Notícia

Folha da Região (Araçatuba, SP)

Livro de pesquisadores questiona culpabilidade dos desastres naturais

Publicado em 27 janeiro 2010

Agência Fapesp

A cada ano, em períodos de chuvas mais intensas, repetem-se pelo Brasil as cenas de tragédias provocadas por enchentes e deslizamentos de terra. Esses desastre são, muitas vezes, indevidamente atribuídos apenas à intensidade dos fenômenos naturais.

No entanto, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), um grupo de especialistas no tema adota uma perspectiva mais crítica: os desastres são recorrentes no país por falta de uma cultura de prevenção e proteção civil.

Essa é uma das principais conclusões do livro Sociologia dos Desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil, lançado pelo Núcleo de Estudos e Pe Sociais em Desastres (Neped), do Departamento de Sociologia da UFSCar.

A obra é fruto dos estudos realizados no núcleo desde 2003 e reúne artigos de 12 especialistas diferentes. O livro tem o objetivo de contribuir para o aperfeiçoa mento do Sistema Nacional de Defesa Civil.

DESASTRES E DIREITOS

O foco dos especialistas é a relação entre desastres, direitos humanos, defesa civil e dimensões políticas e institucionais. Estudamos também as dimensões psicossociais dessa associação.

Para isso, trabalhamos com entrevistas in loco, por exemplo, com moradores que perdem suascasas em desastres, disse uma das pesquisadoras, Mariana Siena.

- Segundo ela, praticamente to dos os estudos realizados pelo Neped convergem para a constatação de que não há, no Brasil, uma cultura relacionada à prevenção e à proteção civil em relação a desastres.

O caso dos desastres ocorridos recentemente em Angra dos Reis (RJ) é um exemplo das constatações feitas pelos especialistas: os órgãos públicos têm dificuldades para reagir aos desastres.

Essa ineficiência do sistema de defesa civil, segundo a pesquisadora, não se resume à incapacidade de resposta imediata. Ela é percebida especialmente no trabalho de prevenção quase inexistente.

SEMPRE OS MESMOS

Cerca de 25% dos municípios brasileiros são afetados por desastres relacionados a chuvas e seca a cada ano, de acordo com da dos levantados pela equipe do Neped. Os estudos feitos pelo grupo mostram que, nos últimos sete anos, a existência de desastres é verificada nos mesmos estados e municípios.

Entre 2003 e 2007, o grupo observou que os mesmos locais e as mesmas famílias haviam sido atingi das diversas vezes. Tudo se repetiu periodicamente, co as mesmas características e os mesmos prejuízos. E eventualmente em situação pior, que pessoas que mal tiveram tempo para se recuperar foram atingi das novamente.

DESIGUALDADES

O livro demonstra uma es treita relação entre desigualdade social e exposição ao risco. Os es tudos constataram, segundo Mariana, que o processo de vulnerabilidade está relacionado à indiferença social em relação ao direito de territorialização das populações empobrecidas.

É essa indiferença e o descomprometimento dos Órgãos de defesa civil que tornam essas pessoas vítimas fáceis dos impactos dos desastres naturais, reafirmou.