sobrinha-neta do autor estudou a coluna até 1957, período em que as ilustrações de Alceu tinham como redatores Millôr Fernandes e Accioly Netto ambos com pseudônimos . "Mais tarde, quem se tornou redatora foi Maria Luiza Castelo Branco, que deu tom bastante conservador à coluna a partir de 1957. É curioso, pois enquanto os homens apimentavam, a única mulher a trabalhar na coluna fez o contrário", afirma Gabriela.

Essa dicotomia foi uma das principais questões que chamaram a atenção da pesquisadora. "Os redatores contrabalançavam a ousadia do Alceu. A questão é: se os desenhos fossem absolutamente ousados, chocariam o público. Então, quando a imagem era mais picante, o texto se tornava mais conservador", explica ela. E vice-versa. "Ousadia e recato expunham a contradição da mulher da época, prestes a sofrer uma transformação."

Gabriela considera As garotas do Alceu as primeiras pin-ups brasileiras. "Eram ruivas, morenas e loiras que tinham as pernas de fora, paqueravam vários rapazes, iam a festas, tinham ressaca, namoravam mais de um. Enfim, tinham vida superagitada. O único tipo que não havia era a negra, pois o perfil das ilustrações era anglo-saxão, inspirado no modelo norte-americano", acrescenta Gabriela.

De acordo com ela, a principal referência de Alceu Penna foram as chamadas Gibson Girls, criadas por Charles Dana Gibson nos Estados Unidos, no fim do século 19, bastante populares até as primeiras décadas do século 20. "Alceu deu uma aura de modernidade a elas, que, à primeira vista, chamavam a atenção justamente por essa visualidade."

O Cruzeiro começou a publicar a coluna na seção de humor. A partir dos anos 1940, ela foi transferida para a área feminina. "O humor é interessante, porque ele comunica melhor. As garotas não eram perfeitas, como aquele ideal da mulher na década de 1950", explica a pesquisadora. Meninas de papel, podiam fazer o que quisessem. Dessa forma, seu comportamento e sua imagem faziam críticas à realidade brasileira. Gabriela cita como exemplo o desenho em que Alceu mostra garotas de avental varrendo a casa. "O texto vem e subverte isso, elas dizendo que não estavam mais a fim de ser donas de casa nem rainhas do lar, por exemplo".

Para ela, um dos maiores méritos do artista gráfico foi antecipar questões que viriam à tona, em todo o mundo, a partir dos anos 1960: devo me casar ou curtir a vida o que quero quem sou eu . "Carregamos até hoje esse questionamento da identidade feminina", conclui a pesquisador. De volta a Belo Horizonte, Gabriela acabou de fazer pesquisa sobre a moda mineira das décadas de 1950 e 1960 para o Memorial da Cultura Mineira.

VAMOS, GAROTAS!

. De Gabriela Ordones Penna

. Fapesp/Annablume, 146 páginas

Lançamento hoje, a partir das 20h30. Academia de Ideias, Rua República Argentina, 755, Sion.

DE CURVELO

Nascido em Curvelo, Alceu Penna não ficou muito tempo em Minas Gerais. Logo se mudou para o Rio de Janeiro, onde morou até a morte. Desenhista autodidata, foi responsável por cartazes, cenários, figurinos, fantasias de carnaval e capas de livros. Chegou, inclusive, a renovar a fantasia de Carmen Miranda quando ela partiu para Hollywood. Além de O Cruzeiro, colaborou com as revistas A cigarra, O Globo juvenil e Manequim. Na década de 1960, criou modelos e estampas para a Cia. Rhodia Brasileira, cujos desfiles rodaram o mundo.