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Lições indianas

Publicado em 05 março 2012

O mundo vive um período de mudanças em que as tradicionais potências mundiais, como os Estados Unidos e a Europa, perdem espaço econômico e político para as chamadas nações em desenvolvimento. Movimento semelhante ocorre no terreno científico, com a Índia podendo ser considerada a "bola da vez". Tanto é que o conhecimento produzido naquele país foi tema recentemente de um especial publicado na renomada revista científica Science. Para especialistas, o florescimento da ciência na Índia - que na última década elevou a quantidade de publicações em periódicos internacionais de 2,2% para 3,4% - pode inspirar o Brasil, que também segue uma trajetória de expansão em suas pesquisas e já foi alvo de atenção da mesma publicação científica.

Parte do sucesso indiano vem dos investimentos em inovação e da participação da iniciativa privada. Em entrevista à Science, o primeiro-ministro Manmohan Singh explica que a meta é direcionar pelo menos 2% do PIB (soma das riquezas do país) para o setor. "Precisamos gastar muito mais com as áreas de desenvolvimento ativamente ligadas à evolução da ciência, da tecnologia e da inovação", afirma. "O que destinamos do PIB para pesquisa e desenvolvimento em ciência e tecnologia é praticamente a mesma porcentagem que os outros países em desenvolvimento. Mas é no setor privado que nosso país tem muito mais a fazer", completa.

Durante muito tempo, as pesquisas indianas estiveram ligadas principalmente a foguetes e artefatos atômicos. Pesquisadores de outras áreas tinham apenas duas opções: penar para conseguir minguados recursos ou sair do país em busca de melhores condições de trabalho. A maioria preferia o segundo caminho e, assim como o Brasil, a Índia funcionava como celeiro de bons pesquisadores aproveitados por outras nações.

Retorno ao país - Hoje, o país experimenta um movimento inverso. Doutores e pós-doutores retornam para casa, onde sobram recursos para a área tecnológica. A farmacologia e o desenvolvimento de novas drogas, que representavam 4% da produção científica indiana em 1999, passaram para 7% em 2009. Química pulou de 3% para 5%. Em 10 anos, o desenvolvimento de novos materiais, que representavam pouco mais de 2% dos artigos publicados no país, pulou para mais de 4%, segundo a Science. A evolução também é qualitativa. De acordo com a base de dados Thomson Reuters Web of Knowledge, o impacto das pesquisas indianas pulou de 40% para 60% da média mundial.

Para a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, o que a Índia conseguiu enxergar antes do Brasil é que gastos com inovação são, na verdade, investimento. "Em 2009, no auge da crise, o governo Barack Obama aumentou os investimentos em ciência e tecnologia", exemplifica a pesquisadora, para quem os impactos desse movimento serão sentidos em médio e longo prazos. "O resultado não será sentido agora, mas no futuro. Sem ciência e tecnologia, o Brasil será eternamente um país que vive do extrativismo. É como se você estivesse matando o que vai te sustentar daqui a alguns anos", opina Nader, que lamenta a diminuição de recursos recentemente anunciada no Brasil, que atualmente investe cerca de 1% do PIB no setor.

O governo federal determinou um corte de R$1,48 bilhão, cerca de 22% do que havia sido originalmente proposto na Lei Orçamentária Anual (LOA). "Isso é um verdadeiro crime", afirma a cientista. Procurado pelo Correio, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) respondeu por meio de nota que "está discutindo e avaliando, internamente e com suas unidades, as possibilidades de readequação orçamentária de modo a preservar as ações prioritárias no contexto da Estratégia Nacional de Ciência e Tecnologia 2012-2015".

Demandas - Diversificar as áreas de excelência, como a Índia vem fazendo, é uma demanda brasileira antiga. Se os indianos, por muito tempo, se preocuparam quase exclusivamente com foguetes, por aqui a agricultura, as pesquisas contra o câncer, as ciências espaciais e o meio ambiente são prioridade. A queixa é que pesquisadores de áreas como linguística, ciências humanas, artes e ciência pura - que estuda questões mais básicas do saber - se sentem abandonados pelos órgãos de financiamento. "Com o corte nos investimentos em ciência, o problema tende a se tornar generalizado. Nossos investimentos estão muito aquém do necessário", alerta Helena Nader.

Outro obstáculo que a Índia teve de vencer foi mudar a sua reputação no exterior. Em 1974, quando o país fez seu primeiro teste nuclear, uma série de nações passou a impor sanções ao país e impedir a compra de uma série de seus produtos tecnológicos. Muitos pesquisadores que nada tinham a ver com a questão nuclear viam suas pesquisas paradas por falta de insumos que precisavam ser importados. Um acordo com os Estados Unidos em 2007 apaziguou a comunidade internacional sobre a expansão do armamento nuclear indiano.

No Brasil, alguns episódios negativos nos últimos tempos, embora não tenham manchado completamente a fama do País, como aconteceu com a Índia, geraram insatisfação de líderes de grandes projetos. A dificuldade em enviar os recursos necessários e a demora do Congresso Nacional em aprovar grandes projetos geraram algumas reclamações - públicas ou não - em relação à ação brasileira. Em 2007, o País foi "convidado a se retirar" do projeto da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) por não conseguir entregar os equipamentos cujo desenvolvimento ficou sob sua responsabilidade. Outro exemplo: embora há anos em negociação, o Brasil ainda não ratificou o tratado em que ingressa oficialmente no Observatório Europeu do Sul (ESO). Em janeiro, o presidente do ESO, Tim de Zeeuw, atribuiu à demora brasileira "uma das razões para o projeto do Extreme Large Telescope (E-ELT) ainda não ter saído do papel". O MCTI não comentou sobre esses episódios na nota enviada à reportagem.

Episódios como esses mostram que nações em desenvolvimento, apesar de viverem uma expansão significativa, precisam enfrentar muitos obstáculos para alcançar o patamar em que estão Estados Unidos e Reino Unido, como aponta Lytton Leite Guimarães, pesquisador do Núcleo de Estudos Asiáticos da Universidade de Brasília (UnB). "A corrupção ainda é um problema para todos os Brics [grupo que reúne Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul]. E a burocracia também atrapalha o desenvolvimento de grandes projetos", analisa.

Além disso, Guimarães vê problemas específicos de cada país que prejudicam a produção do conhecimento e o tratamento dado à ciência. "O governo indiano ainda investe muito pouco em infraestrutura. As grandes ferrovias do país, por exemplo, são herança do tempo em que a Inglaterra dominou o país", comenta o pesquisador, lembrando que o problema da pobreza na Índia é ainda maior que o do Brasil. "Hoje, vejo os dois países de maneira equilibrada. A Índia tem mais problemas sociais e de infraestrutura, mas investe mais. Em longo prazo, se não ampliar os investimentos, o Brasil pode ficar para trás", completa.

Citações - O índice de impacto de uma pesquisa se refere a quanto aquele estudo influenciou pesquisas posteriores em sua área. Para aferi-lo, a Thomson Reuters mapeia os artigos publicados em milhares de periódicos e verifica quais artigos são citados como fontes nas novas pesquisas publicadas. Quanto mais citado, maior impacto causou a pesquisa.

Destaque verde e amarelo - Em dezembro de 2011, a revista Science dedicou ao Brasil um espaço semelhante ao dado agora para a Índia. No artigo, a publicação elogiava, entre outras coisas, a ascensão do País ao posto de 13ª maior fonte de artigos científicos no mundo - depois de dobrar sua produção de conhecimento em apenas 10 anos - e a construção de 134 campi de universidades federais que estava em curso.

Ao mesmo tempo, o periódico chamava a atenção para as distorções da produção, que conduz pesquisas caras e de alta complexidade, mas ainda apresenta desigualdades gritantes tanto nas áreas do conhecimento quanto na produção geográfica das pesquisas. Sozinho, São Paulo produz metade dos artigos publicados. A revista também criticou o baixo impacto dos artigos tupiniquins.

Alguns anos antes, em 2007, um especial sobre professores que produzem conhecimento de ponta, apesar da dificuldade em seus países, elogiou a atuação do pesquisador Antônio Carlos Pavão, do Departamento de Química Fundamental da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em junho de 2010, um balanço dos primeiros anos de funcionamento do projeto Biota-Fapesp também foi destaque na Science. O projeto mapeia e ajuda a conservar a biodiversidade do estado de São Paulo.

(Correio Braziliense)