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Light por natureza

Publicado em 25 setembro 2000

Por ALEXANDRE MANSUR
Uma equipe de cientistas brasileiros desenvolveu uma ração especial que faz com que as vacas produzam leite com baixo teor de gordura e mais proteína. A descoberta está afinada com a tendência do mercado, que exige leite mais magro, sem comprometer as propriedades nutricionais, conta um dos pesquisadores, Sérgio de Medeiros, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba, interior de São Paulo. O estudo, patrocinado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, foi feito em parceria com universidades dos Estados Unidos e da Finlândia. Durante sete meses, numa fazenda experimental no Brasil, os pesquisadores deram a ração especial para 30 vacas mestiças de zebu com gado holandês. Com a alimentação, as vacas forneceram o leite mais magro e tiveram produtividade 10% maior que os 15 litros diários tradicionais. "Elas não desperdiçavam energia para gerar a gordura e, assim, produziam mais leite", explica Medeiros. Resultados semelhantes foram obtidos com 20 vacas holandesas criadas na Universidade de Idaho, nos EUA. O segredo é que a ração contém uma gordura chamada ácido linoleico conjugado (CLA). A substância, naturalmente produzida pela vaca e presente no leite, regula os níveis de duas enzimas de seu organismo. Elas são responsáveis pela produção de gordura láctea. Os cientistas descobriram que, quando dão uma dose extra de CLA, as enzimas fazem o leite ficar mais magro. Ainda não sabem como funciona exatamente o mecanismo. "Nosso próximo passo é decifrar o processo e descobrir se doses maiores de CLA podem reduzir ainda mais o teor de gordura do leite", conta Medeiros. O desafio dos pesquisadores era encontrar uma maneira de acrescentar o CLA na ração sem que fosse destruído no aparelho digestivo da vaca. A solução foi combinar as moléculas de CLA com uma estrutura de sais de cálcio. "A mistura tem a aparência de sal grosso", descreve Medeiros. O produto foi misturado ao capim usado para alimentar os animais no estábulo. Ingerido, passou incólume pelos quatro estômagos dos bovinos e só depois foi absorvido pelo organismo. Os cientistas conheciam uma outra utilidade do ácido linoleico conjugado. Estudos indicam que a substância pode prevenir o câncer e as doenças cardiovasculares - em animais e seres humanos. Os pesquisadores da Esalq constataram que as vacas que recebem dose extra da substância também produzem leite com teores até cinco vezes mais altos de CLA. A equipe da Esalq pretende patentear a ração. Dentro de poucos anos, as novas vacas light estarão pastando no interior do país.