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Gás Brasil

Lição de casa

Publicado em 03 dezembro 2008

A exploração do petróleo e gás nas grandes reservas descobertas recentemente na camada de pré-sal da Bacia de Santos implicará em novos desafios científicos e tecnológicos.

A exploração do petróleo e gás nas grandes reservas descobertas recentemente na camada de pré-sal da Bacia de Santos implicará em novos desafios científicos e tecnológicos. Mas, para superá-los, o país terá que melhorar a interlocução entre a universidade e a indústria, além de acabar com o contingenciamento das verbas de pesquisa no setor.

A análise foi feita por especialistas que participaram do Workshop da Comissão Especial de Petróleo e Gás Natural (Cespeg), realizado nesta segunda-feira (1/12) na sede da FAPESP, em São Paulo.

O evento, com o tema “Pesquisa e inovação tecnológica”, faz parte de uma série de workshops realizados pela Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, por meio da Cespeg. O objetivo é discutir as questões levantadas pelos grupos de trabalho da comissão.

Os temas “Construção naval” e “Formação de mão-de-obra” serão debatidos, respectivamente, nos dias 3 e 4 de dezembro, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O tema “Impactos sobre desenvolvimento regional” encerrará a série no dia 12 de dezembro, na Universidade Paulista (Unip) em Santos (SP).

Osvair Vidal Trevisan, diretor do Centro de Estudo do Petróleo (Cepetro) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirmou que o valor dos recursos previstos em lei para o Fundo Setorial do Petróleo e Gás Natural (CT-Petro), criado em 1997, cresceu continuamente até atingir cerca de R$ 1 bilhão. Mas o orçamento operado não chega a 10% desse total.

 “Se o contingenciamento acabasse, haveria um aumento muito rápido do número de pessoas preparadas para atuar em pesquisa na área. Esse é um dos gargalos que temos enfrentado, tanto na universidade como na indústria, que, por necessidade, acaba contratando gente sem formação adequada”, disse à Agência FAPESP.

Segundo Trevisan, por outro lado é um erro afirmar que não há capacidade de pesquisa na universidade brasileira. O que falta, diz ele, não é qualidade de recursos humanos, mas recursos para ampliar a formação.

“A capacidade existe. Temos centros de excelência com recursos humanos de alta qualidade para pesquisa e desenvolvimento. Mas ainda é pouca gente em relação à demanda, que deverá crescer de forma vertiginosa. Com as verbas garantidas por lei, seria possível agregar novos doutores a esse esforço”, afirmou o também professor do Departamento de Engenharia de Petróleo da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp.

De acordo com ele, a situação ficará crítica quando a exploração dos recursos do pré-sal começar efetivamente. “Com a entrada do pré-sal e de uma produção maior, essa situação ficará mais aguda. Vamos dobrar ou triplicar os recursos legalmente disponíveis para a pesquisa. Se mantivermos a mesma estrutura, essas distorções serão potencializadas”, afirmou.

Fases tecnológicas

Kazuioshi Minami, gerente de engenharia de produção da Bacia de Santos da Petrobras, concordou que a demanda por mais pesquisa deverá aumentar gradualmente. Segundo ele, a produção em grande escala no pré-sal começará já em 2010 – ainda na fase zero do planejamento de testes de longa duração – com uma unidade piloto que deverá produzir 100 mil barris por dia.

“A fase zero, que irá até o fim de 2010, é essencialmente voltada para a obtenção de informação, a fim de diminuir os riscos associados ao desenvolvimento de processos em uma área que não conhecemos – relacionada a reservatório, à área geográfica distante da costa ou à lâmina d’água e dificuldades relacionadas às condições oceanográficas de cada área”, disse.

Segundo Minami, a intenção dessa primeira fase é medir e obter informações sobre os reservatórios, avaliar sua produção, definir se há possibilidade de injeção de água ou de gás, se a facilidade de transporte do óleo está satisfatória e se as condições de mar são favoráveis para a implantação de projetos dentro da expectativa da empresa.

“Em 2011 iniciaremos a fase 1A , de implantação de grandes projetos que alavancarão a produção para um patamar de produção próximo da meta da Petrobras, de quase 1 milhão de barris por dia. Nessa fase entrará o conhecimento tecnológico já acumulado e extensões tecnológicas – ou seja, saltos menores, estudos adicionais, incrementais, para comprovar que a tecnologia pode ser estendida para as condições que vamos enfrentar dali em diante”, disse.

A fase 1A está planejada para funcionar de 2011 a 2017. “A partir de 2017, acreditamos que teremos condições de implantar projetos com saltos tecnológicos. Para isso, precisaremos desenvolver interlocutores na indústria, implantando ali um maior número de doutores”, disse Minami.

Melhorar a interlocução

Para Raimar van den Bylaardt, gerente de tecnologia do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), embora a pesquisa básica só vá ser trabalhada pela Petrobras a partir de 2017, o desafio para o setor de tecnologia já começou.

“A pesquisa de fronteira produzida pela universidade é fundamental, mas há necessidade urgente de impulsionar o desenvolvimento de tecnologias de base para dar sustentabilidade tecnológica às empresas envolvidas com o setor de petróleo e gás”, disse.

Segundo ele, existem exigências relativas ao índice de nacionalização das empresas que participam do esforço de exploração do pré-sal. “Essas empresas já têm dificuldades para atender aos índices atuais de conteúdo local. Com o avanço da demanda produzido pela exploração do pré-sal, o desafio ficará mais premente, pois a importação também aumentará. Se não houver desenvolvimento de tecnologias de base locais, essa indústria ficará insustentável”, disse.

Para ampliar o índice de nacionalização, segundo Bylaardt, a solução é diminuir a distância entre universidade e indústria no fornecimento de tecnologia básica. De acordo com ele, se a cooperação entre universidade e empresas no Brasil é escassa, a principal lacuna está no nicho da tecnologia de base.

“É preciso mudar a mentalidade nessa interface entre indústria e universidade. A tecnologia de base é condição para chegarmos ao patamar das empresas internacionais. Para desenvolver uma válvula de alta tecnologia, é preciso primeiro dominar os processos de fundição, por exemplo”, destacou.

FONTE: Revista Pesquisa - São Paulo