Notícia

Jornal de Piracicaba

Livro mostra a repressão política no governo de Getúlio

Publicado em 14 agosto 2005

A memória política das cidades do interior do Estado de São Paulo e movimentos político-sociais dos anos de chumbo são o mote do livro "Na Boca do Sertão: o Perigo Político no Interior do Estado de São Paulo", editado pelo Arquivo do Estado/ Imprensa Oficial, assinado pela piracicabana Beatriz de Miranda Brusantin. A pesquisa foi realizada com base nos documentos registrados no acervo do Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) e integra a coleção Inventário Deops, resultado de uma parceria entre a Universidade de São Paulo, o Arquivo do Estado, a Imprensa Oficial e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O conteúdo da obra, que reúne 219 páginas em 11 capítulos, apresenta o contexto brasileiro entre os anos de 1930 e 1945.
A coleção Inventário Deops tem o objetivo de resgatar a memória nacional e formar pesquisadores. Ao mesmo tempo, a iniciativa abre espaço para a divulgação das pesquisas desenvolvidas pelos alunos de graduação do Departamento de História. A iniciativa de publicar um livro sobre o tema integra o projeto coordenado pela professora do departamento de História da Universidade de São Paulo, Maria Luiza Tucci Carneiro, que também assina a organização da publicação.
Com base no acervo do Deops, Beatriz permite que o leitor tenha um contato aprofundado com os fatos que marcaram a repressão policial aos movimentos políticos, especialmente aqueles formados por comunistas, aliancistas, estrangeiros e integralistas. Trata-se de um estudo sobre as formas de controle ideológico que marcaram o cotidiano paulista no primeiro governo de Getúlio Vargas.
"Elaboramos o inventário dos prontuários do Deops referentes às delegacias do interior do Estado de São Paulo, identificando os "perigos' majoritários identificados em cada cidade. Caracterizamos as formas manifestas de crimes políticos e de repressão acionadas pelo Deops enquanto órgão repressor do governo getulista com ênfase nos mecanismos de controle articulados entre as várias delegacias do interior e a Secretaria de Segurança", conta Beatriz .
Segundo ela, ainda foram identificados os prontuários dos participantes de movimentos "subversivos" no interior paulistano, com um perfil para os suspeitos com base na sua profissão, nacionalidade e opção ideológica. "Enfim, procuramos adicionar detalhes de um viés político-cultural à historiografia contemporânea, tendo como objeto de estudo os paulistas que lutaram e reivindicaram seus direitos como cidadãos brasileiros em um momento histórico de intensa repressão política e controle policial encabeçado por Getúlio Vargas. Os prontuários organizados pelas delegacias de polícia do interior do Estado de São Paulo estão longe de nos apresentar uma população apática e despolitizada. Os documentos confiscados e anexados como provas de crime político comprovam que frentes de resistência se organizam em busca de soluções para os problemas brasileiros", conta.
Segundo a autora, durante o primeiro governo de Vargas, constatou-se a intensa vigilância policial, que articulada e informada, mapeou o interior paulista em busca de grupos de políticos e pessoas subversivas. "A polícia, enquanto personificação do Executivo, exerceu no interior a função ditada pelo chefe de Estado de preservação da ordem e destruição de qualquer desvio do projeto étnico-político. Os milhares de ofícios, informes e relatórios expressam a eficácia do esquema de segurança, que organizou uma verdadeira máquina burocrática com o objetivo de controlar as atividades no interior do país", fala.

Serviço — "Na Boca do Sertão: o Perigo Político no Interior do Estado de São Paulo", editado pelo Arquivo do Estado/ Imprensa Oficial, Beatriz de Miranda Brusantin. (Arquivo do Estado- Imprensa Oficial; 219 páginas; 2003).