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Línguas nativas dos povos indígenas brasileiros podem desaparecer

Publicado em 16 julho 2009

Das cerca de 150 línguas tradicionais dos povos indígenas do Brasil, atualmente em uso, pelo menos 21% estão seriamente ameaçadas de desaparecer em curto prazo.  A informação é da Agência Fapesp.

De acordo com informações dadas por pesquisadores à Agência, o risco às línguas nativas se deve ao número reduzido de falantes e à baixa taxa de transmissão para novas gerações.

Um caminho para tentar reverter esse quadro seria a formulação e aplicação de uma Política Linguística e Científica, segundo conclusões da mesa-redonda "Línguas Nativas da Região Norte: perspectivas para a sua documentação, manutenção e pesquisa", realizada na 61ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Manaus.

Essa política poderia ajudar a definir parâmetros de documentação, criar mecanismos para suprir a falta de recursos humanos interessados nessa área de pesquisa e promover a valorização e a transmissão das línguas nativas.

Dennis Albert Moore, coordenador da área de linguística do Museu Paraense Emílio Goeldi, disse à Fapesp que um dos desafios da documentação é que idiomas registrados como diferentes às vezes são dialetos de uma mesma língua, como reflexo de divisões étnicas e políticas.

O pesquisador também explica que há uma tendência de confusão da população de um grupo com o número de indivíduos que falam a língua.  "Certamente, o número de falantes é muito menor do que se pensava e a situação das línguas é, portanto, mais grave", disse.

Amazônia

Segundo informações do Musel Goeldi divulgadas pela Agência Fapesp, a Amazônia concentra dois terços das línguas indígenas faladas no país.  No Amazonas, o número de línguas ainda faladas está entre 50 e 56.  Entre as línguas que desapareceram estão Baré, Mura, Kokama e Torá.  Há pessoas que se identificam como pertencentes a essas etnias, mas que falam português, numa versão regional/indígena da língua.

A maioria das línguas nativas conta com poucos falantes (abaixo de 100).  Entre as com maior número (acima de quatro mil) estão: Sateré (6.219), Baniwa (5.811), Tikuna (cerca de 35 mil), Tukano (8 mil), Yanomami (6 mil), Yanomam (4 mil) e Língua Geral Amazônica (6 mil).

O futuro de uma língua é determinado pela transmissão à geração subsequente.  No Pará, foram identificadas cinco línguas (19%) com índice zero de transmissão.  Outras duas (8%) têm pouca transmissão, três (12%) têm índice médio e 16 (62%) têm boa ou alta transmissão.

O número de falantes em cada uma das famílias linguísticas em Roraima, sem contabilizar o grupo Yanomami, que vive isolado, é: Makuxí (cerca de 12 mil falantes), Taurepang (600), WaiWai (2.500), Ingarikó (1.170), Waimiri-Atroari (970), Ye'kuana (426), Wapixana (4.000), Atoraiú (1) e Sapará (1).

A demanda por documentação por parte dos indígenas tem aumentado rapidamente.  Euclides Pereira, gerente técnico dos Projetos Demonstrativos para Povos Indígenas, ligado ao Ministério do Meio Ambiente, reforçou essa preocupação como representante do povo Makuxí.  Para ele, não basta proteger a língua, é preciso difundi-la.

Em Roraima, duas emissoras de rádio que transmitem programas educativos em línguas nativas.  A Universidade Federal de Roraima também criou o Núcleo Insikiran de Formação Superior Indígena, hoje com 240 alunos.