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FAPESP Na Mídia

Liana John destaca a importância de trabalhar com Jornalismo Ambiental

Publicado em 08 julho 2004

Jornalista profissional desde 1977, Liana John, 46 anos, é especializada em Ciência e Meio Ambiente há 20 anos. Nascida na capital paulista, ela estudou na última turma de jornalismo da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), curso encerrado por motivos políticos em 1976. Trabalhou nas revistas Isto É, Veja e Guia Rural Abril. Em 1988 assumiu a editoria de Ciência e Meio Ambiente da Agência Estado, onde permaneceu durante 15 anos, até dezembro de 2003. Neste ano, aceitou o desafio de lançar uma nova publicação sobre conservação ambiental, a revista Terra da Gente. Inspirada em um programa da EPTV afiliada da Rede Globo no interior de São Paulo e sul de Minas Gerais a revista tem periodicidade mensal, distribuição nacional e está nas bancas desde maio. Em entrevista concedida à ABJC por e-mail, Liana destaca a importância de sua experiência trabalhando ao mesmo tempo com Jornalismo Científico e Jornalismo Ambiental. Para ela, são temas indissociáveis. A jornalista comenta a dificuldade em cobrir a área no Brasil, onde a prática do Jornalismo Ambiental ainda é recente. Mas afirma: "quem sai do lugar comum e publica o que o Brasil produz tem retorno garantido do público leitor". ABJC - A editoria em que você trabalhava na Agência Estado foi uma das precursoras na união do Jornalismo Científico com o Jornalismo Ambiental. Qual a diferença de trabalhar com os dois temas juntos? Liana John - Jornalismo Ambiental, no meu entender, é Jornalismo Científico. Não se trata de trabalhar os dois temas juntos ou separados, eles são indissociáveis. Tivemos um primeiro momento, no jornalismo brasileiro, em que os jornalistas que cobriam Meio Ambiente eram mais militantes e lidavam com as denúncias, refletindo a necessária agressividade de um movimento ambientalista emergente. Isso prevaleceu nos anos 70 e início da década de 80. Eu me considero de uma segunda geração de jornalistas ambientais brasileiros, que, sem deixar de fazer as denúncias, optou mais claramente por uma aproximação com a Ciência - ou as Ciências, no plural, porque para escrever sobre Meio Ambiente é preciso estar em contato não só com a Botânica, Biologia da Conservação, Ecologia, Geologia e Zoologia, como também com a Hidrologia, Química da Atmosfera, Geoprocessamento, Engenharia Nuclear e outros tantos campos relacionados com o funcionamento e as disfunções do planeta em que vivemos. E qual o papel do Jornalismo Científico na divulgação de notícias ligadas ao Meio Ambiente? É importante trabalhar com conteúdo científico para driblar os oportunistas que só querem seus 15 minutos de fama e constantemente procuram a mídia para vender seu peixe. E há um bocado deles circulando por aí. O jornalista, qualquer jornalista, precisa ter fontes confiáveis para errar menos, para escrever de forma mais clara. No caso da cobertura ambiental, que é relativamente nova na nossa história, há muitas descobertas em andamento, muitas verdades científicas se transformando. Termos e conceitos novos aparecem e desaparecem e o jornalista tem a obrigação de traduzir o linguajar técnico dos especialistas para um português mais acessível. Se ele não trabalha com as ferramentas do Jornalismo Científico, se nem entende o linguajar técnico dos especialistas, como vai fazer essa tradução? Uma das críticas que se faz à cobertura de Ciência atual diz respeito ao fato de que a maioria das matérias publicadas se refere às pesquisas internacionais. No Brasil, trabalhar com Ciência e Meio Ambiente ao mesmo tempo pode dar maior visibilidade à produção científica nacional? Em 1995, na Agência Estado, criamos uma seção semanal chamada Ciência Aplicada na qual só publicávamos resultados de pesquisas brasileiras. A seção ainda existe, no portal Estadão, embora tenha ficado mais bissexta. O retorno que tivemos de pesquisadores entrevistados e de leitores - muitos dos quais estavam fazendo pós-graduação no exterior e acessavam as matérias via Internet - foi muito gratificante. Souberam de resultados de pesquisas da indústria nacional a partir de matérias publicadas por nós. Divulguei com grande prazer o trabalho de laboratórios premiados no exterior por sua produção na área de novos materiais, de inteligência artificial, de reciclagem industrial. Tinha leitores fiéis, que aguardavam a publicação das novas matérias, como quem segue novela. Cheguei a receber uma mensagem de um leitor, pedindo "pelo amor de Deus" para não abandonar a seção Ciência Aplicada. Tudo isso só confirma a crítica que se faz à cobertura científica, de publicar mais pesquisas internacionais embora haja tanta carência de divulgação dos resultados da pesquisa brasileira. Quem sai do lugar comum e publica o que o Brasil produz, tem retorno garantido do público leitor. Mesmo quando se trata de Meio Ambiente, há dificuldade em cobrir as pesquisas feitas no Brasil? Por que isso ocorre? Infelizmente é uma questão de comodidade. É mais fácil receber e "remixar" o release internacional ou resumir o que saiu na Nature e na Science, que é manchete garantida. Dá muito mais trabalho sair caçando teses e artigos brasileiros; fazer entrevistas que podem não dar matéria e, de vez em quando, ainda ter que vencer a resistência do pesquisador em falar. Porque ainda há muitos que não sabem divulgar o próprio trabalho ou têm receio dos erros de um jornalista despreparado. E, pior, existem até pesquisadores que acham que não devem satisfações ao público, como se a pesquisa não tivesse uma função social e como se, via de regra, não fosse o contribuinte que lhes paga o salário e viabiliza os recursos de projetos, com os impostos pagos. Geralmente a imprensa brasileira oferece pouco espaço para a divulgação científica. Você acredita que esse espaço se restringe ainda mais quando se fala de questões ambientais? Tanto o espaço de Ciência como o de Meio Ambiente precisam ser diariamente conquistados nos jornais e nas revistas semanais de informação. O fato de não existirem editorias fixas na maioria dos veículos tem um lado ruim e um lado bom. O lado ruim é essa competição diária com os outros assuntos das editorias de Geral ou Cidades, como Educação, Saúde, Comportamento. Isso limita, em especial, as matérias positivas, alimentando o vício da manchete negativa, dos exageros, do denuncismo. O lado bom é que a competição obriga os jornalistas ambientais a se qualificarem para brigar por espaço e assim tendem a escrever melhor. Claro que ainda falta visão às empresas jornalísticas brasileiras, para investir na especialização dos jornalistas. Elas mal liberam o repórter para cursos e seminários. Mesmo assim, há os que aprendem a ser teimosos e usam matérias de qualidade para ocupar espaços disponíveis. Qual a sua impressão do nível de compreensão do público quanto às matérias científicas sobre Meio Ambiente? O nível de compreensão tem melhorado, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Não poderia ser diferente porque ainda está se descobrindo o Meio Ambiente como tema, inclusive nas instituições de pesquisa. E ainda falta se consolidar, aqui no Brasil, a noção de cidadania, de Meio Ambiente como bem comum, que dará o passo adiante, que é colocar a ciência a serviço desse bem comum. De qualquer forma, essa falta de compreensão obriga o jornalista ambiental a ir um pouco além da noticia e sempre incluir uma explicação, um conceito, um pouco de conhecimento na matéria, ou seja, fazer um papel secundário de educador. Esse papel formador não pode suplantar a função jornalística. É preciso tomar cuidado com isso. Mas é importante ser didático para aumentar a compreensão sobre fenômenos naturais, sobre o papel de cada um na conservação ambiental. Você acaba de mudar de empresa, saindo de uma agência reconhecida nacionalmente para investir em uma nova revista, especializada. O que a levou a tomar essa decisão? A segmentação das publicações é uma tendência? O desafio de consolidar uma revista especializada no Brasil é imenso. A segmentação das publicações é uma tendência nos países desenvolvidos - e não é nova, já tem produtos maravilhosos e público cativo. Mas aqui esse nicho de mercado ainda está por ser construído. Os 15 anos que passei na Agência Estado foram de muita transformação, dentro e fora da empresa. Desde o início contei com o apoio e envolvimento pessoal do Rodrigo Mesquita, diretor da AE, e apesar de sermos agência de noticias pudemos definir uma linha editorial, alimentar debates, pensar o Meio Ambiente. Mas a crise do Grupo Estado acabou envolvendo também a agência. Então apareceu essa oportunidade de fazer a revista, que significava trabalhar num projeto novo, ainda por ser moldado, com um foco em conservação ambiental e com uma equipe que tem a mesma paixão pelo tema. Sabia que não seria uma transição fácil e não foi, especialmente porque vi diminuir o espaço ambiental nos jornais que publicam a AE. Mas era um convite irresistível e não me arrependo. Qual a avaliação que você faz do mercado de trabalho para os jornalistas que escrevem sobre Ciência? Apesar das flutuações de espaço disponível na grande imprensa, apesar dessa necessidade de conquistar diariamente o espaço, acredito que houve um crescimento importante. Em qualidade, sobretudo. A transformação do boletim de pesquisa da Fapesp em revista, por exemplo, obrigou as editorias de grandes jornais e mesmo as revistas que tratam do tema a sacudirem a poeira assentada. O Jornalismo Científico que eles fazem é muito bom e foi o grande acontecimento nessa área, nos últimos 10 anos. Implicou mesmo numa maior cobertura da Ciência produzida no país e também acabou provocando, num bom sentido, diversas assessorias de imprensa de instituições de pesquisa que estavam acomodadas. Enfim, vejo crescimento aí, apesar das condições precárias em que se encontra o jornalismo brasileiro ou as empresas jornalísticas brasileiras.