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Livro aborda a trajetória de cantoras negras "não-sambistas"

Publicado em 04 janeiro 2010

Elas são mulheres, negras, brasileiras, de origem humilde e ousaram investir em uma carreira musical. Mas contrariando o que se esperava delas (cantar samba), todas decidiram pela MPB, o jazz e a bossa nova, redutos da classe média branca. Essas 13 cantoras - Adyel Silva, Alaíde Costa, Arícia Mess, Áurea Martins, Eliana Pittman, Graça Cunha, Ivete Souza, Izzy Gordon, Leila Maria, Misty, Rosa Marya Colin, Virgínia Rosa e Zezé Motta - foram entrevistadas pelo jornalista e historiador Ricardo Santhiago em sua dissertação de mestrado, Entre a harmonia e a dissonância: História oral de vida de cantoras negras brasileiras, defendida EM 2009 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A pesquisa deu origem ao livro Solistas Dissonantes História (Oral) de Cantoras Negras (Editora Letra e Voz).

Santhiago comenta que, no caso delas, mesmo o convencional é ousadia. Se uma cantora branca grava um clássico da MPB, isso soa como óbvio, mas se uma cantora negra, como Alaíde Costa, faz isso, se trata mesmo de uma ousadia, pois se costuma esperar que elas cantem Lata dágua ou outra coisa do repertório tradicional do samba. A radicalidade dessas cantoras está em gravar o que é tido como "comum.

O livro revela, principalmente, a história de vida dessas cantoras, que apesar de terem tido origens musicais distintas - Alaíde Costa é um ícone da bossa nova; Eliana Pittman começou cantando carimbó, um ritmo regional do norte do País; Misty é uma cantora de jazz - apresentam vários aspectos semelhantes que vão além do fato de não serem sambistas.

De acordo com o historiador, em todos os 13 depoimentos, alguns temas foram muito presentes. São eles: as relações familiares, em especial a figura do pai, tanto pela presença como pela ausência; a referência ao piano, não apenas como instrumento musical, mas como símbolo de status, de ascenção; a língua inglesa como meio de prestígio; o exterior, o estrangeiro como um local físico onde a possibilidade de reconhecimento era muito maior do que no Brasil; e a fé e ancestralidade marcantes; a ousadia artística e a escolha consciente pelo estilo musical - com suas consequências - ao optarem por fazer exatamente aquilo que tinham vontade.

Piano, inglês e estrangeiro

No caso da relação com o piano, por exemplo, Santhiago cita o caso de Adyel Silva. A avó era empregada doméstica e com muito custo comprou um piano para a neta. Adyel não queria tocar piano, mas acabou estudando a contragosto. Somente depois de muito tempo ela conseguiu entender o significado de ter recebido o piano como presente: era o símbolo do sonho da avó que queria que a neta tivesse uma vida diferente da dela, conta.

O pesquisador relata também que Rosa Marya Colin começou cantando em inglês e as pessoas não imaginavam que ela fosse brasileira. Ela viveu em um orfanato e a patronesse do lugar a preparou para ser professora de inglês, mas ela se decidiu pela música e se consagrou cantando em inglês, dentro e fora do País, comenta. Além disso, o exterior costuma ser visto como um espaço mais aberto ao talento e à grandeza artística para a maior parte das cantoras, comenta. Já Ivete Souza apresenta uma história um pouco diferente, de uma cantora que foi imigrante clandestina na Itália e que cantou em bares na noite italiana, conta.

Segundo o pesquisador, os países estrangeiros representam um espaço de conquista. Muitas delas fizeram sucesso primeiro no exterior e somente depois disso conseguiram se estabelecer no Brasil. Santhiago cita, por exemplo, o fato de o único DVD musical de Zezé Motta ter sido gravado por uma emissora de TV francesa. Ela nunca gravou um DVD no mercado interno e gravou pouquíssimos discos no Brasil, conta, lembrando que Zezé - que também é atriz - foi uma das primeiras artistas negras do País a denunciar o preconceito racial que existia na televisão brasileira. Para as mulheres negras era reservado o papel de domésticas, escravas, da "mulata assanhada, libidinosa. Hoje elas já são protagonistas de novela do horário nobre.

As cantoras entrevistadas pelo jornalista e historiador Ricardo Santhiago foram escolhidas por serem artistas negras fora do universo do samba, da black music, do funk e do rap. Por isso Elza Soares, Sandra de Sá e Paula Lima ficaram de fora: elas colocam outros questionamentos que precisam ser respondidos em outras pesquisas, justifica.

Santhiago lembra que Alaíde Costa teve sua carreira iniciada nos anos 1950, portanto foi uma das pioneiras do grupo, abrindo caminhos para as outras cantoras negras na MPB.

Para o jornalista, destacar o trabalho dessas artistas por meio de um livro é valorizá-las, mas ao mesmo tempo representa também reconhecer o preconceito. Se não houvesse preconceito racial não haveria o por quê de destacar o trabalho de mulheres negras cantando em reduto musical da classe média branca, aponta.

A pesquisa teve o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi premiada pelo Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (Proac), fato que possibilitou a publicação do trabalho como livro. O pesquisador desenvolve atualmente o doutorado no Programa de Pós-graduação em História Social da FFLCH onde pretende estudar a história intelectual da história oral no Brasil.