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Livro inédito orientado por Mário de Andrade é lançado

Publicado em 05 fevereiro 2020

Por Claudia Costa

“A Linguagem Musical”, de Oneyda Alvarenga, foi escrito entre 1933 e 1944

Em 1933, sob os incentivos de seu professor Mário de Andrade (1893-1945), a então aluna do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo Oneyda Alvarenga (1911-1984) escreveu um trabalho de conclusão de curso intitulado A Linguagem Musical, que receberia vários acréscimos até 1944, quando a autora decidiu finalmente encerrar a pesquisa. A primeira versão da obra, sem os acréscimos, foi publicada somente na década de 80 no Boletim da Sociedade Brasileira de Musicologia, pouco depois da morte da autora. Agora, o texto completo – o original finalizado em 1933 e os acréscimos introduzidos até 1944 – acabam de ser publicados pela Editora Intermeios e pela Fapesp.

Baseada em pesquisas no Acervo Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – onde se encontram os escritos de Oneyda -, essa edição inédita de A Linguagem Musical foi organizada pela pesquisadora Luciana Barongeno e é resultado de sua tese de doutorado, defendida em 2014 no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, sob orientação da professora Flávia Camargo Toni.

Dos oito capítulos que compõem o livro, dois deles (“Análise técnica da linguagem musical” e “Aspectos históricos da linguagem musical”) receberam maior detalhamento e seu desenvolvimento é consideravelmente mais longo – quase 25 páginas cada um, enquanto os demais ocupam de cinco a dez páginas, como explica a professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Yara Borges Caznok, que assina o posfácio do livro. “Por apresentarem os conteúdos mais técnicos e específicos da linguagem musical, eles são ‘o coração do livro’ e podem ser considerados como eixos referenciais na condução da tese de que a música é uma linguagem e nas argumentações que defendem essa ideia.”

A organizadora Luciana Barongeno destaca os capítulos “Aspectos históricos da linguagem musical” e “Como ouvir música”, ambos relacionados às atividades desenvolvidas por Oneyda na Discoteca Pública. Segundo Luciana, esses textos revelam o estilo de escrever simples e elegante da autora.

Retrato de formatura de Oneyda Alvarenga no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, com dedicatória para Mário de Andrade, e um estudo das partituras de vários compositores eruditos, como Beethoven e Chopin – Foto: Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, Fundo Mário de Andrade

Além do texto completo de Oneyda Alvarenga, o livro apresenta outros atrativos. Um deles é o anexo, que traz cinco cartas e bilhetes de Oneyda a Mário de Andrade. Neles, a autora discute com o escritor modernista sobre a sua pesquisa e sobre a publicação da obra. “Preciso de um palpite seu a respeito do editor: será que o Martins topa publicar o livro?”, escreve ela em 13 de outubro de 1943, referindo-se ao editor José de Barros Martins, proprietário da Livraria Martins Editora, de São Paulo. As cartas e bilhetes também estão guardados no IEB. O livro inclui ainda textos introdutórios assinados por Flávia Toni e por Luciana Barongeno, além do posfácio de Yara Caznok.

Processo de pesquisa

No livro, depois de contextualizar a vinda da menina de Varginha (MG) para São Paulo – Oneyda Alvarenga tinha apenas 19 anos quando deixou sua cidade natal –, Luciana Barongeno analisa os documentos provenientes da Série Manuscritos de Outros Escritores, no Arquivo Mário de Andrade, pertencente ao acervo do IEB. Segundo Luciana, o convívio de Oneyda com o professor de Piano, Estética e História da Música do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo vai desenhar os novos rumos da vida intelectual e artística da jovem aluna. Uma relação que se estreita, em 1932, quando a poeta principiante submete o manuscrito de Canções Perdidas à apreciação de Mário de Andrade e que segue para a vida pessoal – Mário de Andrade é padrinho de seu casamento com Sílvio Alvarenga.

Segundo Luciana, o livro compreende um material riquíssimo, que inclui documentos de tipologia variada: fichas de leitura, notas preliminares, planos, inquérito, versões de capítulos e de texto integral, redigidos por Oneyda Alvarenga, e observações de Mário de Andrade, inscritas por ele mesmo ao longo dessas versões, ou feitas diretamente à aluna, que as copiou em folhas avulsas. “Pode-se dizer que os rascunhos que compõem A Linguagem Musical, com sua riqueza e complexidade inerentes, oferecem uma margem muito mais ampla à pesquisa quando comparados ao manuscrito definitivo ao desvelarem as questões sem respostas, as lacunas, os pontos frágeis e as dúvidas que marcaram o trabalho escrito a quatro mãos.”

As notas de rodapé inseridas pela autora foram mantidas na maioria dos casos, acompanhando o desígnio do livro almejado por Oneyda Alvarenga, isto é, dirigido a estudantes de música. “Este trabalho não tem outro intuito senão o de dar aos alunos dos cursos de estética e história da música dos nossos conservatórios uma pequena noção de certos fatos que interessam aos musicistas. É, pois, simplesmente um livrinho didático, de vulgarização, e que a mais não pretende”, escreveu Oneyda, possivelmente em 1943, na “Advertência” que encaminhou a Mário e que abre seu livro.

Para a pesquisadora Flávia Camargo Toni, a edição que sai agora é uma possibilidade de discutir sobre a importância do estudo das bibliotecas anotadas. “As partituras anotadas dos músicos – compositores, instrumentistas, regentes – são fundamentais para se estudar a performance e as grandes escolas de interpretação”, escreve em seu texto de abertura. Ainda em suas palavras, apesar da idade do trabalho, ele não perde o rigor e a atualidade, e tem uma grande importância tanto na formação de alunos como na exploração de novos assuntos, ou seja, é ao mesmo tempo um recurso pedagógico e um documento. Para a organizadora, o mérito está também em mostrar as principais linhas de força que construíram o pensamento musical de Oneyda Alvarenga.

Fundadora da Discoteca Pública Municipal de São Paulo, em 1935, Oneyda empresta seu nome à atual discoteca do Centro Cultural São Paulo, que teve origem no Departamento de Cultura, então dirigido por seu mestre e amigo Mário de Andrade. “Mário e Oneyda estreitaram os laços de amizade e colaboração, apesar da independência e coragem daquela jovem de 24 anos que rapidamente tomou as rédeas do trabalho”, conta Flávia. Foi o trabalho com Mário de Andrade que lhe deu domínio sobre a música. A colaboração na organização da Missão de Pesquisas Folclóricas, em 1937 e 1938, lhe rendeu seu livro mais conhecido, Música Popular Brasileira, editado primeiramente em castelhano e pelo qual recebeu o Prêmio Fábio Prado. Segundo Flávia, Oneyda “marcou os estudiosos da música brasileira pelo trabalho inestimável de edição dos ensaios e pesquisas que fez publicar postumamente à morte de Mário de Andrade”.

A Linguagem Musical de Oneyda Alvarenga – Lições de Estética na Biblioteca de Mário de Andrade, estabelecimento do texto, introdução e notas de Luciana Barongeno, Intermeios/Fapesp, 196 páginas, R$ 48,00.

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