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Jornal Dia Dia

Livro da EdUFSCar aborda regime ditatorial na Argentina

Publicado em 05 outubro 2018

Para trazer luz a um passado não tão distante na América Latina, pessoas que tiveram parentes desaparecidos na ditadura da Argentina (1976-1983) se organizaram em coletivos e assumiram a responsabilidade de esclarecer parte dessa história. Elas são o mote do livro “Sangue, Identidade e Verdade – Memórias sobre o passado ditatorial da Argentina”, de autoria de Liliana Sanjurjo e que está sendo lançado pela Editora da Universidade Federal de São Carlos (EdUFSCar).

A obra é fruto de uma pesquisa de doutoramento realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Trata-se da versão revisada da tese que analisou o ativismo político dos familiares de desaparecidos da ditadura militar argentina, movimento integrado pelas organizações Asociación Madres de Plaza de Mayo, Madres de Plaza de Mayo-Línea Fundadora, Abuelas de Plaza de Mayo, Familiares de Desaparecidos y Detenidos por Razones Políticas e H.I.J.O.S. ( Hijos e Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio).

O objetivo do livro foi formular alguns entendimentos sobre os processos sociais que levam esses coletivos – que constituem o movimento de direitos humanos na Argentina – a assumirem o lugar de protagonistas na construção das memórias sobre o passado ditatorial, bem como analisar os cenários de disputas que envolvem a consolidação de uma memória pública da ditadura.

“Ao longo do livro examino como os domínios da política e do parentesco – cujas representações, neste caso, estão particularmente pautadas na biologia/sangue/genética -, se constituem e se articulam no ativismo desses familiares por memória, verdade e justiça e nos processos de construção das memórias sobre a ditadura. Ou seja, ao lançar luz sobre as relações entre parentesco, política e memória, busco compreender como os familiares de desaparecidos, ancorados nos vínculos de parentesco com as vítimas da repressão, atribuem sentido às suas próprias experiências e identidades, ao passo que encontram legitimidade social para suas demandas e ações políticas”, explica a autora.

Filha de um argentino que migrou ao Brasil em 1976, meses após o golpe militar, Sanjurjo iniciou a pesquisa em 2007, quando foi à Buenos Aires para realizar os primeiros contatos com ativistas do movimento de familiares de desaparecidos e um mapeamento do campo e das questões iniciais da investigação. Depois, retornou em outras duas ocasiões para um período mais extenso de trabalho, entre os anos de 2009 e 2011.

O livro está organizado a partir de algumas questões que buscam revelar as formas de mobilização e ativismo dos familiares e que permitiram delinear o entendimento da relação entre parentesco, política e memória como um dos eixos centrais da análise. “Por outra parte, ao me deter sobre os cenários de disputa em torno das memórias da ditadura, passei a formular questões acerca do papel que desempenhariam o campo jurídico e científico nos processos de legitimização das vozes dos familiares e de afirmação de uma ‘verdade’ sobre o passado de repressão. Para tanto, o próprio processo de produção de evidências materiais sobre a repressão – informes, corpos e ossadas, DNA, edificações, documentos, sentenças judiciais – tornou-se outro dos eixos de análise do trabalho a fim de ampliar o meu entendimento sobre aquilo que daria ancoragem às narrativas e memórias das vítimas sobre a ditadura”, descreve ela.

O lançamento de “Sangue, Identidade e Verdade: memórias sobre o passado ditatorial na Argentina” acontece no dia 10 de outubro, às 19 horas, na Livraria Leonardo da Vinci, que fica localizada na Av. Rio Branco, 185, no Centro do Rio de Janeiro. Mais informações sobre o livro podem ser obtidas no site da EdUFSCar (www.edufscar.com.br).