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Informe MS

Ligação com o passado

Publicado em 14 janeiro 2009

Um crânio de Luangwa, um animal pertencente ao grupo dos cinodontes que viveu entre os períodos Permiano e Jurássico, pode mudar a datação de terrenos na região central do Rio Grande do Sul.

O fóssil, descoberto no município de Dona Francisca por pesquisadores da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), é o mais completo crânio desse animal já descoberto na América do Sul. O gênero foi encontrado pela primeira vez no vale de Luangwa, Zâmbia, no continente africano, dando o nome a esses animais.

“O fóssil tem extrema importância para os estudos bioestratigráficos [datação por meio de achados fósseis], pois sugere uma revisão na idade dos terrenos da região”, disse o paleontólogo Sérgio Furtado Cabreira à Agência Fapesp.

O crânio particularmente bem preservado foi encontrado pelo biólogo Lúcio Roberto da Silva, da equipe de Cabreira, em um terreno datado em 235 milhões de anos. Segundo Cabreira, a descoberta pode levar a idade daquele terreno para 240 milhões a 242 milhões de anos, durante o período Triássico quando o Luangwa existiu.

Para chegar à conclusão, após a descoberta o fóssil foi comparado com a descrição de outros fragmentos cranianos descobertos nos municípios de Candelária e Vera Cruz, também no Rio Grande do Sul, e com a descrição do crânio completo de Luangwa.

“Quando vimos o crânio, notamos que ele era diferente de tudo o que já fora encontrado aqui na região. Descobrimos que era o mesmo animal descoberto na África”, disse.

Para Cabreira, a descoberta reforça a idéia da existência de um supercontinente, a Pangeia, no período Triássico e de sua posterior separação. “O fóssil é mais uma evidência de que a América e a África formavam um único continente no passado, dando força à teoria da deriva continental”, afirmou.

Após a descoberta, o fóssil foi tombado como Ulbra PVT-049 e será analisado em nível histológico (estudo dos tecidos). O crânio mede 15 centímetros. O animal em vida media aproximadamente 80 centímetros de comprimento, 60 centímetros de altura e 12 quilos. Cabreira explica que o crânio está em perfeito estado de conservação, com maxilar, mandíbulas e dentição completa.

Os cinodontes surgiram no fim do período Permiano (entre 299 milhões e 245 milhões de anos atrás), passaram pelo Triássico e resistiram até o Jurássico (199,6 milhões a 145,5 milhões de anos), dando origem aos mamíferos.

“Conhecer a evolução dos cinodontes é conhecer um eixo evolucionário que leva à evolução dos mamíferos”, explicou Cabreira, reconhecendo que a ciência ainda sabe pouco sobre o assunto.

“Algumas características dos mamíferos, como dentição e mastigação, foram iniciadas entre os cinodontes. Para se ter a mastigação é necessário um metabolismo mais avançado, um dos fatores mais complexos da evolução”, disse.

Segundo o cientista, esses fatores aproximam os cinodontes dos mamíferos. “Mastigar requer sistema nervoso mais complexo, musculatura maxilar, dentição desenvolvida, bochechas e língua hábil”, disse.

Fonte: Agência Fapesp