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Correio Popular online

Livro registra movimento de migração venezuelana

Publicado em 10 março 2019

A intensidade da entrada de venezuelanos pela fronteira Norte do Brasil, em 2018, trouxe o assunto para o centro do debate sobre imigração. Em meio a manifestações de violência e solidariedade da população, muitas organizações se mobilizaram para entender e atender às demandas geradas pelo fenômeno. O Observatório das Migrações de São Paulo, do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), liderou a interlocução entre os diversos grupos envolvidos, gerando o livro Migrações Venezuelanas, que foi lançado no começo deste mês em São Paulo.

Sob coordenação de Rosana Baeninger, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e Nepo, e João Carlos Jarochinski Silva, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), a publicação busca registrar o momento histórico, a partir da pluralidade de pontos de vista dos atores envolvidos. “Não é uma produção pontual, mas a construção de uma rede de parcerias e diálogos. Mostra o papel fundamental da academia na articulação dos atores, para o entendimento desse contexto geral”, afirmou Baeninger.

“A experiência acumulada em pesquisas na temática das migrações na Unicamp propiciou aglutinar esses diferentes atores, respeitando todos os olhares e colocando-os à disposição do conhecimento e das políticas públicas. Isso aumenta nossa responsabilidade, capacidade de diálogo e poder para subsidiar mais de perto essas questões”, completou.

Nos 55 artigos que compõem o livro, é possível ter acesso a depoimentos dos imigrantes; a perspectivas oficiais dos principais órgãos das Nações Unidas dedicados à temática, como o Fundo de População (UNFPA), a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e Agência da ONU para Refugiados (ACNUR); contribuições das Forças Armadas, do Ministério Público do Trabalho e da Defensoria Pública da União; além de docentes e pesquisadores das principais universidades do País. A publicação conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Ministério Público do Trabalho.

Contexto

O primeiro ponto que deve ser levado em consideração, de acordo com Rosana Baeninger, é o contexto no qual acontecem essas migrações.

Os fluxos de venezuelanos para o Brasil não são um fenômeno isolado. Fazem parte, segundo ela, de um contexto geopolítico internacional de fechamento das fronteiras dos Estados Unidos e Europa.

“Quanto mais os países do Norte fecham as fronteiras, mais só restam os países do Sul. O Brasil se torna o país possível. Não é necessariamente o desejado”, explicou. Esse processo é conhecido como “migrações sul-sul”.

Para ela, a imigração tem que ser vista como um todo, não em movimentos populacionais isolados. “O Brasil, como um país de trânsito para muitas dessas populações, vai continuar recebendo migrações sul-sul nos próximos anos. As políticas migratórias têm que estar atentas, porque os processos são globais, mas as demandas serão locais. A única maneira combater a xenofobia, a discriminação e o preconceito é tratando os imigrantes com os mesmos acessos a direitos como os dos nacionais e só pode acontecer por meio de políticas sociais”, explicou.

Em dezembro, Campinas recebeu 117 venezuelanos que emigraram fugindo da situação política e econômica do país sul-americano, informou a Casa Civil da Presidência da República. As famílias foram acolhidas por voluntários de um projeto humanitário desenvolvido por uma igreja. A recepção aos venezuelanos teve até música no Aeroporto Internacional de Viracopos.