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USP - Universidade de São Paulo

Livro lançado pela Edusp resgata preciosidades do acervo do IB

Publicado em 07 janeiro 2010

O Instituto de Biociências (IB) da USP lançou em dezembro o livro Ciência, História e Arte - Obras Raras e Especiais do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Organizado pela diretora técnica do Serviço de Biblioteca do IB, Nelsita Ferraz de Campos Trimer, o catálogo de 352 páginas, ricamente ilustrado, é fruto dos trabalhos de restauração das obras realizados desde 1996.

O acervo é formado principalmente por obras dos séculos 18 e 19 e parte dele veio através de doações e transferência de obras da biblioteca da Escola Politécnica (Poli) e da então denominada Faculdade de Farmácia da USP - que em 1962 passou a se chamar Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF). Muitas dessas obras, únicas no país e raras no mundo, se encontravam em péssimo estado de conservação. Isso se devia em grande parte a intervenções inadequadas de restauração e conservação realizadas anteriormente e a problemas relacionados a fungos e cupins.

Além disso, estavam sendo mantidas em um ambiente que não atendia às recomendações de temperatura e umidade relativa. Para custear as providências necessárias, foram obtidos recursos da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e da Fundação Vitae, além da Comissão de Pesquisa do Instituto de Biociências. Hoje, a Sala de Obras Raras e Especiais prevê a conservação e restauração de todo o acervo, além da adequação ambiental. Ela está aberta aos pesquisadores, professores e alunos da USP e ao público em geral.

A apresentação do livro foi escrita pelo bibliófilo José Mindlin, que doou no ano passado grande parte do seu acervo de 45 mil títulos para a USP e acompanhou a equipe de Nelsita no trabalho de restauro. Segundo ele, o acervo é motivo de grande orgulho para a USP e "faz vibrar o coração de um bibliófilo".

Relatos de viajantes

A biblioteca do Instituto de Biociências possui um vasto acervo de relatos de viagens ao Brasil, que resultaram em importantes descobertas feitas por estudiosos europeus, como o alemão Ernst Ludwig Bresslau. Nascido em 1877, ele estudou medicina e pesquisou diferentes grupos animais, de protistas a vertebrados. Veio ao Brasil pela primeira vez em 1904, servindo como médico em uma linha naval. Gostou tanto da "terra prometida para os zoólogos" que retornou em 1913 para uma expedição zoológica. O resultado foi publicado em 1927 e contém, além dos dados zoológicos, descrições do ambiente ao redor de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1934 foi convidado para ser o primeiro professor catedrático da cadeira de Zoologia da então recém-criada Universidade de São Paulo.

Outro estudioso que se interessou pelo Brasil foi o naturalista Johann Baptist Emanuel Pohl. Nascido na Boêmia em 1782, ele veio inicialmente para estudar minerais do País na missão científica austríaca que acompanhava a futura imperatriz Leopoldina. Porém, como um dos botânicos da missão voltou antes para a Europa, Pohl passou a se dedicar também a essa área. O exemplar da obra pertencente ao Instituto de Biociências em que ele descreve as plantas coletadas na viagem é uma das raras edições do mundo com litografias coloridas e, segundo o catálogo, é uma das mais belas publicações sobre a flora brasileira.

O alemão Karl Friedrich von Martius também foi incluído na comitiva da imperatriz que, por ocasião do seu noivado com D. Pedro I do Brasil, solicitou ao seu pai, o imperador da Áustria, que fizessem parte de sua comitiva naturalistas, geógrafos e desenhistas para registrar e estudar a natureza de sua segunda pátria. Martius já havia tentado vir ao País antes e solicitou uma expedição ao rei da Baviera, mas o pedido foi negado por falta de recursos. O resultado da viagem se encontra em numerosas obras que podem ser encontradas na biblioteca do Instituto de Biociências.

Outro livro sobre viajantes no Brasil é a Histoire d"un voyage faict en la terre du Brésil, de Jean de Léry (1534-1611). Léry, estudante de teologia em Genebra, viajou ao Brasil em 1556 integrando o grupo de colonizadores e pastores protestantes solicitado por Nicolas Durand de Villegagnon ao reformador João Calvino. Villegagnon havia fundado uma colônia na atual Baía de Guanabara a fim de reunir homens de todos os credos religiosos. Quando o grupo chegou ao País, no entanto, o fundador da colônia começou a persegui-los, submetendo-os a um regime intolerável. Léry e alguns companheiros conseguiram escapar após grandes tribulações e foram escondidos por índios. Depois de voltar para a França, diante do interesse de seus amigos pela viagem e para revelar a atitude de Villegagnon contra os protestantes, ele escreveu o livro. O trabalho traz não apenas um relato dos acontecimentos, mas também observações sobre o clima, a flora, a fauna e os índios brasileiros. O acervo possui também obras do naturalista inglês Charles Darwin (leia texto ao lado).

Estudos brasileiros

No catálogo da biblioteca constam também obras de brasileiros, com destaque para a história de frei José Mariano da Conceição Velloso. Citado por José Mindlin como autor de um dos trabalhos mais importantes do acervo, o religioso mineiro teve o apoio do governo brasileiro para as suas extensas pesquisas em botânica e sobre peixes e insetos. No entanto, seu trabalho só foi publicado após sua morte, o que é estranho quando se considera que ele mesmo foi o responsável por uma editora que publicou cerca de 80 títulos em Portugal.

"A menos que existisse proibição velada à publicação da Florae fluminensis sob pena de divulgar as preciosidades do Brasil, não se entende por que ela não foi publicada. O mesmo destino teve uma obra de frei Mariano sobre os peixes do Brasil, cuja publicação também havia sido autorizada logo após sua chegada a Lisboa", escreve o professor do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências e colaborador do catálogo, Miguel Trefaut Urbano Rodrigues. Segundo ele, a obra completa do frei é muito rara hoje. Apesar de terem sido impressos 2 mil exemplares, apenas 500 vieram para o Brasil, os quais ficaram guardados em depósitos do governo do Rio de Janeiro e acabaram estragados.

Além de livros, a biblioteca do Instituto de Biociências possui também os exemplares publicados entre 1904 e 1909 da revista científica, artística e literária Kosmos, uma das mais belas produzidas no Brasil na época, segundo o professor Trefaut. "Para o geógrafo, botânico, zoólogo e ecólogo, as fotografias de paisagens de um Brasil hoje desaparecido, especialmente na região da mata atlântica, constituem documentação histórica da maior importância", afirma.