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Lítio tem efeito protetor em portador de transtorno bipolar, diz estudo da USP

Publicado em 07 outubro 2015

O tratamento com lítio proporciona efeito antioxidante e protetor para os sintomas de transtorno bipolar em portadores da doença, como mostra pesquisa do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Segundo informações da "Agência USP de Notícias", o trabalho do médico Rafael Teixeira de Sousa aponta que a ação do lítio, que potencializa a queda do estresse oxidativo, pode explicar como a medicação controla os sintomas depressivos. Os resultados da pesquisa vão auxiliar no desenvolvimento de tratamentos mais eficientes para a doença.

O transtorno bipolar é uma doença psiquiátrica em que se alternam períodos (episódios) de euforia ou extrema irritabilidade, chamado de “mania”, e períodos de humor depressivo.

Os episódios de mania e depressão são marcados por mudanças extremas nos níveis de comportamento e energia dos pacientes. Nos períodos depressivos, por exemplo, a pessoa pode ter problemas para se concentrar, esquecer com facilidade, sentir-se cansada, indisposta, ter dificuldade para dormir e pensar em suicídio, entre outros sintomas.

Metodologia da pesquisa

Ao todo, foram estudados 31 pacientes no ambulatório do Laboratório de Neurociências do IPq, em sua maioria pacientes que nunca haviam recebido tratamento.

“Existem evidências de que, no início do transtorno bipolar, os pacientes estão preservados de algumas alterações biológicas observadas com o passar do tempo, embora ainda não esteja claro como isso aconteça”, disse o médico à agência USP. “O trabalho encontrou um aumento de mecanismos antioxidantes que pode proteger os cérebros dos pacientes na fase inicial da doença”, complementou.

“Os sintomas na fase inicial da doença não são diferentes do que ocorre nas fases tardias, no entanto, nessas fases mais tardias podem acontecer episódios mais frequentes e mais refratários ao tratamento. Além disso, as evidências apontam para uma diferença biológica entre as fases iniciais e as fases tardias”, afirmou Sousa. “O objetivo do trabalho foi estudar o estresse oxidativo e a função mitocondrial nos episódios depressivos do transtorno bipolar e o efeito do tratamento com lítio nesses alvos biológicos”, explica o pesquisador.

Os mecanismos antioxidantes diminuem o estresse oxidativo, que é danoso às proteínas, lipídios e DNA das células. “Houve uma melhora do estresse oxidativo e aumento da função mitocondrial após o tratamento com lítio”, afirma o médico. O carbonato de lítio, ingerido como comprimidos uma ou duas vezes ao dia, é o principal tratamento existente para o transtorno bipolar.

Melhora de sintomas depressivos

O lítio é eficaz nos episódios de mania (euforia) e depressivos, na prevenção de novos episódios e tentativas de suicídio. “O lítio é a droga que melhor trata o transtorno bipolar e portanto compreender o seu mecanismo de ação é especialmente relevante para entender a doença”, afirma Sousa. “A melhora de sintomas depressivos após o tratamento parece acontecer através de uma modulação direta de parâmetros de estresse oxidativo“.

Devido à estreita ligação entre o estresse oxidativo e a cadeia transportadora de elétrons mitocondrial, a pesquisa incluiu outras análises que mostraram que o lítio aumentou diretamente a atividade do complexo I da cadeia transportadora de elétrons mitocondrial.

“O estresse oxidativo piora a função mitocondrial e a disfunção mitocondrial gera estresse oxidativo, ou seja, um influencia o outro”, destaca Sousa. “O lítio melhorou a função mitocondrial como um todo, o que poderia explicar a modulação dos parâmetros de estresse oxidativo após o tratamento”, acrescenta Sousa.

A elucidação da fisiopatologia do transtorno bipolar e do funcionamento do tratamento com lítio pode ajudar à descoberta de novos tratamentos mais eficazes.

Os resultados do estudo são descritos em tese de doutorado Fisiopatologia do Transtorno de Humor Bipolar e efeito do tratamento com lítio: enfoque em neuroproteção e função mitocondrial, que fez parte de um projeto maior, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e liderado pelo professor Rodrigo Machado-Vieira, orientador do estudo e atualmente diretor no NIH.

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