Notícia

Jornal do Brasil

Libélula, inimiga dos veículos

Publicado em 25 dezembro 2000

Por DANIELLE NOGUEIRA
As libélulas passaram a dividir com os passarinhos a responsabilidade pelas manchas esbranquiçadas que aparecem de vez em quando na lataria dos carros. Equipe do Instituto de Química da USP descobriu que os minúsculos ovos desses insetos, quando em contato com a carroceria quente dos veículos, desencadeiam uma reação que produz ácido cisteico - mais forte que o ácido sulfúrico -, capaz de corroer a pintura e provocar ferrugem, além de manchas. Os insetos são atraídos pelo reflexo da luz na carroceria lisa dos carros, efeito que se assemelha à superfície da água, onde as libélulas põem seus ovos. "As libélulas os orientam muito pela visão. Só assim elas reconhecem onde há água. Quando a luz solar incide em superfícies lisas como chapa de vidro, piso encerado ou a lataria bem polida de um carro, elas são confundidas pelo reflexo da luz e acabam depositando os ovos nessas superfícies", explica Cassio Stevani, da USP. Três ou quatro horas após a postura, as primeiras manchas (de 5mm de diâmetro) começam a aparecer. Isso acontece porque, os ovos do inseto têm um aminoácido - cisteína -, que, ao entrar em contato com a lataria quente, se transforma em ácido cisteico, corroendo a carroceria. O problema foi levantado pela primeira vez, em 1994, quando uma das revendedoras da General Motors, em Ibitinga, no interior de São Paulo, procurou a montadora para se queixar de manchas que vinham surgindo nos carros de seu estacionamento. A GM, então, procurou a Renner DuPont Tintas Automotivas, responsável pela pintura dos veículos, que por sua vez contactou o Instituto de Química da USP em busca de uma solução. Tintas - "Fomos a Ibitinga com a equipe da USP e ficamos impressionados com a quantidade de libélulas que existia na região", diz Marcos Fernandes, químico da Renner DuPont. Os pesquisadores coletaram alguns insetos para estudá-los em laboratórios e logo descobriram que eram as libélulas a causa de tanto aborrecimento. "Até agora não tínhamos desenvolvido tintas para evitar este tipo de problema. Nossa preocupação sempre foi com situações rotineiras, como a chuva ácida", conta Fernandes, que já está trabalhando num verniz antilibélula. Além das manchas, os ovos dos insetos também podem causar ferrugem. Ao pôr os ovos - são cerca de 300 por vez -, a libélula libera água oxigenada, resultante de processo químico para endurecê-los e escurecê-los, um mecanismo de proteção natural. "A água oxigenada funciona como um agente oxidante", explica Stevani. Segundo ele, a ameaça das libélulas é mais comum nas zonas rurais e durante o dia, quando o ângulo que os raios do sol fazem ao incidirem sobre a lataria simula a superfície da água.