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Dinheiro Rural

Língua Eletrônica

Publicado em 01 setembro 2005

Atenção, degustadores: seus dias de paladar aguçado podem estar contados. Mais uma inovação pode colocar em risco o futuro da profissão daqueles que provam vinhos, cachaças e sucos. A Embrapa, em parceria com a Universidade de São Paulo, acaba de criar a língua eletrônica. O aparelho segue o mesmo princípio da língua do ser humano. Por meio de um software, o equipamento faz as vezes do cérebro e interpreta um conjunto de características gustativas, responsáveis por conferir às bebidas a propriedade de doce, salgado, azedo ou amargo. A engenhoca é mais sensível que a língua humana e capaz de identificar diferentes tipos de café, vinho, cachaça e sucos. A pesquisa tem a coordenação de Luiz Henrique Matoso e envolve 50 profissionais de áreas diferentes como química, engenharia de materiais e ciência da computação. Provenientes da Fapesp e CNPQ, os investimentos já contabilizaram R$ 1,5 milhão. E a invenção já está sendo requisitada pelo mercado. O objetivo da equipe é transformar o projeto em um produto comercial. De acordo com João de Mendonça Naime, pesquisador da Embrapa e engenheiro eletrônico responsável pela automação do software, no momento a meta é reduzir os custos do aparelho para que tenha viabilidade comercial. "Vários componentes são importados e caros, mas queremos substituir por equipamentos nacionais", explicou.
O sensor gustativo é composto de um vidro ótico plano com filetes de ouro muito pequenos. Sobre este vidro são depositados polímeros condutores, cada um sensível a uma característica. Isso permite desenvolver línguas eletrônicas específicas para café, vinho e cachaça. Desde 2002, o aparelho vem sendo utilizado pela Associação Brasileira da Indústria de Café, em seu programa de Qualidade do Café. Para isso, o software é pro gramado e reconhece diferentes padrões de café. Assim, quando é coloca da uma amostra desconhecida, ele analisa e aponta as propriedades. No entanto, Naime ressalta que a finalidade da engenhoca não é substituir o trabalho humano. "Queremos automatizar algumas etapas do processo e facilitar a logística. Mas os degustadores continuarão tendo a palavra final na hora de escolher o café que vai para um determinado país". Outro intuito da invenção é ajudar o pequeno produtor na hora de vender seu produto. Atualmente, a venda funciona na base da confiança. Eles levam uma amostra e o comprador analisa e mede a qualidade do café. No entanto, o cafeicultor não sabe se o comprador está agindo de má fé, dizendo que o produto é de qualidade inferior. Com a língua eletrônica, ele terá como defender seus grãos.
Para quem pensa que a língua eletrônica pode não ser eficiente, Naime conta que ela reconhece até vinhos de safras diferentes. Além disso, há linhas de pesquisas focadas para a língua eletrônica da água, a fim de detectar pesticidas e, assim, monitorar também a sua qualidade. Outra frente estuda os combustíveis e a finalidade é descobrir adulteração. As vantagens vão ainda mais longe. A língua eletrônica do suco de laranja, por exemplo, identifica o grau de acidez da bebida e, assim, poderá ajudar na exportação do suco, já que cada país tem um costume. Enfim, é a tecnologia a serviço da eficiência e da boa bebida.