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Lista de pesquisadores com trabalhos altamente citados contém mais brasileiros em 2020

Publicado em 18 janeiro 2021

Por Rodrigo de Oliveira Andrade | revista Pesquisa FAPESP

Cresceu o número de pesquisadores brasileiros entre os mais citados do mundo. Foram 19 em 2020, quatro a mais que no ano anterior, destacando-se em áreas como epidemiologia e saúde pública. Os dados constam de um levantamento divulgado em novembro pelo Institute for Scientific Information (ISI), serviço de bases bibliométricas da Clarivate Analytics. Todos os anos a empresa lista os cientistas responsáveis por 1% dos artigos mais citados em 21 áreas do conhecimento. O relatório de 2020 se baseou em trabalhos publicados em periódicos indexados na Web of Science (WoS) entre janeiro de 2009 e dezembro de 2019, e nas citações que receberam no período. Ao todo, 6.389 pesquisadores figuram na relação.

O Brasil, um dos 15 países que mais produzem artigos científicos, ficou na 26ª posição no ranking das nações com mais cientistas altamente citados, consolidando uma tendência de crescimento que ganhou força em 2018, quando a Clarivate adotou uma nova metodologia para contabilizar o impacto dos pesquisadores. Até então, o contingente de brasileiros entre os mais citados restringia-se a, em média, quatro nomes – nem sempre os mesmos. Em 2018, esse número subiu para 13 e, em 2019, para 15. O desempenho do Brasil é tímido quando comparado ao de nações como Estados Unidos e China, mas se destaca na América Latina. O país ficou à frente do México, com quatro pesquisadores na lista de 2020, e da Argentina, com apenas um – desde que a Clarivate passou a fazer esse levantamento, em 2014, o vizinho do Brasil nunca emplacou mais do que três pesquisadores na listagem.

O ponto de inflexão na participação do Brasil na relação da Clarivate coincide com a introdução da categoria “citação extra campo”, que destaca pesquisadores cujos trabalhos foram muito citados em estudos de diferentes áreas do conhecimento – nas demais categorias, o cômputo é feito apenas dentro da respectiva disciplina. David Pendlebury, analista de citações do ISI, explica que a ideia é reconhecer cientistas influentes em diversos campos do saber, mas que não têm artigos suficientemente citados em nenhuma das áreas avaliadas para aparecer na lista final. “Romper as paredes artificiais das disciplinas convencionais significa manter a lista relevante, ainda mais em um contexto em que a ciência está cada vez mais global e interdisciplinar”, disse Pendlebury a Pesquisa FAPESP.

Dos 6.389 pesquisadores entre os altamente citados em 2020, 2.493 destacaram-se em citações extra campo; quatro são brasileiros. Um dos nomes é o da bióloga Mercedes Maria da Cunha Bustamante, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB). Suas pesquisas tratam das respostas dos biomas brasileiros às alterações ambientais globais, isto é, modificações nos períodos de chuva e estiagem desencadeadas pelas mudanças climáticas, impactos da conversão de vegetação nativa em áreas de produção agropecuária, entre outros. “Para identificarmos os vetores dessas mudanças, analisar seus mecanismos de ação e ter uma visão ampla e integrada dos seus impactos, precisamos lançar mão de abordagens multidisciplinares. Cada vez mais colaboramos com cientistas de outras áreas, de modo que é natural que nossa produção repercuta em vários campos do saber”, explica a pesquisadora.

A relação da Clarivate sugere que universidades de qualquer tamanho podem ter pesquisadores entre os altamente citados, desde que produzam pesquisas de qualidade. Esse é o caso do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), “um dos melhores do mundo”, segundo o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da UFPel e um dos brasileiros entre os altamente citados em 2020. Ele conta que o programa começou a se estruturar na década de 1980, a partir do trabalho de outros dois pesquisadores que há tempos figuram na lista dos muito citados. Um deles é o pediatra Fernando Barros, da Faculdade de Medicina da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), no Rio Grande do Sul. Há quatro décadas ele estuda o papel da amamentação na prevenção da mortalidade de recém-nascidos, além de atuar no desenvolvimento de curvas de crescimento consideradas ideais durante a gravidez e logo após o parto (ver Pesquisa FAPESP nº 225). “Estudamos o perfil corporal e o estado de saúde de recém-nascidos gestados nas melhores condições possíveis, comparando-os com o de crianças de famílias pobres”, esclarece Barros. “Esses trabalhos têm implicações em diferentes áreas, da sociologia à economia, da medicina à ciência política, o que ajuda a explicar o fato de aparecerem nas citações extra campo da Clarivate.”

Ao lado do médico Cesar Victora, da Faculdade de Medicina da UFPel, Barros criou no país uma das primeiras coortes de nascimento, nome dado aos estudos que acompanham por longos períodos a saúde das pessoas nascidas em determinado ano e lugar. Iniciado em 1982, esse acompanhamento gerou desdobramentos que tornaram o trabalho da dupla reconhecido no mundo, transformando-os em referências na área. Desde 2018 Victora também se destaca entre os altamente citados. “A publicação de trabalhos produzidos a partir dessa coorte demonstrou a importância do aleitamento materno na redução da mortalidade infantil e nos permitiu criar curvas de crescimento hoje usadas para avaliar o desenvolvimento de fetos e bebês em mais de 140 países”, diz Victora. “Esses trabalhos têm abrangência internacional e implicações diretas na prática pediátrica. Por isso, recebem muitas citações.”

Dos 19 brasileiros entre os mais citados em 2020, apenas 5 (26,3%) são mulheres. “Reconhecemos que a lista, apesar de geograficamente diversa, ainda é predominantemente masculina. No entanto, notamos, com base em nomes comumente associados a mulheres, que o número de pesquisadoras entre os mais citados vem crescendo desde 2014”, destaca Pendlebury. A lista da Clarivate também evidencia como a produção científica de alto impacto ainda se concentra majoritariamente em poucos estados do país. Com exceção de Bustamante, da UnB, e da engenheira de alimentos Henriette de Azeredo, da Embrapa Agroindústria Tropical, em Fortaleza, todos os brasileiros entre os mais citados são vinculados a instituições do Sul e Sudeste. O desequilíbrio na produção desses estudos é visível mesmo entre as instituições dessas regiões. Dos 17 nomes brasileiros mais citados vinculados a universidades e institutos de pesquisa do Sul e Sudeste, mais da metade está em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

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