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Agência USP de Notícias

Levantamento detecta leishmaniose em cães atendidos no Hospital Veterinário

Publicado em 06 outubro 2008

Por Valéria Dias

Um levantamento sorológico realizado com 427 cães atendidos entre 1997 e março de 2008 no setor de Dermatologia do Hospital Veterinário (Hovet) da USP mostrou que 117 deles apresentaram sorologia positiva para Leishmania spp., protozoário causador da leishmaniose visceral. A pesquisa foi realizada pelo aluno de iniciação científica Cauê Pereira Toscano sob a orientação do professor Carlos Eduardo Larsson, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP. O trabalho contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A leishmaniose visceral é transmitida a seres humanos e a animais pela picada do “mosquito palha” (Lutzomyia longipalpis) infectado por L. chagasi. A doença afeta, em ambos os casos, a pele, as vísceras (baço e fígado) e a medula óssea, podendo levar à morte quando não tratada adequadamente. Quando detectada, é obrigatória a sua notificação aos órgãos competentes.

Os cães infectados se tornam hospedeiros do parasita e são uma das fontes de infecção do mosquito vetor, aumentando as chances de transmissão para humanos. Por isso, o Ministério da Saúde recomenda, como uma das medidas de controle da doença, a eutanásia desses animais. Não existe medicamento animal específico para tratar leishmaniose e a administração de fármacos usados no tratamento em humanos está proibida pelos Ministérios da Saúde e da Agricultura, Pecuária e Abasteciemento.

O mosquito vetor é encontrado em zonas rurais, próximo a matas fechadas, motivo pelo qual a doença era considerada restrita a áreas silvestres ou rurais. Entretanto, este quadro tem mudado. De acordo com informações do site do Ministério da Saúde (http://portal.saude.gov.br/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=22141), nos últimos anos, a leishmaniose visceral têm atingido cidades de médio e grande porte. Cerca de 70% dos casos ocorrem no Nordeste, mas há registros em outras três regiões brasileiras: Sudeste, Norte e Centro-Oeste. Na média, são registrados, no Brasil, cerca de 3.500 casos por ano.

Casos alóctones

Sobre os 117 animais infectados por Leishmania spp detectados sorologicamente no levantamento da FMVZ, o professor Larsson pondera que “é muito pouco provável que algum desses cães tenha sido infectado na Capital paulista”. Para o professor, os resultados desse levantamento mostram que a doença vem se aproximando das grandes cidades. No entanto, ele vê a situação com uma certa cautela. “Vale lembrar que a cidade de São Paulo não apresenta casos autóctones [contraídas dentro da própria cidade] de leishmaniose. O problema poderá a vir ocorrer caso o mosquito vetor chegue até as grandes cidades, ou ainda, se houver a adaptação de algum outro vetor na transmissão da doença”, destaca Larsson, que é Chefe do Serviço de Dermatologia do Hovet.

Segundo o levantamento do Hospital Veterinário da USP, em 82% dos 117 casos (96 cães), foi possível apontar o local onde, pressupostamente, ocorreu a infecção. As cidades com o maior número de casos de infecção foram: Cotia, Guarujá, Ibiúna, Embu das Artes, Itanhaém, Atibaia, Bertioga e Caraguatatuba (no Estado de São Paulo), com 50 casos; em Belo Horizonte (MG), com 4 casos; além dos Estados de Rio de Janeiro, Bahia, Santa Catarina, Ceará e Rio Grande do Sul. Do exterior, foram apontados Portugal, Alemanha e Estados Unidos. Para os outros 18% (21 casos), não foi possível apontar a cidade onde possivelmente os animais foram infectados. Os exames sorológicos foram realizados em Laboratórios da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

O professor explica que a grande maioria desses animais nasceu ou foi comprado em outras cidades e estados, ou até países, e que muitos acompanharam seus donos em viagens para locais onde há incidência da doença. “Um dos cães detectados com Leishmania chagasi é um Lhasa Apso que mora em São Paulo e que já foi levado em viagens para Trancoso, Rio de Janeiro e Porto Alegre. O local de nascimento desse animal era desconhecida. É impossível apontar, com precisão, onde ele se infectou”, esclarece Larsson.

Notificação

De acordo com Larsson, o primeiro caso alóctone (contraída fora da cidade) diagnosticado no Serviço de Dematologia do Hovet foi 1997. O cão era proveniente do Triângulo Mineiro e havia sido comercializado em um shopping paulistano. A partir daí, os pesquisadores decidiram realizar exames sorológicos e parasitológicos de cães com quadro clínico (sintomas e lesões) e mesmo de animais assintomáticos, mas provenientes de áreas endêmicas.

Larsson ressalta que sorologias positivas podem, por vezes, serem evidenciadas em formas cutâneas de leishmaniose e infecção por outros protozoários (Toxoplasma gondii, Tripanozoma spp), micobactérias ou riquétsias (Erlichia canis). Dos 427 soros animais investigados, 301 (70%) mostraram-se negativos e outros nove (2%) tiveram resultados inconclusivos. “Quando se evidencia positividade sorológica e ocorrência de manifestações clínicas (aumento dos “gânglios” linfáticos, baço e fígado; anemia; emagrecimento; lesões cutâneas: escamas, crostas, úlceras, etc.) são realizados exames histopatológicos e parasitológicos, a partir de material biopsiado”, conta. Ainda, segundo o Chefe do Serviço de Dermatologia do HOVET/USP, o diagnóstico final é estabelecido com a evidenciação do parasita no material colhido.

O professor Larsson informa que, segundo as recomendações oficiais, já providenciou a notificação dos 117 cães soropositivos às Secretarias Municipal e Estadual da Saúde.

Mais informações: (11) 3091-1287 / 1330 ou e-mail larsderm@usp.br, com o professor Carlos Eduardo Larsson